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PABLO MORENNO
 

             

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   O MENINO E O ANJO DA GUARDA

 

 

            A primeira vez que falou com seu anjo da guarda Alex era um recém-nascido.

            - O caso deste menino é complicado. Mas não é grave,-  disse o médico -, má-formação do aparelho urinário.

Teria que ser submetido a uma cirurgia. Entrou para uma sala iluminada deram-lhe anestesia.

Quando acordou, estava sozinho no quarto. A mãe e o pai, que ele nem tinha visto direito, desapareceram. Nunca mais os viu.

 

Recém chegado ao abrigo, conversou com seu anjo da guarda outra vez. Falava apenas em pensamento. Ainda não conhecia as palavras. Alguém o deixou no berço e sumiu pela porta.

 Preferiu o silêncio. Se chorar adiantasse, todos os outros bebês não estariam ali sozinhos.

Ficou ali olhando o móbile movendo-se automaticamente.  Passou o dia com a chupeta na boca. Olhava as grades do berço e o móbile, o móbile e a parede, a parede e a porta.  Assim seriam muitos e muitos dias.

Esperava que sua mãe aparecesse. Nunca apareceu.

 

            No dia de seus primeiros passos, ele e o anjo também tiveram uma conversa. A monitora colocou-o de pé ao lado do berço e ficou a alguns metros. Ela segurava um cachorrinho de borracha que latia quando apertado.

            - Vem, Alex, vem pegar o cachorrinho!

            Alex deu o primeiro passo, depois o outro, depois o outro.

Quando viu estava nos braços da monitora. Todo mundo no abrigo bateu palmas. 

Todo mundo eram a monitora e uma enfermeira.

Recebeu um abraço.

Quando colocado de volta na cama, pediu ao anjo para que realizasse seu desejo.  Quem sabe, agora que sabia caminhar, seria mais fácil encontrar uma família que o quisesse.

Ficou esperando.

 

            O anjo também ouviu a oração de Alex no dia em que o menino fez cocô e xixi no banheiro. Foi uma agitação no abrigo. Mais um beijo e um abraço. Quem sabe, agora que não usava mais fraldas, seria mais fácil achar alguém que o quisesse.

Ficou esperando.

           

Numa manhã, a monitora o chamou ao pátio. Era um casal que desejava  levá-lo para um passeio. Almoçaram juntos, foram ao circo, tomaram sorvete. Onde passavam, as pessoas olhavam seu cabelo encaracolado, sua pele morena.  Depois olhavam para o casal loiro.

Alex achou que naquela noite dormiria em alguma casa de verdade.

Achou errado.

No final da tarde, o trouxeram de volta com roupas novas e um brinquedo. Nunca mais apareceram.

Conversou com seu anjo sobre o que havia acontecido.

Seu anjo nem resmungou. 

 

            Pensou em ter outra conversa séria com seu anjo quando passou para a segunda série. Já sabia ler e escrever algumas coisas jogava futebol na escolinha do Grêmio.

Poxa, já estou no primeiro ano da escola, e ainda estou aqui, será que você não é competente para achar uma família para mim?

 

            Alex conversava todos os dias com seu anjo da guarda.

Isso era antes.

Agora ele só reza no dia 03 de fevereiro de cada ano, quando faz aniversário. Já se passaram onze três de fevereiro.

 

 Depois da reportagem no jornal o ano passado, muitas famílias o visitaram, nenhuma quis ficar com ele.

            - Acho que já estou velho demais. As crianças são adotadas com três, cinco anos, depois fica difícil.  Acho que os pais preferem as crianças pequenas porque aí elas não sabem que estão sendo adotadas, pensam que são os pais verdadeiros.

            Alex falou assim ao repórter. Sei que foi uma indireta ao seu anjo da guarda.

            Mais uma vez, o anjo ouviu e ficou quietinho, com sua cara pálida e gordinha.

Acho que um dia Alex vai deixar de falar com ele. 

Pablo Morenno



Escrito por Pablo Morenno às 22h14
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O menino e as correntes

O MENINO E AS CORRENTES  

 

 

            Naquele dia, quando a mãe chegou em casa com as correntes, ele pensou que fosse para prender o cachorro.  O cão andava muito pela vizinhança, não tinha sossego. Ameaçava qualquer um que aparecesse na rua.

Agora é  ele quem está acorrentado na varanda da casa. Dois cadeados e uma grossa corrente de ferro o prendem. Um cadeado amarra a corrente à coluna, outro amarra a corrente a seu tornozelo. Veste-se como um mendigo, tem olheiras profundas e olhos apagados.  Tenta correr, tropeça na corrente e cai.  Quer desamarrar-se, bate a corrente  contra o cimento pensando rompê-la. É inútil. A coluna sacode o telhado, mas ele continua ali, preso.  Depois de se machucar, sossega. Prova um pouco da água e do pão que a mãe lhe deixou ao alcance.

            O cachorro corre pelo pátio. Às vezes chega e lhe lambe as mãos. Como se soubesse de sua necessidade, não vai além do portão. Sente raiva, range os dentes. Se pudesse morderia até o cachorro. Mas o transe passa e ele pensa. O cachorro é a única criatura que existe ali em casa agora. Melhor deixar que ele deite ao seu lado com compaixão.  O cão se acomoda junto à sua cabeça e prova um pouco da mortadela que sobrou. Estão ali os dois, quase iguais. A única diferença é que o cachorro está livre e sente pena de Deivid.

 A mãe foi trabalhar numa fábrica de calçados, não tinha alternativa. Se o deixasse solto,  ele venderia tudo para o vício.  Tinha 15 anos, 1,70, e apenas 35 quilos.  O médico disse que ele não resistiria muito tempo. A morte estava próxima.

            Naquele tempo, a família morava em Novo Hamburgo, perto de um beco. Cinco pessoas em um quarto com cozinha e banheiro. Não havia assoalho, apenas chão batido. Naquele tempo, ele chegou a usar 20 pedras em um dia. Assaltava, furtava.  Esteve internado na FASE. Praticamente um animal. Por isso, quem sabe, precisou ser amarrado.

            Hoje, quando a mãe chegou com as correntes, ele pensou que fosse para ele. E eram. A mãe lhe comprou uma corrente de prata, exatamente como ele sempre quis. É com esta corrente de prata no pescoço e um sorriso no rosto que eu vejo ele e a mãe no jornal. Com 56 quilos, feliz ao lado de dona Lúcia, Deivid tem hoje seu primeiro dia de trabalho. Vai trabalhar na mesma fábrica da mãe em Sapiranga. E quer mais. Vai cursar faculdade de informática.  

            A mãe não se contentou em amarrar o filho em casa. Também fez um longo caminho para que o filho recebesse tratamento de desintoxicação. Foi à justiça, à imprensa, ao Conselho Tutelar, ao Ministério Público. Todo mundo descrente. A mãe agarrou-se à esperança quando ninguém mais acreditava.

Hoje Deivid está recuperado.  De vez em quando, olha as fotos que a mãe tirou dele quando estava no vício. As fotos estão no meio das de seu batizado, de seus aniversários, da primeira comunhão.

 Muitas vezes, quando lê os jornais, se depara com a notícia da morte de alguns de seus antigos conhecidos. Eles não tiveram ninguém para amarrá-los. Ele está vivo, e bem. Isso é tudo.  Entre ele e a mãe as correntes sempre foram muito fortes.

Pablo Morenno



Escrito por Pablo Morenno às 23h17
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