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Ferias
A partir de amanhã, estarei curtindo a praia de Garopaba. Uma semana apenas de férias. Mas já é suficiente para recarregar a esperança.
Escrito por Pablo Morenno às 17h44
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Língua encantada

LÍNGUA ENCANTADA O pai lê a história de Chapeuzinho Vermelho para a filha no berço. É noite. De repente, uma capa púrpura desce do céu sobre o varal. Este é o início de Coração de Tinta, um filme que esteve em cartaz recentemente. Meggie trocaria facilmente sua vidinha chata pelas aventuras que costuma ler nos livros. Pois parece que seus pedidos foram atendidos. Seu pai Mo, com quem mora sozinha depois do desaparecimento de sua mãe, esconde um estranho segredo - ele é capaz de dar vida aos personagens dos livros quando lê em voz alta. Esses seres, capazes de dar vida ao que leem em voz alta, chamam-se “Línguas Encantadas”. No filme, as conseqüências são dramáticas. Na vida, isso acontece imperceptivelmente. A todo momento, personagens dos livros saem da realidade. E aqueles da realidade mudam-se de mala e cuia para os livros. Além de línguas, é preciso ter olhos encantados para perceber. O filme parece absurdo. Não é. O mundo todo é fruto de nossa imaginação, transformada em palavra, depois moldada em matéria e construída. Este jornal que você lê, foi imaginado pelos redatores, pelos colunistas, pelos repórteres. A cadeira ou o sofá em que você se senta foi imaginado pelos designers. Do mesmo modo os automóveis, as ruas, os edifícios, as cidades. Tudo passou pela imaginação, foi transferido a imagens e palavras, e depois se moldou em ferro, madeira, cimento, asfalto, papel. Temos pouca consciência de que as guerras foram declaradas, de que os casamentos foram prometidos, de que as teses foram defendidas, de que os planos políticos foram discursos. Guimarães Rosa prendeu os personagens caboclos do sertão e os encarcerou em seus textos. Érico Veríssimo caçou Capitão Rodrigo e Ana Terra no pampa e transformou-os em palavras em O Tempo e o Vento. Cada vez que lemos, seja em voz alta ou não, os caboclos do Sertão cortam seu fumo sentados em nossa sala. Capitão Rodrigo, quando a gente lê, passa galopando pelo nosso prédio. E dizemos, “vou ser execrado na reunião do condomínio”. A gente vê, e guarda segredo, com medo da opinião dos outros. Não falamos nada, mas sabemos. Essa relação entre palavra e realidade é culpa de Deus. Foi Ele o primeiro a brincar de Língua Encantada. “Faça-se a luz, e a luz foi feita”. Como fomos feitos à imagem e semelhança, vez e outra começamos a ter umas tentações de transformar as coisas pela palavra. Tenha muito cuidado com as coisas que você lê. Pense que elas tornam-se reais, querendo ou não. É próprio dos humanos ter palavra e, por conseqüência, línguas encantadas. Essa bênção, ou maldição, nos acompanha sempre. Mesmo quando lemos em silêncio. Pablo Morenno
Escrito por Pablo Morenno às 17h39
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dançarinos
HUMANOS OU DANÇARINOS? Fiquei sem nenhuma idéia boa pra crônica desse final de semana. Então preciso falar de nosso peixinho beta. Hoje, terça, amanheceu morto sem qualquer explicação. Já é o segundo peixinho com essa mania de não avisar quando vai morrer. Avisador teve apenas um, faz tempo. Aquele, sim, foi ficando meio triste, cansado do aquário estreito, foi definhando, e se foi ao Mar dos Céus. O Eros preferiu partir sem despedidas. Um pouco mal educado. Compreensível para quem tinha um mundo tão pequeno, com apenas meio litro de água. Com mais ou menos quatro dedos de água, um menino de oito meses, morreu afogado em um balde. Em algum lugar desta cidade. Enquanto a mãe dava banho no irmão gêmeo, o garoto quis brincar um pouco, como fazem todas as crianças. O menino, como meu peixinho, também não deve ter avisado a mãe, ou as tias, ou o pai e a avó. Se eles soubessem, teriam deixado o guri dentro de casa, ou doado todos os baldes para os vizinhos e amigos. Se eles soubessem, até suspenderiam a água da CORSAN e lavariam todas as roupas a seco. Ninguém sequer desconfiava. Uma tragédia da vida com jeito de caneta daquelas inapagáveis. Principalmente no coração da mãe. Eros – nome dado por minha mulher, fã do Ramazzotti -, foi embrulhado em papel alumínio e colocado no lixo. Ficamos um pouco tristes, normal quando a morte leva qualquer bichinho de estimação, mas não contratamos carpideiras nem fizemos funeral. Talvez o Eros merecesse, pelo ano e pouco em nossa companhia, comendo todas as manhãs as larvas secas preferidas, enfezando as escamas quando ameaçado, fiscalizando o aquário em toda troca de água e rearrumação das plantas de plástico. Estou lendo A Garota das Laranjas do Jostein Gaarder. O pai deixa, no forro de um carrinho de bebê uma carta para o filho. Médico, com uma doença incurável, seu filho ainda não tem quatro anos quando percebe a proximidade da morte. Escreve uma carta para o filho no futuro. O filho, na adolescência, se depara agora com um pai já morto, mas vivo em cada uma das lembranças revividas. Pelo sabido até agora, os humanos são os únicos com consciência da morte. No fundo, isso não nos ajuda em nada. Seja ao perder alguém querido, seja ao perder um pequeno bichinho de estimação, somos sempre ignorantes. Não sabemos como justificar nem para nós, nem para os outros. Ás vezes dizemos “descansou”, como se a gente se cansasse de viver. È uma resposta boba, quando não temos nada inteligente para proferir. Hoje, na academia, tocava uma música em inglês de um grupo chamado Killers, “os matadores”, ou “os assassinos”. Uma frase ficou martelando a minha cabeça: somos humanos ou dançarinos? Como humanos somos grandes ignorantes. Como dançarinos dançamos uma música com duração desconhecida. Como seguia a música, estou de joelhos procurando a resposta. Dancemos, enquanto é possível! Pablo Morenno
Escrito por Pablo Morenno às 09h02
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JUSTIÇA E PAZ
Fui tomado de surpresa. Jovem saiu do presídio e em pouco menos de 24 h cometeu dois ou três assaltos. E| ao cárcere voltou. Impressiona, mas nem é tão incomum. Depois do indulto de Natal, sempre acontece uma série de crimes em qualquer cidade. Lá estão os reincidentes.
A situação permite ao menos duas análises.
A primeira é mais simples, lógica aristotélica. Se o retorno à sociedade é tão danoso, deixemos os criminosos mofando na cadeia.
A segunda, mais complexa, menos silogística, multifacética. Mas é com a qual me afino. O retorno ao crime mostra que há algo de errado não apenas com a pessoa, mas com o sistema prisional e, por conseguinte, com a sociedade. A prisão não recupera; a sociedade não colabora.
Tem uma terceira opção: Deus e o destino.
Por falar em Deus, a Campanha da Fraternidade deste ano abordará o tema da segurança/insegurança pública e as questões relacionadas com a criminalidade e a violência. O tema é: Fraternidade e Segurança Pública. O lema é: A paz é fruto da justiça.
O lema traz à reflexão um aspecto que pouco se aborda quando se trata da segurança. Será que nossa insegurança não é fruto da injustiça? Por outro lado, há que se perguntar, a injustiça é a única causa da violência?
O hino da campanha traz importantes reflexões sobre o assunto. A maioria delas tiradas diretamente de textos bíblicos. Aliás, a letra do hino é como um projeto resumido, uma profecia esperando o tempo maduro. Comparto com os leitores partes desta letra, católicos ou não, e mesmo nem sendo cristãos. O assunto segurança interessa a todos. Paz e justiça também.
"Onde pões tua confiança? Segurança, quem te traz? É o amor que tudo alcança; Só a justiça gera a paz!
Quando o direito habitar a tua casa, quando a justiça se sentar à tua mesa, a segurança há de brincar em tuas praças; enfim, a paz demonstrará sua beleza.
A segurança é vida plena para todos: trabalho digno, moradia, educação; é ter saúde e os direitos respeitados; é construir fraternidade, é ser irmão.
É vão punir sem superar desigualdades. É ilusão só exigir sem antes dar. Só na justiça encontrarás tranqüilidade. Não-violência é o jeito novo de lutar."
Duas idéias me chamam a atenção e me interrogam: quando houver justiça e direito, haverá paz e segurança. A outra: é vão punir sem superar desigualdades. Quem sabe por isso não entendemos o que aconteceu com este jovem que saiu da prisão, e em pouco menos de 24 h já havia cometido outros crimes. E ao cárcere voltou.
Deus e o destino não se importam com esses assuntos.
Pablo Morenno
Escrito por Pablo Morenno às 22h00
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DESENCONTRO
de boca aberta
o vaso espera a flor distante
em algum lugar do mundo
a flor existe e espera um beijo
se souberes onde espera a flor,
me avise urgentemente
o meu destino e o teu é um:
satisfazermos dois desejos
Poema: Pablo Morenno Foto: Eduardo Reiko
Escrito por Pablo Morenno às 23h00
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Celebridades
CURIOSIDADE MÓRBIDA
As cinco notícias mais lidas ontem, terça-feira, na Folha de São Paulo são as seguintes:
Como se observa, três são sobre Maysa, a "deusa da fossa". As outras duas, também, tem o mesmo em comum: dramas ou fofocas de celebridades. Com a crise econômica, a guerra na Faixa de Gaza, a volta das chuvas em Santa Catarina, os leitores "tão nem aí". A preocupação da maioria hoje, foi a vida das celebridades.
Por que nos importamos tanto com elas? Que fascínio mágico é esse pelo qual desdenhamos a economia, a guerra, ou as tragédias da natureza?
Ninguém quer ser anônimo. Numa sociedade de massa, o indivíduo torna-se uma peça, um cargo, uma engrenagem da máquina. Somos números, crachás, códigos de barra. Destacar-se é uma regra básica de sobrevivência no grupo dos anônimos.
Ascender socialmente, galgar um cargo, leva à atração de um melhor parceiro para a cópula. Ser celebridade é garantir a sobrevivência do indivíduo e de seus gens. Afinal, uma celebridade autêntica, deve ter algum talento. Ao menos deveria.
Sob outro ponto de vista, a celebridade serve de modelo para meus desejos. Passo a admirá-la como se fosse parte da minha vida. Desse modo se criam os ídolos, sobretudo na adolescência. Enfim, renuncio à minha personalidade para viver as conquistas e derrotas dos outros.
Passada a adolescência, a projeção continua. Com os times de futebol acontece algo similar. O eu é projetado num espelho, e o espelho passa a ser mais forte que a realidade. No meio da massa, o anônimo solitário chora, ri, vive seus dramas, sem nenhum alarde. Porém, aquilo que ele vive e ninguém observa, encontra-se em igual ou maior intensidade na celebridade. Desta outra forma, o outro que aparece e é reconhecido no grupo, serve de identificação para meus fracassos e conquistas ocultas.
Esse processo de identidade não é negativo. Muito pelo contrário, pode até ser positivo, desde que se dê com reflexão e crítica. Na literatura, ocorre algo similar. O não senso da vida pode ser descoberto na identidade com Dom Quixote. Um desejo pequeno, mas intenso, pode ser repensado na identidade com o velho, de O Velho e o Mar. Uma vida medíocre e sufocante de uma simples dona de casa pode adquirir sentido após a leitura de Madame Bovary.
Se esses personagens da vida real, desgraçados e infelizes, nos ajudarem à reflexão sobre a existência, tudo bem. Se for só uma curiosidade mórbida, optemos pelos livros.
Pablo Morenno
* FLOR DE GUERNICA - Jà tem aprovação da editora WS e iniciou o processo de produção. Será meu novo livro de crônicas.
Escrito por Pablo Morenno às 09h37
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