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PABLO MORENNO
 

A menina e as bonecas

                                              A MENINA E AS BONECAS

 

 

Domingo. O pai de Maiara se levantou cedo. Tomou o café da manhã sem palavras. Sua filha está no quarto. Faz dias que não sai. Apenas chora na janela. Sua mãe levou-lhe um suco, mas ela não tem fome.

            Maiara não vai a escola faz duas semanas. Uma amiga traz o caderno e ela copia a matéria. A professora veio visitá-la. Insistiu para que não perdesse as aulas. Mas ela tem vergonha. Passa a maior parte do tempo na janela, olhando o jardim.

            Depois do café, o pai caminha até um galpãozinho nos fundos da casa, pega o machado. A ferramenta está sem uso faz tempo. Depois que a família mudou-se para a cidade, nunca mais precisaram de lenha.

            Quando o pai construiu a casinha de bonecas que está no jardim, Maiara tinha 4 anos. Era casa de bonecas, mas com jeito de casa de gente. Até pouco tempo Maiara ainda passava lá brincando, ou lendo seus livros, ou ouvindo seu MP3. Algumas vezes convidava suas amigas. Levavam alguma coisa para comer. Ficavam na casinha fazendo as tarefas de escola, ou conversando. A casa de brinquedo tem poltronas para sentar, tapetes, uma cozinha quase completa. Até se pode dormir na cama, se não for alguém muito grande.

             Maiara olha sua casa cor-de-rosa enquanto o pai se aproxima com o machado na mão. É lá, na casinha da Cinderela, onde estão todas as bonecas que ganhou quando criança. Tem uma boneca negra, tem uma boneca índia. Tem boneca que fala e que faz xixi. Tem boneca que pede mamadeira e quer colo. Tem boneca que diz “mamãe” e “to com sono”. Tem boneca que dá risada e que arrota. Tem boneca que canta canções de ninar e uma boneca que reza o Santo Anjo. Tem boneca que fala inglês e que fala espanhol. Tem até uma boneca quase de seu tamanho, presente da madrinha. Mas, entre todas, a sua preferida é uma boneca simples, vestida de chita, feita por sua avó com restos de pano.

            O pai olha demoradamente para a casinha. Aos poucos, quase sem força, levanta o machado. Dá o primeiro golpe na madeira do canto. Depois, vai derrubando uma a uma as paredes. O teto despenca. Todas as coisas ficam a descoberto. No jardim, sobre a grama, estão os restos de madeira, a cozinha, as poltronas, a cama. As bonecas, abandonadas entre os destroços, parecem pedir socorro depois de um vendaval. O pai guarda o machado, abre o portão, e sai para a rua.

            Maiara observa da janela. Não sabe por que, mas não está triste. Faz algum tempo que está diferente, que não ficava mais na casinha, que não penteava mais as bonecas, nem lhes dava banho. Agora que as bonecas estão todas sem abrigo sobre a grama, sente-se com pena.

            Pela primeira vez, depois de dias, Maiara sai do quarto. Recolhe uma por uma as bonecas e as guarda dentro de uma caixa. Daqui a alguns anos, alguém brincará com elas.

Maiara vai fazer catorze anos e está grávida de uma menina. Ontem à noite, ela e a mãe contaram para o pai. 

Pablo Morenno



Escrito por Pablo Morenno às 22h38
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A menina e os lobos

A MENINA E OS LOBOS

 

 

            Tinha apenas seis anos. Mimava muito suas bonecas.  Nunca  havia feito nada de errado. Passeava com a mãe e o irmão de cinco anos  na rua  Haddok Lobo, Jardins,  em São Paulo. De repente, três homens saltaram de um automóvel. Arrancaram ela dos braços da mãe. Taparam sua boca com um pano. Usaram  cordas de nylon para amarrá-la. Depois a colocaram no porta malas de um carro, rodaram por algumas horas,  a deixaram num lugar desconhecido.

            No início, até achou que fosse uma brincadeira de casinha. No lugar escondido, estava a sua babá. E sempre quando chegava alguém, a babá lhe dizia para ir para debaixo da cama. Às vezes para um porão.  À noite, antes de dormir, sentiu falta do beijo da mãe, e a babá lhe disse que logo chegaria. E do beijo de seu pai, e a babá lhe disse que ficou no trabalho. E do beijo do irmãozinho, e a babá lhe disse que estava na vovó.

            Primeiro dia. Jayce olhou onde estava. Viu baratas passeando, restos de comidas nos cantos, roupas jogadas no chão. Por uma janela do tamanho de duas mãos entrava um pouquinho de claridade. Quando olhava pelo buraco via o céu sempre nublado. Começou a pensar que o sol havia ido dormir e não acordado mais.

Segundo dia. Teve saudades de sua boneca preferida, e chorou baixinho. A babá lhe trouxe sua mochila. A mochila havia sumido da sua casa uns dias antes.  Pegou seu caderno e começou a desenhar lobos maus.

            Terceiro dia. Pediu à babá se não iriam à escola. A babá lhe disse “a escola fica muito longe, iremos amanhã”.

            Quarto dia.Quando a trancaram num porão escuro, ficou chorando, chorando, não comeu nada. Que brincadeira chata! O quarto dia era o amanhã do terceiro dia, ela teria que ir à escola, e não ficar escondida no porão da casa. Essa babá é muito mentirosa.

           Quinto dia. Desde que viera para aquele lugar nunca mais havia tomado banho. Pediu para a babá se não havia um chuveiro. A babá lhe disse “melhor não tomar banho para não ficar resfriada”.

            Sexto dia. Entraram homens com os rostos cobertos por meias.  Estavam armados como os bandidos que se vê na televisão.

            Sétimo dia.  Uma borboleta entrou pelo pequeno buraco na parede. A borboleta era amarela. Uma réstia de sol em suas asas fazia parecer que era de ouro.

Naquele mesmo dia, à tarde, a menina ouviu alguns tiros. A babá lhe pediu para se esconder embaixo da cama. Estava bem quietinha quando viu as botas dos policiais entrando no quarto. De repente, alguém levantou o colchão. Assustou-se um pouco. O policial a abraçou. Sentiu-se como Chapeuzinho Vermelho salva da barriga do lobo.

            Foi também no sétimo dia que Jayce  voltou para casa, correu para os braços da mãe e do pai.  Depois, cansada, dormiu no tapete da sala abraçada ao irmãozinho e à sua boneca.

            A pequena Joyce foi seqüestrada. Ficou uma semana no cativeiro sem nunca ter feito qualquer mal a ninguém. Apenas porque seu pai é um empresário e tem um pouco de dinheiro.



Escrito por Pablo Morenno às 21h13
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Rapunzel

                                  

   A MENINA RAPUNZEL

 

            Se eu me transformasse em pássaro e saísse esta manhã,  procuraria em todas as casas e apartamentos por uma única menina.  Hoje acordei com uma idéia fixa: vou me fingir de pássaro e sair muito leve pelo vento. Onde avistar uma cortina cor-de-rosa na janela, entrarei. No quarto, haverá uma garota que estará se penteando para a ir a escola. Quando ela virar o rosto e me ver pousado no parapeito da janela, lhe perguntarei se cortaria seus longos cabelos para ajudar alguém.

Meninas são vaidosas. Adoram cuidar dos cabelos, deixá-los sedosos e brilhantes. Minha afilhada tem um monte de cremes para os cabelos.  E passa horas na frente do espelho antes da escola. Acho que gasta a escova e os cabelos de tanto se ajeitar. 

 Será que eu voltaria no fim da tarde com minhas asas abanando?

Se eu tivesse acordado a semana passada com esta minha idéia de pássaro, e voasse até Guaporé na Serra Gaúcha, veria uma cortina cor-de-rosa, entraria com meu jeito de pássaro.

 Em frente ao espelho, uma menina 11 anos. Na agenda da Hello Kitty sobre a estante, leio um nome: Jenifer.  Seus cabelos são negros, brilham como água no sol, e têm quase meio metro. Faz cafuné em si mesma.  Sua testa franze no meio dos grossos fios. Seus lábios se apertam.  Está bem quietinha. O rádio desligado. Olha demoradamente seus longos fios, depois o olhos desviam a cabeça, e se fixam num ponto perdido dentro do espelho. 

            Jenifer viu na TV que cabeleireiros pagam uma boa quantia por cabelo natural. Teria coragem?

            Sua mãe tem uma doença grave; gasta quase todo o dinheiro com remédios. Agora, para piorar, quem está doente é seu irmãozinho, de três anos. O rim de Gregory não funciona bem. Para que o médico conheça melhor o problema, será preciso fazer um exame complicado e caro. Na rede pública o exame poderá ser feito sem custo, mas demora muuuito tempo. A outra solução é ir até Caxias do Sul e pagar a um laboratório particular. Mas de onde tirar o dinheiro?

            Jenifer alisa o cabelo com a mão. Seu irmãozinho piora a cada dia. Às vezes, à noite, ouve no quarto seus pais conversando preocupados. Às vezes, quando chega em casa depois da aula, vê os olhos vermelhos de sua mãe.

            Se tivesse me transformado em pássaro na semana passada, veria Jenifer sair de seu quarto, passar pela mãe preparando o almoço na cozinha.  

            - Mãe, vou na casa da Rafa para fazermos um trabalho de Geografia. Teremos que desenhar um monte de mapas. Posso demorar.

          Ao meio dia Jenifer liga para casa:

           - Mãe,  vou almoçar na casa da Rafa, depois iremos à escola.

            A tarde passa.

Termina a aula.

            O sol se põe.

            Na cidade, o silêncio da noite embala a tudo e a todos. Sentada na cama, enquanto lê a estória de Rapunzel, Jenifer passa os dedos com freqüência entre os pequenos e curtos fios que lhe restaram. Seu rosto está sereno, os olhos brilham.  O rádio está ligado no volume baixo para não acordar os pais e o irmãozinho. Como na história que lê, tudo aconteceu por causa de uma bruxa muito feia.  Cabelos crescem de graça, ela pensa, olha-se no espelho, e sorri feliz.

 



Escrito por Pablo Morenno às 21h09
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Santa Rosa

Nâo fui a Santa Rosa. O evento foi cancelado. Bem, como já avisaram que a gripe está no fim, acho que agora não cancelarão mais os eventos. Abaixo um texto que estou escrevendo para um novo livro.São pequenos textos baseados em notícias  reais dos jornais sobre meninos e meninas.

O MENINO E O CAVALO FEIO

 

Em algum lugar do mundo o cavalo sente saudades do menino. Se eu soubesse a linguagem dos cavalos, eu lhe diria que em algum lugar desta cidade o menino também sente muita falta do cavalo. Eu não sei onde está o cavalo, só sei do menino.

O menino chama-se Diogo, tem doze anos, é aluno da 5ª série em Alvorada. Está com uma carinha triste e olhar perdido. O cantinho nos fundos da casa, onde o cavalo Feio descansava à noite, está  quase vazio. Tem apenas um pouco de pasto.  Uma lágrima galopa pelo rosto do menino e se espatifa no chão.

Para comprar o cavalo, Diogo vendeu seu videogame, a TV e uma bicicleta. O restante do valor seria pago em prestações por vários meses.  “Comprado pelo garoto em maio, o cavalo de pêlo mouro (cor escura mesclada de branco) foi levado durante a madrugada na quinta-feira passada”, diz o jornal.

Se alguém quiser curar a tristeza do menino, e diminuir a saudade do cavalo, poderá dar uma espiada em sua rua e no quintal dos vizinhos. Se encontrar o cavalo, por favor, leve-o de volta para os braços do menino.  Feio tem uma mancha preta no lado direito, e o número 91 marcado na pata do mesmo lado.

Se não for possível achar o cavalo, invente idéias. Posso ajudar-te.

 Há uma idéia para resolver as saudades do cavalo. Achas que o cavalo pode facilmente encontrar outro menino igual ao Diogo. Estás enganado. Não há, em todo o mundo outro menino igual ao Diogo. Nem o melhor jóquei substituiria Diogo no coração do cavalo. Essa idéia não serve.  

Outra.  Dizes que Diogo poderia comprar um novo cavalo. Estás enganado de novo. Diogo só tem a roupa, não há mais TV, videogame ou bicicleta. Tem mais. Diogo não quer outro cavalo. Para ele, Feio é o cavalo mais bonito do mundo. Nem o cavalo do príncipe encantado poderia ocupar seu lugar.

Terceira idéia. Parece brilhante. Já que não sabemos onde anda o cavalo, ao menos resolveríamos a saudade do menino. Pedirás para teu pai comprar um cavalo de brinquedo. Um presente para Diogo. Com o cavalo de madeira, quando não estivesse na escola, poderia brincar. Seria assim: o menino subiria no cavalo e sairia num galope pelo asfalto da cidade, imaginando ser um campo sem fim.

       Essa última idéia é a pior. Tudo bem, te perdôo por não saberes da estória completa. Também te perdôo por oferecer ajuda. Diogo não tinha o Feio para brincar de galope no asfalto, apesar de ter apenas doze anos.  Diogo tinha o Feio apenas para ajudar sua família a catar lixo nas ruas e assim ganhar a vida.

         Em algum lugar deste mundo, o cavalo tem saudades do menino. E em algum lugar da cidade, sentindo muita falta de seu cavalo Feio, o menino terá de percorrer as ruas para ajudar a família a ganhar a vida.

 

Pablo Morenno



Escrito por Pablo Morenno às 23h03
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Flor de Guernica

 

  

 A flor de Guernica

 

Esta é a capa do meu novo livro de crônicas. Abaixo o texto que o editor escreveu na orelha.

 

Um livro nunca pode ser mais do que impressão dos pensamentos do autor. O valor desses pensamentos se encontra ou na matéria, portanto naquilo sobre o que ele pensou, ou na forma, isto é, na elaboração da matéria, portanto naquilo que ele pensou sobre aquela matéria.

Segundo Schopenhauer, raros se justificam enquanto escritores, exatamente pela falta de singularidade de seus argumentos. Não é o caso de Pablo Morenno que, em seu segundo livro de crônicas, confirma a peculiaridade de cronista de rara maestria, que prima por foco singular.

Enquanto enquadra o cotidiano em visão própria, também o enche de poesia e deslumbramento, como na crônica A carta: Tomei a carta nas mãos e a li em voz alta.  As palavras saiam de minha boca e cobriam o rosto de mamãe com luminosidade, ou com profundidade reflexiva em As vantagens de ser coisa: Esta é a diferença essencial entre coisas e pessoas. As coisas servem para todos, as pessoas para seus poucos. Assim o cronista troca de pele com sincera sensibilidade, abandonando sua casca para sentir o que sentia aquele pai diante da filha morta por assaltantes.

Pablo, exatamente por que é em essência figura humana única, consegue captar sutilezas capazes de emocionar seus leitores. Por isso, seu livro de estréia Por que os homens não voam? recebe novas edições e coleciona leitores como os melhores cronistas brasileiros.

Sobre o autor e sua obra, escreveu Affonso Romano de Sant’Anna: Pablo Morenno escreve com intimismo e sensibilidade; Lya Luft: Excelente estréia. Entre tantas coisas ruins que se publicam, seu livro é um conforto; Luís Dill: Ninguém percebe quando alguém pisa em uma formiga na calçada. Pablo Morenno percebe. Melhor: consegue nos apresentar o ponto de vista de todos os envolvidos. Até do sapato; e Paulo Becker: Como os bons cronistas, Morenno extrai do cotidiano e da atualidade os aspectos que, por demasiado humanos, não perdem o interesse com a passagem do tempo.



Escrito por Pablo Morenno às 21h56
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Santa Rosa

Próximo sábado/domingo estarei em Santa Rosa, terra da Xuxa, para um curso de formação de professores de Língua Portuguesa e Literatura, se não cancelarem. TOdo mundo anda cancelando tudo por causa da Gripe A.

Recebi e-mail da editora WS dizendo que meu libro FLOR DE GUERNICA está pronto. ME enviam por transportadora. Estou aguardando.



Escrito por Pablo Morenno às 21h59
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DE FRIO, EMPRÉSTIMO E OUTRAS COISAS

 

 

Dizem os críticos que não é de estilo começar um texto assim: “Numa tarde fria....” Mas eu não tenho culpa se realmente a tarde era fria e de sábado. Fazia frio. Frio, simplesmente, nada literário.

Este ano o frio chegou de surpresa como os amigos inconvenientes que às 11h45min transpassam nossas portas dizendo que não nos preocupemos com o almoço. “Estava passando por aqui e resolvi dar uma chegada para ver se você está bem.” Ainda que para alguns o frio tenha sido elevado à categoria de amante e, inconveniente, talvez, não seja um adjetivo muito apropriado, não floresce outra comparação no momento. Particularmente, gosto do frio como gosto dos amigos e amigos inconvenientes é uma antítese porque, os amigos, mesmo chegando na hora do almoço sem avisar, são sempre bem-vindos.

Mas não comecei a escrever para falar do frio nem dos amigos. Queria começar esta crônica escrevendo assim: “No sábado, no final da tarde fria, enquanto lia  El Libro de los Abrazos de Eduardo Galeano, uma menina tocou o interfone e pediu trinta centavos emprestados.” Depois escreveria a sua fala: -“ O senhor tem trinta centavos para me emprestar que outro dia eu lhe pago?”

 Quando tocou o interfone pensei em não atender. Poderia ser o namorado da vizinha do 402- ela sempre está tomando banho quando toca o interfone - ou, então, os entregadores de gás que, dia sim dia não, tocam o interfone. E, infelizmente, o gás termina sempre no dia “não”.

Atendi. Foi a primeira vez que uma criança de rua veio pedir dinheiro emprestado a domicílio. Seria isso um sintoma da globalização? Vejam, esta criança não me abordou na rua ou numa sinaleira. Deu-se ao trabalho de vir até minha residência. Não pediu uma esmola, pediu um empréstimo. Fiquei surpreso porque empréstimo a gente pede aos bancos - que não funcionam aos sábados - ou aos amigos, que em resumo, têm a mesma utilidade. Mas, trinta centavos! Não poderia ser um real para arredondar? O que fazer com trinta centavos? Comprar um pão? Mas não poderia ter pedido um pão? Será porque a gente quase sempre dá pão amanhecido? Para que uma criança precisaria de trinta centavos emprestados?

Desde aquele dia, quando emudeci ao interfone, não encontrei respostas a essas perguntas. Fiquei com medo de emprestar trinta centavos. Nesses tempos de vacas magras, correria o risco de não receber. Como criança não tem CPF tampouco poderia fichá-la no SPC. Quem sabe a seu lado haveria um adulto vadio explorando a menina. Quem sabe seria um ladrão disfarçado tentando entrar no condomínio para assaltar. Quem sabe seria apenas uma criança rica fantasiada de pobre fazendo caixinha para comprar um tênis importado. Pensei em dar-lhe “el libro” que lia ou, então, “ los abrazos”...  mas, fiquei pensando, pensando, pensando...

 Quando sou abordado na rua por crianças pedindo um dinheiro, digo que não tenho, ou,  “dinheiro a gente só ganha trabalhando”- pelo menos acho que deveria ser assim - apesar das loterias, raspadinhas, bingo, bicho, telesena, eleição... - mas, se uma criança vem na minha casa pedir trinta centavos emprestados eu, surpreendentemente, não sei o que fazer. Estou deveras convencido que a gente tem que começar a pensar nisso.

Todos nós corremos riscos. Uma criança pode tocar o interfone pedindo trinta centavos para devolver em alguns dias ou no próximo mês. É bom que comecemos a pensar nas condições do empréstimo e na taxa de juros para não ficarmos atônitos ante essa situação inesperada. Há muitos consultores, se quisermos aplicar bem nosso dinheiro. Para o frio, há roupas para todos os estilos. Às visitas inconvenientes temos uma saída honrosa ou bem humorada. Mas, o que faremos com as crianças que precisam pedir trinta centavos emprestados? Dar-lhe-emos moedas, livros ou abraços?

 

 Pablo Morenno



Escrito por Pablo Morenno às 21h56
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