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A CURVA DO CAMINHO

SOBRE A CURVA DO CAMINHO
“Na minha terra
a morte é minha comadre.”
Adélia Prado
Quando choramos os mortos, não choramos pelos que partiram. Egoístas, choramos por nós, ainda jogados no mundo e despidos de companhia. Não lembro onde li ou ouvi isso. Ratifico esta verdade. É em nós que se enterrará a saudade. Somos nós os sozinhos na sepultura da vida. Lembrar a morte dos que amamos é, antes de mais nada, refletir sobre nossa solidão. O tempo de luto é tempo de aprendermos a administrar a solidão. É difícil aceitar nosso abandono no mundo com a ausência da presença dos amados!
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“Não quero flores no túmulo, quero-as em vida”, dizem. Bom seria se a lembrança dos amados mortos aumentasse a valoração dos ainda vivos. Para um abraço, palavras de incentivo, demonstração de carinho e amor, basta a vontade. Assim, mais tarde, quando ficarmos sós, não desperdiçaremos a herança em orquídeas e tulipas. Sobre o mármore, secam, e plantá-las é por demais requintado. Paulo, em I Cor, 13, adequadamente escreveu: “Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor. A maior delas, porém, é o amor.”
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Democrática e popular, estamos certos, a “comadre morte” virá. Paradoxalmente, é inerente à natureza humana, mas nunca a aceitamos como natural. Natural é a vida, sempre planejada como se fôssemos eternos. Isso é bom. Está provado pela ciência: quanto mais vivemos como se não fôssemos morrer, maior nossa longevidade. Adequada, também, é nossa ignorância da hora da morte. Temos anseio de infinito, temos algo de Deus para preservar.
Gosto de uma frase de um poeta - também esqueci! - :“a morte é a curva da estrada”. Depois da curva, o caminho segue, mas não conseguimos vê-lo. Apenas quem caminha conhece os segredos da rota. Quantas vezes parece que o caminho termina! Um problema, uma doença, uma crise nos relacionamentos. São as curvas.
Apenas a curva da morte não tem aqueles avisos, “Devagar, curva acentuada”. O melhor é andar sempre contemplativo. A última e a maior das curvas nos tomará de surpresa.
Escrito por Pablo Morenno às 21h58
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Agenda
Dia31/10- sexta-feira - estarei na Feira do Livro de Capela de Santana.
Dia 03/11- segunda-feira - o compromisso é no Colégio Marcílio Dias em Torres.
Escrito por Pablo Morenno às 21h56
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UM BRINDE
UM BRINDE
A diretora da escola estadual boicotou. Estávamos dois escritores da Capital e eu. Primeira Feira do Livro de um município da costa do Uruguai. O evento cultural havia sido organizado pelo secretário de educação do partido rival da diretora. Se o partido da diretora boicotante tivesse vencido, ela seria a secretária. Por causa dessa mesquinhez, o município gastou uma nota para levar três escritores para um painel para cinco funcionários da prefeitura. Os alunos do noturno, para quem a conversa havia sido preparada, não apareceram.
Mas isto não aconteceu em Garibaldi.
Em Garibaldi, antiga Capital Nacional da Champagne, agora, Capital Nacional dos Espumantes (por causa da proteção à marca exigida pela Comunidade Européia) estive na sexta-feira (26/08) em uma Feira do Livro que se consolida como uma das mais bem organizadas da Serra.
Entre os convidados, Mário Pirata, Marô Barbieri, Eric Chartiot, Cacos Barcelos, e eu. Diversamente da maioria das feiras literárias, os escritores não se concentram na praça ou em algum outro local. Exceto algumas palestras, como a do jornalista Caco Barcelos, cada escritor se encarrega de animar uma escola.
Para mim coube a escola municipal Pedro Cattani. Surpreso fiquei pela limpeza, organização, floreiras, alunos uniformizados e educados, paredes sem pichação nem riscos.
Mais.
Na sala dos professores, um painel expunha os santinhos de todos os candidatos a prefeito e a vereador da cidade. No mesmo dia, os alunos realizaram uma eleição simulada.
Aqui o leitor entende porque me lembrei do município da costa do Uruguai no primeiro parágrafo.
Enquanto em muitos municípios se patrulham as escolas municipais ou se utilizam como extensões da campanha, em Garibaldi, o jogo democrático é transparente e aberto. Aliás, não consigo pensar qualquer jogo democrático sem essas qualidades.
Tenho observado, em minhas andanças, que o aumento do nível cultural das cidades se faz acompanhar de madurez proporcional na consciência política. Partido, como etimologicamente se expressa, é parte. Numa eleição, cada parte pretende se achar capaz de representar como melhor opção para o todo. Mesmo que a parte vença, nunca será o todo. A alternância de idéias promove a alternância de prioridades, e o “povo”, em sua formação plural, se beneficia deste embate.
Neste final de semana, aproveitando minha ida a Garibaldi, proponho um brinde ao embate democrático nas eleições de Passo Fundo. Salvo bobagenzinhas, ninguém misturou idéias com falsas moralidades. Passados estes dias, teremos nossos representantes e seus projetos, ou sem. Homologados os vencedores, que a possibilidade escolhida se instaurará. Quanto à realidade de outras propostas, desconheceremos. Não saberemos da realidade imaginada, não somos profetas ou adivinhos.
Embora as divergências, depois destas eleições, cada cidadão deve apostar na possibilidade de que a escolha tenha sido a melhor. Se acharmos que não foi, paciência. Nada de boicotes, mesquinharias, agourentos, vingativos. Deixemos estas condutas sem classe para quem ainda não aprendeu a lidar com a liberdade e a tolerância. Anunciados os vencedores, abramos um bom espumante nacional, de preferência de Garibaldi, para brindar o compromisso com uma cidade melhor para todos.
Pablo Morenno
Escrito por Pablo Morenno às 09h59
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