O Município de NOva Bassano-RS está implantando um projeto de leitura em todas as escolas municipais. No dia 23/04, às 19h30min, estaremos o editor e escritor Walmor Santos e eu falando na Câmara de Vereadores sobre a importância da leitura. Depois retornarei para trabalhar nas escolas.
Escrito por Pablo Morenno às 22h09
[]
[envie esta mensagem]
VELHO
Tenho um amigo que diz “meu velho” para qualquer um, sem olhar a idade. Chama até de “meu velho” seu filho, com menos de dez anos. Meu velho, deixa de ver televisão e vai fazer os temas. Meu velho, o Grêmio está uma vergonha. Meu velho, vou fazer um churrasquinho lá em casa domingo.
Com a permanência de Naná no Big Brother, tentou-se um imbróglio com a idade da participante. No dia em que foi eliminada no paredão, o apresentador fez um longo e meloso discurso sobre os velhos ativos, e que a participante deveria retornar ao mundo para fazer coisas. Talvez pensando que se ela ganhasse um milhão nem pudesse aproveitá-lo.
Na novela das oito, o velho Cadore, para minimizar na empresa o confronto entre os filhos, retoma a presidência, depois de já estar aposentado. E o psiquiatra Dr. Castanho, seu amigo, se diverte entre os jovens da gafieira.
No final do ano passado, um estudo de um banco privado sobre a aposentadoria surpreendeu. O Brasil revelou um perfil positivo em relação às expectativas para o futuro, já que 93% das pessoas entrevistadas (com idades entre 60 e 79 anos) se descreveram como em razoável, boa ou muito boa saúde.
Dos entrevistados, 94% contaram que vão ajudar os pais quando estes ficarem velhos, contra 80% na média mundial. E os brasileiros com mais idade também estão se preparando para ajudar seus filhos: 93% contra 70% no resto do mundo.
Velho, como palavra pra gente, perdeu a importância. Aquela nuança de desuso, coisa necessitada de reforma, já não se aplica aos avançados em anos. Hoje, a maioria das pessoas, morre de repente, sem ficar velho. Claro, morre idoso, mas sem aquele estigma de inutilidade. São homens e mulheres que, de repente, deixam a vida sem aquela longa véspera, espera, da morte. Interessa-lhes a vida, simplesmente. Vão vivendo ao máximo, sem reticências, como no tempo de infância.
Esses homens e mulheres de idade avançada namoram, trabalham, viajam, praticam esportes e, de repente, deixam a vida assim, de um dia para o outro. Não fizeram crochê, não ficaram ranzinzas, nem viveram à custa dos filhos.
Por estas e outras, quero outra palavra pra mim, daqui a alguns anos. Inventem com urgência. “Meu velho, só aceitarei de meu amigo.
Pablo Morenno
Escrito por Pablo Morenno às 22h07
[]
[envie esta mensagem]
Croniquetas
TRÊS CRÔNICAS CURTAS
1- Onde guardar.
Viver é a arte de armazenar tragédias. Quem não sabe armazenar tragédias não consegue sobreviver. As tragédias pululam nos jornais, na televisão, na cidade inteira. A gente senta na varanda, faz um mate, e fica desejando a paz, a segurança, um paraíso que quase não existe em nenhum lugar.
Aumenta o número de homicídios na cidade. A economia mundial está à bancarrota. Um louco qualquer saiu atirando sem olhar a quem. Exceto, é claro, alguma flor que abriu no quintal e a gente fica regando pra que dure um monte de dias.
O mais preocupante das tragédias é que esperamos os outros construírem a paz. E os outros ficam esperando a gente. O tempo passa e nós ficamos esperando. As tragédias vão aumentando. E já estamos sem frascos para guardar. Lá se foram os copos de massa de tomate. Os vidros de nescafé. Os potes de margarina não existem mais.
2. Onde encontrar?
Li apenas um livro de Paulo Coelho. E aproveitei bem. Porque não lerei outro tão cedo. Santiago é um rapaz que tem um sonho. No sonho ele se encontra com um tesouro lá nas pirâmides do Egito. O rapaz é apenas pastor. Vende as ovelhas, pega um navio, torna-se vidreiro, enfrenta as tempestades de areia e a guerra. Um dia, depois de atravessar o deserto, encontra-se perto das pirâmides. E lá, depois de rodar o mundo, depois de quase ser morto, alguém lhe conta outro sonho. Neste outro sonho, o tesouro está lá na aldeia do rapaz pastor. Muito mais perto do que ele imagina. Ele volta, descobre o tesouro, mas mesmo assim está insatisfeito. E parece que tudo vai recomeçar novamente. O Alquimista.
3. Sonho de pobre
Sempre via nas novelas as beldades em enormes banheiras, quase se afogando em espumas. E tive um sonho. Era preciso tomar um banho daqueles, para que eu me sentisse um pouco especial, dentro do mundo das celebridades.
Comprei uma casa com banheira e precisávamos inaugurar. Saímos pela cidade e as lojas estavam fechadas.
Esperei mais um final de semana. Compramos espumas, e sais. Tudo a preço de caviar. Colocamos os vidros quase cheios na banheira, e nada das espumas das novelas.
Por fim, usamos detergente de cozinha. E fez um espumão dos grandes. Tudo igual à TV.
A gente anda por aí com cheiro de panela. Mas estamos felizes. E isso sempre conforta qualquer coração no meio desse mundo cheio de tragédias.
Pablo Morenno
Escrito por Pablo Morenno às 22h54
[]
[envie esta mensagem]
Violência e família
O COMEÇO DE TUDO
Na semana passada, em razão do dia da mulher, a violência familiar foi o tema de reportagens e programas televisivos. Parece estranho. Ninguém espera que a família seja local da violência, mas espaço para que nos protejamos das ameaças do mundo. Nascente do amor e do afeto. Porém, isso é cada vez mais raro.
A família, a chamada célula da sociedade, longe de ser um lar doce de batata doce, muitas vezes é lugar de exercício e aprendizado de violência. Pimenta com jiló. Veja-se, por exemplo, a família do personagem Zeca da novela Caminho das Índias, o garoto mimado que espanca colegas de escola, e é defendido pelo pai e pela mãe.
Isso não é apenas história de ficção. Já fui professor em colégios de classe média, e mais de uma vez presenciei situações similares. Em uma delas, um aluno jogou um estilete num professor. Por sorte atingiu o quadro. Poderia ter ferido o professor ou um colega. Chamados à escola, os pais, acusaram o colégio de perseguir o garoto. Exatamente como nas novelas.
A família não é mais a mesma. E temos apenas duas opções. Ou se volta ao passado com as famílias tradicionais, ou o Estado, as Igrejas, a escola, tentam criar um novo modo de vivenciar as relações familiares adaptadas ao grande número de separações, múltiplos filhos de vários relacionamentos, e a permissividade excessiva de uma sociedade que não sabe o que fazer com seus jovens e crianças.
Uma volta ao passado não é viável. Não inventamos ainda a máquina do tempo. Ao nosso dispor temos apenas o presente e o futuro. Ambos nada comprometedores. As famílias mudaram, e o papel dos novos pais e das novas mães acaba sendo papel nenhum.
Acho que a violência familiar, apesar de tudo o que disse acima, é antitética. Esta palavra bonita confronta uma realidade. A família, sempre foi, e será, lugar da aprendizagem do afeto equilibrado e do amor maduro. A questão, no fundo, é que onde a violência foi morar, a família deixou de existir. Os pais e os filhos acham que são o que já deixaram de ser.
Pablo Morenno
Escrito por Pablo Morenno às 22h34
[]
[envie esta mensagem]
[ ver mensagens anteriores ]