| |
URBANOS  Rio de Janeiro e São Paulo, as duas mais badaladas cidades do País, foram há pouco dias marcadas por um novo movimento urbano. Não. Não. Não foi o renascimento dos caras-pintadas nem os sem-teto, ou os fora-alguma-coisa. Falo do movimento dos sem namorados. A passeata dos sem namorados é um dos muitos contra-sensos das metrópoles modernas. Depois da liberalização sexual dos anos sessenta e da revolução cibernética, não parece razoável a solidão. Jamais pensei que as gerações do MSN e dos sites de relacionamentos necessitariam sair às ruas para pedir companhia. O que se espera das metrópoles físicas e virtuais é um maior entrosamento humano. Mas não é o que acontece. O movimento dos sem namorados se complementa, ou melhor, se esclarece, com um outro fenômeno tirado dos jornais. È um serviço surgido em São Paulo e que ainda vai dar o que falar. Um grupo de amigos resolveu criar uma empresa de acompanhantes, sem conotação sexual. É o serviço de amigo pago. O serviço do amigo-acompanhante é para aqueles homens e mulheres solitários, metropolitanos, que não possuem ninguém disponível para acompanhá-los em programas cotidianos como um passeio ao museu, uma boate, a um jantar, ou a um jogo de futebol. Se você mora em uma grande cidade e não tem amigos, basta ligar e contratar o serviço, desde que pague por hora e que arque quaisquer despesas. A passeata dos sem namorados e o serviço de amigos expõem uma das maiores feridas urbanas: a solidão. A competição no trabalho, a diminuição das famílias, – quase não existem irmãos ou primos nas novas gerações-, a desconfiança, o medo, a violência, motivam as pessoas a se fecharem em casas ou apartamentos, sem contatos afetivos. Homens e mulheres trabalham o dia inteiro, a semana inteira, o mês inteiro, o ano inteiro, sem ultrapassar o pátio do profissional. Vizinhos não se conhecem, colegas de trabalho temem a concorrência. Na rua, o medo é de assaltantes e assassinos. As cidades ergueram os arranha-céus e acabaram com as árvores, com os pássaros, com os rios, e com o amor. Quem sabe, quando os rios ficarem limpos novamente, quando as árvores tiverem ninhos e fizerem sombra, haverá mais encontros, e não precisaremos mais pagar pelo amor ou por amigos. É bem possível que isso demore algumas dezenas de anos. Mas não custa esperar.
Escrito por Pablo Morenno às 22h42
[]
[envie esta mensagem]
Mamíferos
MAMÍFEROS
Algumas coisas aprendidas na escola levam um tempo para mostrar sua importância. Por exemplo, as lições de biologia. Especificamente, a aula de mamíferos. Somos mamíferos, insistia a professora. Igual à baleia, o maior do planeta, e ao morcego, o único com asas. Mamíferos vivíparos, reforçava a mestra. Contrário daqueles que se desenvolvem num ovo, fora da mãe, formamo-nos dentro de seu corpo. Primeiro um vínculo sanguíneo. Depois, no toque de pele com pele, continuamos a receber seu sangue, transformado agora em leite. O vínculo físico da natureza sucede-se por um vínculo de afeto da vida. Não sei se os outros mamíferos aprendem afeto com suas mães. Não posso perguntar a eles. Quanto aos homens, não há dúvida. Ao menos deveria. Apesar de mamíferos, temos ainda outras diferenças com a maioria deles. Observei isso muito bem quando, ainda criança, morava com meus pais numa propriedade rural. A maioria dos mamíferos nasce e já se põe em pé. Em alguns minutos estão andando, logo correm e saltitam. Os bovinos, os eqüinos, os caprinos... Nós não. Nascemos tão frágeis. Assim permanecemos por vários anos. Se não houver alguém disposto a nos empanturrar de cuidados, não temos como sobreviver. Qualquer predador nos apanharia muito fácil na natureza, se não fôssemos dotados de inteligência e cultura, diversamente dos outros animais. Para completar, somos pequenos, comparados às baleias. E somos despidos de asas, para orgulho dos morcegos. Há algumas semanas, li nos jornais: mãe mata filho drogado. Aqui e acolá, aparece nos noticiários: filho mata seus pais. Lembro das lições de biologia. Desses vínculos físicos e de afeto. Nós humanos, frágeis e carentes. No dia das mães não esqueçamos. Somos mamíferos. Vivíparos. Feitos de afeto. Somos mamíferos, como baleias e morcegos. Neste dia, mais do que melosos discursos, pensemos na essência de afeto. Ou invejemos as baleias, porque termos instintos tão pequenos, e os morcegos, por nossa enorme falta de asas. Pablo Morenno
Escrito por Pablo Morenno às 16h53
[]
[envie esta mensagem]
[ ver mensagens anteriores ]
|