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PABLO MORENNO
 

LITERATURA LIMPA

 

LITERATURA LIMPA

Trechos do "Corão" foram vetados por medo de represálias; companhia usa a "Bíblia"



Um doutor em Direito e meu professor disse que tinha apreciado meu Por que os homens não voam?. Disse que a leitura era extremamente relaxante, que lia uma crônica todos os dias antes de deitar. Como tinha certa intimidade, falei que não gostaria de ser livro de cabeceira de ninguém. De cabeceira não, me disse, teu livro é meu preferido dos pés. Dos pés? , perguntei boiando. De ir aos pés, concluiu debochado.

Era uma crítica literária, se elogio ou ofensa não percebia. Logo esclareceu. Minhas crônicas aliviavam a tensão de suas leituras jurídicas dogmáticas. No assento do vaso, singular sossego, um barulhinho d'água, leitura amena. A melhor maneira de terminar descarregado um dia estressante. Entendi como elogio e, embora você ria de minha ingenuidade, conto a história sem modéstia.

São muitas as pessoas, leigos e doutores, que têm o hábito de ler na privada. Muitas delas unicamente ali. Momento de fragilidade e solidão, tranqüilidade e fuga do mundo. Enquanto o papel higiênico não estiver em falta, qualquer escritor deve se sentir orgulhoso de compartir dessa preciosa intimidade.

“Enquanto o papel higiênico não estiver em falta” revela um pudor excessivamente asséptico. Na Espanha, um administrador criativo, depois de produzir uma peça teatral chamada “Empreendedores” - em que uma empresa imprimia clássicos literários em papel higiênico -, resolveu levar a idéia à realidade. Faz um desbundoso sucesso.

O papel higiênico literário reproduz textos consagrados da poesia e da prosa, já em domínio público, que não exijam pagamento de direitos autorais. Também há trechos da Bíblia e budistas. O Corão ficou fora por medo de represálias. Aguarda, diz o empresário, proposta de autores novos, de fé, que queiram abraçar o projeto.

O papel higiênico literário custa 3,70 euros o rolo. O leitor, de fé, que queira, poderá escolher o texto e a cor: branco, laranja, rosa. Todos de uma celulose mais resistente, e ainda macia.

"Usamos letras grandes com espaço entre as palavras para que seja uma leitura fácil e relaxante. Às vezes você não tem muito tempo no banheiro e tem a tentação de usar o papel e não ler. Mas se pensar que esse material vai ser desperdiçado para sempre...", diz Camarero, o empresário criativo.

Tirando o excesso de escrúpulos, a idéia é simples e brilhante. É boa para os escritores, podem dormir sossegados sem pena dos livros. Pensar na possibilidade da falta de papel higiênico, poderia ser algo afrontoso ou uma desonra para quem pensa tão cuidadosamente na palavra certa, na frase limpa. A idéia também favorece leitores com tempo exíguo. Poderá, por fim, despertar leitores inesperados, sem poucas alternativas a não ser decifrar as palavras à mão, enquanto o que devia ir aos pés não vem.

O papel higiênico literário, é uma idéia que copio, e ofereço gratuitamente à Capital Nacional da Literatura. Além das vantagens culturais, movimentará a economia local, numa cadeia entre o Município, empresários, escritores (e vendedores de laxantes).

Com a recente inauguração da árvore e dos túneis literários, e outros espaços de leitura em projeto, seria interessante se todo e qualquer espaço tivesse imaginação desenfreada, inclusive os banheiros, com um papel higiênico exclusivo. Para começar, o papel higiênico literário poderia ser comprado pelo Município e estar disponível em todos os sanitários públicos. Depois chegaria às casas, aos escritórios ...Uma idéia culta e limpa. É sério.

Viva a literatura! Abaixo a prisão de ventre!

Pablo MOrenno

 



Escrito por Pablo Morenno às 23h19
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MENINOS DO PORTINARI

 

 

MENINOS DO PORTINARI



Menino do Papagaio foi pintada por Portinari em 1954. Vi a tela original de perto no Museu Ruth Schneider, aqui em Passo Fundo-RS, na exposição itinerante do MARGS-Museu de Arte do Rio Grande do Sul. Raramente teríamos oportunidade de sentir o cheiro perturbador da tinta, se não fosse esse projeto de arte extra-muros. Ainda não tenho um Portinari na sala da minha casa para ter dispensado esta oportunidade singular.

               Menino do Papagaio parece uma mancha de fogo no mar. Também seria possível dizer que o menino de Portinari é uma miragem de sol no deserto. O menino que não tem rosto é o único em cores quentes, rodeado de cores frias. Até mesmo a ovelha que lhe dá aconchego é feita de cores frias. Tudo é árido. Não há uma única planta. Só areia e rochas. Não esperem brotação. O céu está extremamente límpido. Não háverá possibilidade de chuva por muitos dias.

                O menino do papagaio é um menino de fogo no meio de um mundo frio. Até o sol é frio. Não lembro de ter visto em outras pinturas um sol tão gelado. Tem gente que diz que o sol de Portinari não é um sol, mas uma lua. Não parece ser razoável. Primeiro, porque a cara do objeto azul no céu azul é de sol e não de lua. Segundo, um menino jamais soltaria papagaio na noite. Outra coisa, as figuras têm sombra refletida no chão de areia. A lua não sabe fazer sombras tão marcantes.

Não há dúvidas que ele está num mundo de cores frias, que tudo é frio; que ele está num deserto, que tudo é árido. Mas não há dúvidas que tudo acontece durante o dia. Então, não pode ser uma lua, embora o sol de Portinari parece não ter luz própria.

O menino está só num mundo de cores frias, no meio de um deserto, com um sol apagado. Este menino não tem rosto e é o único vermelho. De companhia apenas uma ovelhinha. Quem sabe o calor do menino venha dessa ovelhinha, como se fosse o Menino Jesus esquentado no presépio. No mundo frio de Portinari, o menino está só. E não tem rosto. Podendo, portanto, ser qualquer menino ou menina do mundo tentando fazer um papagaio para brincar, um papagaio que também é de um papel extremamente frio.

              Poucos entendem a arte. Ou, no máximo, se endinheirados, compram arte pra decorar a sala. Só sabem dizer se combina ou não com o resto dos móveis. Ou dividem tudo em feio e bonito. E o quadro de Portinari está mais pro feio, além de parecer ter sido feito às pressas, sem esmero no acabamento.

                Há algumas semanas, a Sílvia, bela bruxa da novela Duas Caras tentou afogar o Renato, seu enteado. E, na mesma semana, uma menina foi jogada do sexto andar de um prédio em São Paulo, segundo apurado, pelo pai. Na ficção e na vida, meninos e meninas correm riscos.

              O menino de Portinari só foi para a tela porque existia e existe no mundo. Um mundo tão frio que até o sol pode ser confundido com a lua. O menino está só de gente, e não tem rosto. O pior é que tudo está diante de nossos olhos sob a claríssima luminosidade do dia.

              Pensando bem, é bom que a boa arte fique enclausurada nos museus. A arte verdadeira é muito incomodativa para ficar na sala de enfeite. Casa da gente é lugar de paz e sossego.

Pablo Morenno




Escrito por Pablo Morenno às 23h04
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AUSÊNCIA

Desde o último post, houve muitas novidades. Viajei a Salvador, Montevideo, tive um problema quase sério de saúde que já está deixando de ser. Ainda espero relatar aqui e mostrar as  fotos, ao menos algumas, para que vocês não achem que é imaginação. Como meu tempo é escasso, reproduzo dois textos acima até eu atualizar com todo este passado.



Escrito por Pablo Morenno às 22h59
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