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PABLO MORENNO
 

OUTRO ANO NOVO

 

OUTRO ANO NOVO

 

               Já escrevi crônicas para quase uma dezena de anos novos. Em todas fui obrigado a falar de esperança. Já li quase meia centena de crônicas de ano novo, e todas referem-se a sonhos e uma ou outra esperança insistente.

               Para 2009 eu queria uma crônica enxuta como o pano de prato mais fino ao sol do meio dia.

            O problema é que eu não sei escrever sem esperança. E também não gosto de ler coisas de desespero.

            Por mais que me esforce, falo de um pano de louça no sol. Lá está  minha mãe colocando o pano de prato para secar na cerca das onze ao meio dia.  Hoje ao lado do Todo-Poderoso, secará fraldas de anjos, e planta um grão de feijão para esperar tempo adequado para o crescimento e colheita. E os anjos lhe dizem "não precisa disso aqui não, dona Eva". Mas ela desobedece e teima em sestear numa nuvem pra planta crescer.  

            Se falar de feijão, logo imagino  o arroz. Começo a desejar que ninguém tenha fome no próximo ano, que as mesas sejam fartas de tudo. Que as famílias tenham feijão, arroz, pão, amor, paixão.

            Se falar de família, desejo ruas vazias de meninos de rua, que não haja crianças jogadas pela janela, que os pais tenham "força de amar sem medida".

            Se me lembro das ruas,  lembro cidades sem violência, gente mateando ao anoitecer no pátio da casas, amigos contando causos e histórias inventadas

            Se falar de histórias inventadas, logo desejo um ano esplendoroso para a Jornada de Literatura, um aumento nos leitores e nos bons livros.

            Se penso em livros,  penso em escolas, em educação de qualidade, em crianças e jovens realizando seus sonhos, em histórias inventadas que se tornam realidade, na realidade que rebrota num rebento imaginado.

            Se falar de sonhos, imagino coisas que até Deus duvida: o fim da guerra, a cura do câncer e da AIDS, um novo medicamento para dor, e um jeito de ressuscitar filhos únicos para as mães que perdem crianças ao monstro do tráfico ou trânsito.

            Se pensar em um jeito de ressurgir filhos únicos, começo a ter esperança. Então eu logo digo de árvores, de flores, de frutos, de sementes, de tempo bom.

             Com todas essas coisas, por fim, sempre escrevo um texto igual aos já escritos, plagiando os já lidos. Nenhum argumento aos suicidas.

Enfim, descubro que, se de outro jeito fosse,  o ano não seria realmente novo. Choraria fracassos e perdas, mortes e tempestades, desmoronamentos e os soterramentos, egoísmos e ambições desmedidas.

 Então, pensando bem, ninguém escreveria nada e o mundo terminaria com um estrondo como quando começou. Talvez até fosse melhor. Mas não sei. Ninguém tem como saber.  Na dúvida,  feliz Ano Novo! 

                                                                                                  Pablo Morenno



Escrito por Pablo Morenno às 23h08
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DA MINHA JANELA

   DE MINHA JANELA*

 

Houve um tempo em que minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. De repente, não sei de onde, uma bomba. O ovo de louça transmutava-se num tapete de cacos escorrendo pelo telhado. Um momento de silêncio, depois uma algazarra. Crianças surgiam não sei de onde, juntavam os cacos e refaziam o ovo. No outro dia, quando eu reabria a janela, o ovo de louça estava lá na ponta do chalé. Se o dia era límpido, o céu da mesma cor do ovo, um pombo sobre o ovo parecia pousado no ar. Eu tinha esperança.

Houve um tempo em que minha janela dava para um canal. No canal tremia um barco. Um barco tão cheio de flores que parecia um vaso de madeira flutuando. Num instante instaurava-se uma tempestade. As flores se esparramavam pelo canal. O canal parecia um quadro de Van Gogh.  O barco submergia na tela. De repente passava um pássaro e o barco voltava à tona. Uma réstia de sol multiplicava-se na água como num campo de trigo. Crianças, em barcos de papel, recolhiam as flores No outro dia, quando eu reabria a janela, novamente o barco como um vaso. Levaria as flores a uma mesa. Numa sala, alguém olharia as flores. Eu tinha esperança.

Houve um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra, cercada de crianças, uma mulher numa esteira. A mulher contava aos pequenos lindas histórias. Eu sabia que as histórias eram lindas porque as crianças tinham beleza incrustada no rosto. Quando menos se esperava, as crianças punham-se a chorar. E por mais que a mulher lhes contasse histórias bonitas, o choro não se detinha. O sal das lágrimas chegava à raiz da mangueira e ela murchava até secar. Mas a mulher seguia contando suas histórias e aos poucos as crianças recuperavam o sorriso. No dia seguinte, quando eu olhava pela janela, as crianças brincavam felizes. A mangueira tinha frutos coloridos como uma árvore de natal.  Eu tinha esperança.

Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Na cidade havia quadros e quadros onde as crianças escreviam a história da cidade. Os quadros não bastavam e as histórias eram escritas nas paredes da escola, escorriam pelos muros e alcançavam as ruas. Se a história fosse triste, elas mesmas apagavam e reescreviam outra história melhor. A cidade que parecia feita de giz era, na verdade, feita pelas mãos das crianças que escreviam em qualquer espaço novas histórias de giz.

Houve um tempo em que, ao chegar o Natal, todo mundo voltava a ser criança e o mundo recomeçava inocente. O tempo que houve já não há.

 Pablo Morenno

*Paráfrase a uma crônica de Cecília Meirelles

 



Escrito por Pablo Morenno às 23h01
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