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PABLO MORENNO
 

CASEIROS

No último sábado estive em Caseiros, sua primeira Feira do Livro. Modesta, mas cheia de boa vontade, Adão Dondone, o Secretário de Educação, não mediu esforços para realizá-la. Foram duas palestras, uma pela manhã e outra pela tarde. Participei com o encantamento de crianças e jovens que fizeram um excelente trabalho com meu livro UM MENINO ESQUISITO. A feira se realizou na praça central e junto com a MOSTRA CASEIROS que trouxe a amostra da economia da cidade. OBrigado ao Adão pelo convite e pela hospitalidade deste município. E que o sonho da Feira se mantenha sempre vivo. Abaixo algumas fotos:

 A música sempre ajuda a descontrair. E as crianças, que sabiam as  musiquinhas do livro, cantaram comigo.

  Ao fundo os trabalhos, desenhos, das crianças sobre meu livro.

 Aí está Monteiro Lobato me dando a honra de assistir à minha palestra. A Fada Lili de QUintana, e o Black and White .

 Estas meninas fizeramas um jogral com o poema UM MENINO ESQUISITO. E foi muito bonito, muito bonito  estar em Caseiros!



Escrito por Pablo Morenno às 20h56
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LAGOA VERMELHA

Na última quinta-feira, estive na Feira do Livro de Lagoa Vermelha. Seu tema foi o meio ambiente e os livros. Um encontro de pessoas e livros na praça. Fui muito bem recebido pelo pessoal da Secretaria de Educação e o SESC. Tenho que agradecer especialmente ao presidente do SINDILOJAS por ter me proporcionado um hotel para descansar entre uma palestra e outra.

Em Lagoa, conheci a Laurinha, que já tinha escrito alguns e-mails e se interessado por minhas obras. Gostei das crianças e jovens e acho que eles também gostaram. Graças ao livro e à leitura temos estes encontros maravilhosos com pessoas.

Há pouco me ligou o Secretário Adão Dondone de Caseiros, que organiza sua primeira feira do livro. Pelos esforços que a antecipam, pode-se ver que vai ser um sucesso. Jà estão providenciando a leitura e o trabalho com os livros. E isso sempre faz uma feira ser mais comprometida com a formação de leitores. Afinal, mais do que um evento, deve-se formar leitores.



Escrito por Pablo Morenno às 21h30
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Agenda

           Na próxima quinta-feira,22/10,  estarei na Feira do Livro de Lagoa Vermelha falando com crianças e jovens sobre a importância da leitura e do livro. O convite é do SESC e a promoção é da Secretaria de Educação de Lagoa Vermelha.

                No dia 12 e 13 de novembro estarei na Feira do Livro de Estrela-RS.

                  No dia 21 de novembro é a vez de me fazer presente na 1ª Feira do Livro de CASEIROS-RS.



Escrito por Pablo Morenno às 18h22
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Texto produzido na oficina Pro Ler Caxias

OFICINA DO PROLER: 09/10/2009

9 - Crônica: O perdurar do efêmero - Pablo Morenno

 

( Motivação: Na lixeira do prédio há um guardanapo, um pedaço de bolo, uma coca-cola pela metade e um copo plástico que foram deixados ao final de uma festa)

 

O homem saiu de casa às onze da noite. Em ponto. Estava decidido a arrombar a primeira loja que encontrasse. Uma joalheria seria um pouco arriscado. Sempre tem alarme.

Ao longe, podia escutar a sirene do carro de polícia. Não se intimidou. Seguiu pela rua principal e, na próxima quadra, chegaria à rua da padaria.

No seu pensamento ainda trepidavam os gritos do filho de dois anos e da esposa, raivosa ao descobrir que o dinheiro do trabalho da semana inteira tinha virado pó. E branco. A criança também gritava, mas de fome. Não sabia quando tinham comido pela última vez. E nem queria saber.

À frente do prédio dos “marajás” se deparou com um altar. O guardanapo tinha um canto de renda desfiado. Sobre ele, pousava um prato de plástico com um convidativo bolo de chocolate. Uma cereja sobre ele. Uma garrafa pet de Coca-Cola, pela metade, acompanhava o doce. , ao lado dela, um copo plástico aguardava para ser usado.

Procurou no bolso algo que servisse de talher, mas sua mão tocou o metal gelado de um revólver que tinha recebido em pagamento da droga vendida..

A festa do prédio havia terminado. A sua não aconteceria. Tinha decidido, em algum momento entre o sair de casa e acender do cigarro, que usaria aquela bala para adoçar sua angústia e acabar com as cobranças da mulher e do filho.

Acariciou a arma e tirou a mão do bolso, tentando entender por que resolvera arrombar uma loja ou assaltar algum solitário que se atrevesse a sair àquela hora.

Olhou o bolo que agora seria seu. Deveria cantar parabéns para si mesmo?

Num segundo, a luz dos faróis de um carro iluminou o rosto sem expressão. Ensaiou uma fuga. Percebeu que não chegaria a lugar algum. Tomou a decisão mais difícil: recolheu o bolo e o refrigerante. Embrulhou a arma no pano branco e jogou na lixeira.

Voltou para casa quase sem tocar o chão, torcendo para que o recebessem com aquele sorriso de quem ganha uma festa de aniversário surpresa.

 

                    Maristela Facchin Dall’alba



Escrito por Pablo Morenno às 18h16
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Caxias do Sul

                 Feira do Livro de Caxias do Sul – Pro Ler

 

 

De quinta a sábado, últimos, estive em Caxias do Sul, durante a Feira do Livro da cidade. Participei, mas especificamente, ministrando uma oficina sobre a crônica no Pro Ler.  A experiência foi ótima. Era meu teste na estrutura de oficina. Sempre falei sobre crônica, havia montado uma oficina, mas nunca havia provado o formato. E foi ótimo.

Iniciamos o trabalho falando dos fazeres humanos: técnica e arte.

Depois situamos a literatura como arte e, depois, a crônica como literatura. O segundo momento foi de leitura dirigida de algumas crônicas utilizando ferramentas de uma leitura crítica.

Por fim, os participantes foram convidados a escrever um texto partindo de uma situação por mim relatada.

Trabalhei com dois grupos na sexta-feira, manhã e tarde.  Os dois grupos eram formados por pessoas já amadurecidas no exercício da leitura, simpáticas, afáveis. Colaboraram com a proposta, e me fizeram sentir em casa. Obrigado a todos Na quinta à noite foi a abertura, com palestra de Roger Mello. No sábado pela manhã, encerramento com todos os oficineiros.

Abaixo algumas fotos e, acima, um texto produzido por uma oficinanda.



Escrito por Pablo Morenno às 18h12
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anjo_da_guarda2.jpg

   O MENINO E O ANJO DA GUARDA

 

 

            A primeira vez que falou com seu anjo da guarda Alex era um recém-nascido.

            - O caso deste menino é complicado. Mas não é grave,-  disse o médico -, má-formação do aparelho urinário.

Teria que ser submetido a uma cirurgia. Entrou para uma sala iluminada deram-lhe anestesia.

Quando acordou, estava sozinho no quarto. A mãe e o pai, que ele nem tinha visto direito, desapareceram. Nunca mais os viu.

 

Recém chegado ao abrigo, conversou com seu anjo da guarda outra vez. Falava apenas em pensamento. Ainda não conhecia as palavras. Alguém o deixou no berço e sumiu pela porta.

 Preferiu o silêncio. Se chorar adiantasse, todos os outros bebês não estariam ali sozinhos.

Ficou ali olhando o móbile movendo-se automaticamente.  Passou o dia com a chupeta na boca. Olhava as grades do berço e o móbile, o móbile e a parede, a parede e a porta.  Assim seriam muitos e muitos dias.

Esperava que sua mãe aparecesse. Nunca apareceu.

 

            No dia de seus primeiros passos, ele e o anjo também tiveram uma conversa. A monitora colocou-o de pé ao lado do berço e ficou a alguns metros. Ela segurava um cachorrinho de borracha que latia quando apertado.

            - Vem, Alex, vem pegar o cachorrinho!

            Alex deu o primeiro passo, depois o outro, depois o outro.

Quando viu estava nos braços da monitora. Todo mundo no abrigo bateu palmas. 

Todo mundo eram a monitora e uma enfermeira.

Recebeu um abraço.

Quando colocado de volta na cama, pediu ao anjo para que realizasse seu desejo.  Quem sabe, agora que sabia caminhar, seria mais fácil encontrar uma família que o quisesse.

Ficou esperando.

 

            O anjo também ouviu a oração de Alex no dia em que o menino fez cocô e xixi no banheiro. Foi uma agitação no abrigo. Mais um beijo e um abraço. Quem sabe, agora que não usava mais fraldas, seria mais fácil achar alguém que o quisesse.

Ficou esperando.

           

Numa manhã, a monitora o chamou ao pátio. Era um casal que desejava  levá-lo para um passeio. Almoçaram juntos, foram ao circo, tomaram sorvete. Onde passavam, as pessoas olhavam seu cabelo encaracolado, sua pele morena.  Depois olhavam para o casal loiro.

Alex achou que naquela noite dormiria em alguma casa de verdade.

Achou errado.

No final da tarde, o trouxeram de volta com roupas novas e um brinquedo. Nunca mais apareceram.

Conversou com seu anjo sobre o que havia acontecido.

Seu anjo nem resmungou. 

 

            Pensou em ter outra conversa séria com seu anjo quando passou para a segunda série. Já sabia ler e escrever algumas coisas jogava futebol na escolinha do Grêmio.

Poxa, já estou no primeiro ano da escola, e ainda estou aqui, será que você não é competente para achar uma família para mim?

 

            Alex conversava todos os dias com seu anjo da guarda.

Isso era antes.

Agora ele só reza no dia 03 de fevereiro de cada ano, quando faz aniversário. Já se passaram onze três de fevereiro.

 

 Depois da reportagem no jornal o ano passado, muitas famílias o visitaram, nenhuma quis ficar com ele.

            - Acho que já estou velho demais. As crianças são adotadas com três, cinco anos, depois fica difícil.  Acho que os pais preferem as crianças pequenas porque aí elas não sabem que estão sendo adotadas, pensam que são os pais verdadeiros.

            Alex falou assim ao repórter. Sei que foi uma indireta ao seu anjo da guarda.

            Mais uma vez, o anjo ouviu e ficou quietinho, com sua cara pálida e gordinha.

Acho que um dia Alex vai deixar de falar com ele. 

Pablo Morenno



Escrito por Pablo Morenno às 22h14
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O menino e as correntes

O MENINO E AS CORRENTES  

 

 

            Naquele dia, quando a mãe chegou em casa com as correntes, ele pensou que fosse para prender o cachorro.  O cão andava muito pela vizinhança, não tinha sossego. Ameaçava qualquer um que aparecesse na rua.

Agora é  ele quem está acorrentado na varanda da casa. Dois cadeados e uma grossa corrente de ferro o prendem. Um cadeado amarra a corrente à coluna, outro amarra a corrente a seu tornozelo. Veste-se como um mendigo, tem olheiras profundas e olhos apagados.  Tenta correr, tropeça na corrente e cai.  Quer desamarrar-se, bate a corrente  contra o cimento pensando rompê-la. É inútil. A coluna sacode o telhado, mas ele continua ali, preso.  Depois de se machucar, sossega. Prova um pouco da água e do pão que a mãe lhe deixou ao alcance.

            O cachorro corre pelo pátio. Às vezes chega e lhe lambe as mãos. Como se soubesse de sua necessidade, não vai além do portão. Sente raiva, range os dentes. Se pudesse morderia até o cachorro. Mas o transe passa e ele pensa. O cachorro é a única criatura que existe ali em casa agora. Melhor deixar que ele deite ao seu lado com compaixão.  O cão se acomoda junto à sua cabeça e prova um pouco da mortadela que sobrou. Estão ali os dois, quase iguais. A única diferença é que o cachorro está livre e sente pena de Deivid.

 A mãe foi trabalhar numa fábrica de calçados, não tinha alternativa. Se o deixasse solto,  ele venderia tudo para o vício.  Tinha 15 anos, 1,70, e apenas 35 quilos.  O médico disse que ele não resistiria muito tempo. A morte estava próxima.

            Naquele tempo, a família morava em Novo Hamburgo, perto de um beco. Cinco pessoas em um quarto com cozinha e banheiro. Não havia assoalho, apenas chão batido. Naquele tempo, ele chegou a usar 20 pedras em um dia. Assaltava, furtava.  Esteve internado na FASE. Praticamente um animal. Por isso, quem sabe, precisou ser amarrado.

            Hoje, quando a mãe chegou com as correntes, ele pensou que fosse para ele. E eram. A mãe lhe comprou uma corrente de prata, exatamente como ele sempre quis. É com esta corrente de prata no pescoço e um sorriso no rosto que eu vejo ele e a mãe no jornal. Com 56 quilos, feliz ao lado de dona Lúcia, Deivid tem hoje seu primeiro dia de trabalho. Vai trabalhar na mesma fábrica da mãe em Sapiranga. E quer mais. Vai cursar faculdade de informática.  

            A mãe não se contentou em amarrar o filho em casa. Também fez um longo caminho para que o filho recebesse tratamento de desintoxicação. Foi à justiça, à imprensa, ao Conselho Tutelar, ao Ministério Público. Todo mundo descrente. A mãe agarrou-se à esperança quando ninguém mais acreditava.

Hoje Deivid está recuperado.  De vez em quando, olha as fotos que a mãe tirou dele quando estava no vício. As fotos estão no meio das de seu batizado, de seus aniversários, da primeira comunhão.

 Muitas vezes, quando lê os jornais, se depara com a notícia da morte de alguns de seus antigos conhecidos. Eles não tiveram ninguém para amarrá-los. Ele está vivo, e bem. Isso é tudo.  Entre ele e a mãe as correntes sempre foram muito fortes.

Pablo Morenno



Escrito por Pablo Morenno às 23h17
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A menina e as bonecas

                                              A MENINA E AS BONECAS

 

 

Domingo. O pai de Maiara se levantou cedo. Tomou o café da manhã sem palavras. Sua filha está no quarto. Faz dias que não sai. Apenas chora na janela. Sua mãe levou-lhe um suco, mas ela não tem fome.

            Maiara não vai a escola faz duas semanas. Uma amiga traz o caderno e ela copia a matéria. A professora veio visitá-la. Insistiu para que não perdesse as aulas. Mas ela tem vergonha. Passa a maior parte do tempo na janela, olhando o jardim.

            Depois do café, o pai caminha até um galpãozinho nos fundos da casa, pega o machado. A ferramenta está sem uso faz tempo. Depois que a família mudou-se para a cidade, nunca mais precisaram de lenha.

            Quando o pai construiu a casinha de bonecas que está no jardim, Maiara tinha 4 anos. Era casa de bonecas, mas com jeito de casa de gente. Até pouco tempo Maiara ainda passava lá brincando, ou lendo seus livros, ou ouvindo seu MP3. Algumas vezes convidava suas amigas. Levavam alguma coisa para comer. Ficavam na casinha fazendo as tarefas de escola, ou conversando. A casa de brinquedo tem poltronas para sentar, tapetes, uma cozinha quase completa. Até se pode dormir na cama, se não for alguém muito grande.

             Maiara olha sua casa cor-de-rosa enquanto o pai se aproxima com o machado na mão. É lá, na casinha da Cinderela, onde estão todas as bonecas que ganhou quando criança. Tem uma boneca negra, tem uma boneca índia. Tem boneca que fala e que faz xixi. Tem boneca que pede mamadeira e quer colo. Tem boneca que diz “mamãe” e “to com sono”. Tem boneca que dá risada e que arrota. Tem boneca que canta canções de ninar e uma boneca que reza o Santo Anjo. Tem boneca que fala inglês e que fala espanhol. Tem até uma boneca quase de seu tamanho, presente da madrinha. Mas, entre todas, a sua preferida é uma boneca simples, vestida de chita, feita por sua avó com restos de pano.

            O pai olha demoradamente para a casinha. Aos poucos, quase sem força, levanta o machado. Dá o primeiro golpe na madeira do canto. Depois, vai derrubando uma a uma as paredes. O teto despenca. Todas as coisas ficam a descoberto. No jardim, sobre a grama, estão os restos de madeira, a cozinha, as poltronas, a cama. As bonecas, abandonadas entre os destroços, parecem pedir socorro depois de um vendaval. O pai guarda o machado, abre o portão, e sai para a rua.

            Maiara observa da janela. Não sabe por que, mas não está triste. Faz algum tempo que está diferente, que não ficava mais na casinha, que não penteava mais as bonecas, nem lhes dava banho. Agora que as bonecas estão todas sem abrigo sobre a grama, sente-se com pena.

            Pela primeira vez, depois de dias, Maiara sai do quarto. Recolhe uma por uma as bonecas e as guarda dentro de uma caixa. Daqui a alguns anos, alguém brincará com elas.

Maiara vai fazer catorze anos e está grávida de uma menina. Ontem à noite, ela e a mãe contaram para o pai. 

Pablo Morenno



Escrito por Pablo Morenno às 22h38
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A menina e os lobos

A MENINA E OS LOBOS

 

 

            Tinha apenas seis anos. Mimava muito suas bonecas.  Nunca  havia feito nada de errado. Passeava com a mãe e o irmão de cinco anos  na rua  Haddok Lobo, Jardins,  em São Paulo. De repente, três homens saltaram de um automóvel. Arrancaram ela dos braços da mãe. Taparam sua boca com um pano. Usaram  cordas de nylon para amarrá-la. Depois a colocaram no porta malas de um carro, rodaram por algumas horas,  a deixaram num lugar desconhecido.

            No início, até achou que fosse uma brincadeira de casinha. No lugar escondido, estava a sua babá. E sempre quando chegava alguém, a babá lhe dizia para ir para debaixo da cama. Às vezes para um porão.  À noite, antes de dormir, sentiu falta do beijo da mãe, e a babá lhe disse que logo chegaria. E do beijo de seu pai, e a babá lhe disse que ficou no trabalho. E do beijo do irmãozinho, e a babá lhe disse que estava na vovó.

            Primeiro dia. Jayce olhou onde estava. Viu baratas passeando, restos de comidas nos cantos, roupas jogadas no chão. Por uma janela do tamanho de duas mãos entrava um pouquinho de claridade. Quando olhava pelo buraco via o céu sempre nublado. Começou a pensar que o sol havia ido dormir e não acordado mais.

Segundo dia. Teve saudades de sua boneca preferida, e chorou baixinho. A babá lhe trouxe sua mochila. A mochila havia sumido da sua casa uns dias antes.  Pegou seu caderno e começou a desenhar lobos maus.

            Terceiro dia. Pediu à babá se não iriam à escola. A babá lhe disse “a escola fica muito longe, iremos amanhã”.

            Quarto dia.Quando a trancaram num porão escuro, ficou chorando, chorando, não comeu nada. Que brincadeira chata! O quarto dia era o amanhã do terceiro dia, ela teria que ir à escola, e não ficar escondida no porão da casa. Essa babá é muito mentirosa.

           Quinto dia. Desde que viera para aquele lugar nunca mais havia tomado banho. Pediu para a babá se não havia um chuveiro. A babá lhe disse “melhor não tomar banho para não ficar resfriada”.

            Sexto dia. Entraram homens com os rostos cobertos por meias.  Estavam armados como os bandidos que se vê na televisão.

            Sétimo dia.  Uma borboleta entrou pelo pequeno buraco na parede. A borboleta era amarela. Uma réstia de sol em suas asas fazia parecer que era de ouro.

Naquele mesmo dia, à tarde, a menina ouviu alguns tiros. A babá lhe pediu para se esconder embaixo da cama. Estava bem quietinha quando viu as botas dos policiais entrando no quarto. De repente, alguém levantou o colchão. Assustou-se um pouco. O policial a abraçou. Sentiu-se como Chapeuzinho Vermelho salva da barriga do lobo.

            Foi também no sétimo dia que Jayce  voltou para casa, correu para os braços da mãe e do pai.  Depois, cansada, dormiu no tapete da sala abraçada ao irmãozinho e à sua boneca.

            A pequena Joyce foi seqüestrada. Ficou uma semana no cativeiro sem nunca ter feito qualquer mal a ninguém. Apenas porque seu pai é um empresário e tem um pouco de dinheiro.



Escrito por Pablo Morenno às 21h13
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Rapunzel

                                  

   A MENINA RAPUNZEL

 

            Se eu me transformasse em pássaro e saísse esta manhã,  procuraria em todas as casas e apartamentos por uma única menina.  Hoje acordei com uma idéia fixa: vou me fingir de pássaro e sair muito leve pelo vento. Onde avistar uma cortina cor-de-rosa na janela, entrarei. No quarto, haverá uma garota que estará se penteando para a ir a escola. Quando ela virar o rosto e me ver pousado no parapeito da janela, lhe perguntarei se cortaria seus longos cabelos para ajudar alguém.

Meninas são vaidosas. Adoram cuidar dos cabelos, deixá-los sedosos e brilhantes. Minha afilhada tem um monte de cremes para os cabelos.  E passa horas na frente do espelho antes da escola. Acho que gasta a escova e os cabelos de tanto se ajeitar. 

 Será que eu voltaria no fim da tarde com minhas asas abanando?

Se eu tivesse acordado a semana passada com esta minha idéia de pássaro, e voasse até Guaporé na Serra Gaúcha, veria uma cortina cor-de-rosa, entraria com meu jeito de pássaro.

 Em frente ao espelho, uma menina 11 anos. Na agenda da Hello Kitty sobre a estante, leio um nome: Jenifer.  Seus cabelos são negros, brilham como água no sol, e têm quase meio metro. Faz cafuné em si mesma.  Sua testa franze no meio dos grossos fios. Seus lábios se apertam.  Está bem quietinha. O rádio desligado. Olha demoradamente seus longos fios, depois o olhos desviam a cabeça, e se fixam num ponto perdido dentro do espelho. 

            Jenifer viu na TV que cabeleireiros pagam uma boa quantia por cabelo natural. Teria coragem?

            Sua mãe tem uma doença grave; gasta quase todo o dinheiro com remédios. Agora, para piorar, quem está doente é seu irmãozinho, de três anos. O rim de Gregory não funciona bem. Para que o médico conheça melhor o problema, será preciso fazer um exame complicado e caro. Na rede pública o exame poderá ser feito sem custo, mas demora muuuito tempo. A outra solução é ir até Caxias do Sul e pagar a um laboratório particular. Mas de onde tirar o dinheiro?

            Jenifer alisa o cabelo com a mão. Seu irmãozinho piora a cada dia. Às vezes, à noite, ouve no quarto seus pais conversando preocupados. Às vezes, quando chega em casa depois da aula, vê os olhos vermelhos de sua mãe.

            Se tivesse me transformado em pássaro na semana passada, veria Jenifer sair de seu quarto, passar pela mãe preparando o almoço na cozinha.  

            - Mãe, vou na casa da Rafa para fazermos um trabalho de Geografia. Teremos que desenhar um monte de mapas. Posso demorar.

          Ao meio dia Jenifer liga para casa:

           - Mãe,  vou almoçar na casa da Rafa, depois iremos à escola.

            A tarde passa.

Termina a aula.

            O sol se põe.

            Na cidade, o silêncio da noite embala a tudo e a todos. Sentada na cama, enquanto lê a estória de Rapunzel, Jenifer passa os dedos com freqüência entre os pequenos e curtos fios que lhe restaram. Seu rosto está sereno, os olhos brilham.  O rádio está ligado no volume baixo para não acordar os pais e o irmãozinho. Como na história que lê, tudo aconteceu por causa de uma bruxa muito feia.  Cabelos crescem de graça, ela pensa, olha-se no espelho, e sorri feliz.

 



Escrito por Pablo Morenno às 21h09
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Santa Rosa

Nâo fui a Santa Rosa. O evento foi cancelado. Bem, como já avisaram que a gripe está no fim, acho que agora não cancelarão mais os eventos. Abaixo um texto que estou escrevendo para um novo livro.São pequenos textos baseados em notícias  reais dos jornais sobre meninos e meninas.

O MENINO E O CAVALO FEIO

 

Em algum lugar do mundo o cavalo sente saudades do menino. Se eu soubesse a linguagem dos cavalos, eu lhe diria que em algum lugar desta cidade o menino também sente muita falta do cavalo. Eu não sei onde está o cavalo, só sei do menino.

O menino chama-se Diogo, tem doze anos, é aluno da 5ª série em Alvorada. Está com uma carinha triste e olhar perdido. O cantinho nos fundos da casa, onde o cavalo Feio descansava à noite, está  quase vazio. Tem apenas um pouco de pasto.  Uma lágrima galopa pelo rosto do menino e se espatifa no chão.

Para comprar o cavalo, Diogo vendeu seu videogame, a TV e uma bicicleta. O restante do valor seria pago em prestações por vários meses.  “Comprado pelo garoto em maio, o cavalo de pêlo mouro (cor escura mesclada de branco) foi levado durante a madrugada na quinta-feira passada”, diz o jornal.

Se alguém quiser curar a tristeza do menino, e diminuir a saudade do cavalo, poderá dar uma espiada em sua rua e no quintal dos vizinhos. Se encontrar o cavalo, por favor, leve-o de volta para os braços do menino.  Feio tem uma mancha preta no lado direito, e o número 91 marcado na pata do mesmo lado.

Se não for possível achar o cavalo, invente idéias. Posso ajudar-te.

 Há uma idéia para resolver as saudades do cavalo. Achas que o cavalo pode facilmente encontrar outro menino igual ao Diogo. Estás enganado. Não há, em todo o mundo outro menino igual ao Diogo. Nem o melhor jóquei substituiria Diogo no coração do cavalo. Essa idéia não serve.  

Outra.  Dizes que Diogo poderia comprar um novo cavalo. Estás enganado de novo. Diogo só tem a roupa, não há mais TV, videogame ou bicicleta. Tem mais. Diogo não quer outro cavalo. Para ele, Feio é o cavalo mais bonito do mundo. Nem o cavalo do príncipe encantado poderia ocupar seu lugar.

Terceira idéia. Parece brilhante. Já que não sabemos onde anda o cavalo, ao menos resolveríamos a saudade do menino. Pedirás para teu pai comprar um cavalo de brinquedo. Um presente para Diogo. Com o cavalo de madeira, quando não estivesse na escola, poderia brincar. Seria assim: o menino subiria no cavalo e sairia num galope pelo asfalto da cidade, imaginando ser um campo sem fim.

       Essa última idéia é a pior. Tudo bem, te perdôo por não saberes da estória completa. Também te perdôo por oferecer ajuda. Diogo não tinha o Feio para brincar de galope no asfalto, apesar de ter apenas doze anos.  Diogo tinha o Feio apenas para ajudar sua família a catar lixo nas ruas e assim ganhar a vida.

         Em algum lugar deste mundo, o cavalo tem saudades do menino. E em algum lugar da cidade, sentindo muita falta de seu cavalo Feio, o menino terá de percorrer as ruas para ajudar a família a ganhar a vida.

 

Pablo Morenno



Escrito por Pablo Morenno às 23h03
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Flor de Guernica

 

  

 A flor de Guernica

 

Esta é a capa do meu novo livro de crônicas. Abaixo o texto que o editor escreveu na orelha.

 

Um livro nunca pode ser mais do que impressão dos pensamentos do autor. O valor desses pensamentos se encontra ou na matéria, portanto naquilo sobre o que ele pensou, ou na forma, isto é, na elaboração da matéria, portanto naquilo que ele pensou sobre aquela matéria.

Segundo Schopenhauer, raros se justificam enquanto escritores, exatamente pela falta de singularidade de seus argumentos. Não é o caso de Pablo Morenno que, em seu segundo livro de crônicas, confirma a peculiaridade de cronista de rara maestria, que prima por foco singular.

Enquanto enquadra o cotidiano em visão própria, também o enche de poesia e deslumbramento, como na crônica A carta: Tomei a carta nas mãos e a li em voz alta.  As palavras saiam de minha boca e cobriam o rosto de mamãe com luminosidade, ou com profundidade reflexiva em As vantagens de ser coisa: Esta é a diferença essencial entre coisas e pessoas. As coisas servem para todos, as pessoas para seus poucos. Assim o cronista troca de pele com sincera sensibilidade, abandonando sua casca para sentir o que sentia aquele pai diante da filha morta por assaltantes.

Pablo, exatamente por que é em essência figura humana única, consegue captar sutilezas capazes de emocionar seus leitores. Por isso, seu livro de estréia Por que os homens não voam? recebe novas edições e coleciona leitores como os melhores cronistas brasileiros.

Sobre o autor e sua obra, escreveu Affonso Romano de Sant’Anna: Pablo Morenno escreve com intimismo e sensibilidade; Lya Luft: Excelente estréia. Entre tantas coisas ruins que se publicam, seu livro é um conforto; Luís Dill: Ninguém percebe quando alguém pisa em uma formiga na calçada. Pablo Morenno percebe. Melhor: consegue nos apresentar o ponto de vista de todos os envolvidos. Até do sapato; e Paulo Becker: Como os bons cronistas, Morenno extrai do cotidiano e da atualidade os aspectos que, por demasiado humanos, não perdem o interesse com a passagem do tempo.



Escrito por Pablo Morenno às 21h56
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Santa Rosa

Próximo sábado/domingo estarei em Santa Rosa, terra da Xuxa, para um curso de formação de professores de Língua Portuguesa e Literatura, se não cancelarem. TOdo mundo anda cancelando tudo por causa da Gripe A.

Recebi e-mail da editora WS dizendo que meu libro FLOR DE GUERNICA está pronto. ME enviam por transportadora. Estou aguardando.



Escrito por Pablo Morenno às 21h59
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DE FRIO, EMPRÉSTIMO E OUTRAS COISAS

 

 

Dizem os críticos que não é de estilo começar um texto assim: “Numa tarde fria....” Mas eu não tenho culpa se realmente a tarde era fria e de sábado. Fazia frio. Frio, simplesmente, nada literário.

Este ano o frio chegou de surpresa como os amigos inconvenientes que às 11h45min transpassam nossas portas dizendo que não nos preocupemos com o almoço. “Estava passando por aqui e resolvi dar uma chegada para ver se você está bem.” Ainda que para alguns o frio tenha sido elevado à categoria de amante e, inconveniente, talvez, não seja um adjetivo muito apropriado, não floresce outra comparação no momento. Particularmente, gosto do frio como gosto dos amigos e amigos inconvenientes é uma antítese porque, os amigos, mesmo chegando na hora do almoço sem avisar, são sempre bem-vindos.

Mas não comecei a escrever para falar do frio nem dos amigos. Queria começar esta crônica escrevendo assim: “No sábado, no final da tarde fria, enquanto lia  El Libro de los Abrazos de Eduardo Galeano, uma menina tocou o interfone e pediu trinta centavos emprestados.” Depois escreveria a sua fala: -“ O senhor tem trinta centavos para me emprestar que outro dia eu lhe pago?”

 Quando tocou o interfone pensei em não atender. Poderia ser o namorado da vizinha do 402- ela sempre está tomando banho quando toca o interfone - ou, então, os entregadores de gás que, dia sim dia não, tocam o interfone. E, infelizmente, o gás termina sempre no dia “não”.

Atendi. Foi a primeira vez que uma criança de rua veio pedir dinheiro emprestado a domicílio. Seria isso um sintoma da globalização? Vejam, esta criança não me abordou na rua ou numa sinaleira. Deu-se ao trabalho de vir até minha residência. Não pediu uma esmola, pediu um empréstimo. Fiquei surpreso porque empréstimo a gente pede aos bancos - que não funcionam aos sábados - ou aos amigos, que em resumo, têm a mesma utilidade. Mas, trinta centavos! Não poderia ser um real para arredondar? O que fazer com trinta centavos? Comprar um pão? Mas não poderia ter pedido um pão? Será porque a gente quase sempre dá pão amanhecido? Para que uma criança precisaria de trinta centavos emprestados?

Desde aquele dia, quando emudeci ao interfone, não encontrei respostas a essas perguntas. Fiquei com medo de emprestar trinta centavos. Nesses tempos de vacas magras, correria o risco de não receber. Como criança não tem CPF tampouco poderia fichá-la no SPC. Quem sabe a seu lado haveria um adulto vadio explorando a menina. Quem sabe seria um ladrão disfarçado tentando entrar no condomínio para assaltar. Quem sabe seria apenas uma criança rica fantasiada de pobre fazendo caixinha para comprar um tênis importado. Pensei em dar-lhe “el libro” que lia ou, então, “ los abrazos”...  mas, fiquei pensando, pensando, pensando...

 Quando sou abordado na rua por crianças pedindo um dinheiro, digo que não tenho, ou,  “dinheiro a gente só ganha trabalhando”- pelo menos acho que deveria ser assim - apesar das loterias, raspadinhas, bingo, bicho, telesena, eleição... - mas, se uma criança vem na minha casa pedir trinta centavos emprestados eu, surpreendentemente, não sei o que fazer. Estou deveras convencido que a gente tem que começar a pensar nisso.

Todos nós corremos riscos. Uma criança pode tocar o interfone pedindo trinta centavos para devolver em alguns dias ou no próximo mês. É bom que comecemos a pensar nas condições do empréstimo e na taxa de juros para não ficarmos atônitos ante essa situação inesperada. Há muitos consultores, se quisermos aplicar bem nosso dinheiro. Para o frio, há roupas para todos os estilos. Às visitas inconvenientes temos uma saída honrosa ou bem humorada. Mas, o que faremos com as crianças que precisam pedir trinta centavos emprestados? Dar-lhe-emos moedas, livros ou abraços?

 

 Pablo Morenno



Escrito por Pablo Morenno às 21h56
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Gripe A

A disseminação do vírus da Gripe A H1N1 está ficando caótica em Passo Fundo. Por este motivo, a Feira do Livro da Faculdade IMED, onde eu participaria nos dias 6 e 7 de agosto, não acontecerá mais. De qualquer modo, tenho dia 15/08 em Santa Rosa, e espero que mantenham. Àlcool gel, máscaras, e ficar em casa. São cuidados recomendados.



Escrito por Pablo Morenno às 22h24
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