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ANO NOVO
A MAIOR PISCINA DO MUNDO
“Papai, onde é a piscina?”
Foi o que disse a menina, quatro ou cinco anos, enquanto a família tirava do carro cadeira e guarda-sol, e a tia lhe passava protetor solar, e a vó teimava em ir de calça comprida. A trinta metros, o mar.
O que há de melhor no Ano Novo é o exercício da esperança. De minha parte, acho esta festa melhor do que o Natal. O Natal tem um clima propício para a falsidade, obrigação de dar presentes para familiares de quem não gostamos, ou fazer caridade para o porteiro do prédio e a empregada doméstica. Ninguém consegue fugir do constrangimento de colaborar com o Natal dos papeleiros ou dos garis, ou arrecadar dinheiro para uma creche. Mesmo quem nunca foi solidário se vê obrigado, de uma hora para outra, a ter bom coração. Nada pior que coação à bondade.
O Ano Novo, por ser uma festa mais pagã, nos libera de obrigações da consciência. È uma festa da vida por si mesma, da passagem natural das estações. Mais amigos e menos parentes chatos, a praia ao invés das igrejas. Ademais, contrário de um “Feliz Natal” que serve apenas para um dia, desejamos “Feliz Ano Novo” com a obrigação de ajudarmos a tornar feliz doze meses. Ou seja, os desejos de Ano Novo devem ser, no mínimo, trezentos e sessenta e cinco vezes mais intensos que os de Natal. Isso se o ano não for bissexto, caso em que será preciso uma intensidade maior ainda.
Outra vantagem do Ano Novo é que os desejos são mais realistas, “paz e dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender”. Embora a paz venha em primeiro lugar no pedido, coisa que no mundo nunca acontece, segue o dinheiro no bolso, e saúde, pra dar e “vender”. Combina muito mais com o espírito do capitalismo. E vêm lá os desejos reais: um automóvel, um emprego, a casa nova, concluir a faculdade, um parceiro para sexo e... amor.
Por fim, Ano Novo é menos ridículo. Não aparece um personagem gordo num tempo de dietas, nem há árvores de Natal com algodão ou bolinhas de isopor num calor de quarenta graus.
Como tudo, o Ano Novo tem lá seus inconvenientes. Será preciso imaginar formas de ganhar dinheiro de modo mais rápido e eficiente, além de precisarmos dos porteiros, das faxineiras, dos catadores de papel. Quem se preocupa com em ganhar dinheiro não pode cuidar da portaria do prédio, lavar a roupa, ou gastar tempo com faxina da casa ou da cidade. Assim, mesmo não querendo, seremos conduzidos a dezembro do próximo ano, com o castigo de sermos solidários e benevolentes outra vez.
A menina da praia toma seu baldinho, pega na mão do pai, e segue para a beira-mar pela primeira vez. Segui atrás, cheio de expectativas para a colheita de alguma frase desconcertante quando ela visse o oceano. Mas a criança, sem deslumbramentos, quase como eu ante tantas promessas de Ano Novo, olha para o pai e resmunga:
“Pai, é essa mesmo a piscina maior que existe?”
Antes mesmo de qualquer resposta, foi brincar de fazer castelos de areia.
Escrito por Pablo Morenno às 11h02
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POR CULPA DOS SAPATOS

- O senhor me dá uma ovelhinha do presépio? - pediu o menino, ao padre, entre lágrimas. Qualquer um que visse aquele garoto jamais imaginaria seu inusitado desejo. Ninguém está acostumado com sonhos de crianças. Não só porque as crianças de hoje não têm seus próprios sonhos. Também porque as achamos imaturas para sonharem direito.
Todos ao redor do presépio pediam ao Menino Jesus que Papai Noel atendesse aos pedidos colocados nos sapatos. A mulher do prefeito queria um celular que enviasse imagens. Um empresário pedira uma Ferrari. O colunista social esperava um ano novo cheio de festas da sociedade para faturar bem e comprar uma bota de pele de cobra para sua mãe. A menina loira queria o mais novo livro do Harry Potter.
Enfim, Deus e Papai Noel andavam muito ocupados. Um com a reza dos homens, outro com os pedidos dos sapatos. Foi por isso, e não apenas por não saber escrever, que o menino não achou conveniente fazer um bilhete ao bom velhinho. Uma ovelha era tão pouco. Pedindo diretamente ao padre, pensava ele, o que manda na igreja, será fácil. No presépio, já tinha observado, havia umas seis. Uma a menos não faria falta.
O padre ajeitou a estola. "Estes meninos têm cada idéia!" E se ele desse a ovelhinha? Como justificaria ao bispo? O presépio fora doado por uma beata, de família importante. Eram peças vindas da Itália, esculpidas em madeira por uma freira de Assis. Talvez o bispo não gostasse. Voltar para aquela paróquia do fim do mundo? Melhor não arriscar.
Menino esperando. Silêncio esperando. Jesus esperando. O padre olhou para a mulher do prefeito que se aproximava. "Este menino ainda nem vota. Se votasse meu marido poderia comprar uma ovelhinha prá ele." O empresário respeitável, ao ouvir o pedido, pensou em sugerir um requerimento ao governo que é quem deve cuidar destas coisas. O colunista alisava o cabelo e pensava "pedir uma ovelhinha é coisa muito brega". Apenas a menina loira achou legal. Talvez seu pai pudesse comprar uma ovelhinha para o menino. E a sandália da Xuxa? Melhor pedir para o papai o livro do Harry Potter e a sandália da Xuxa.
Jesus, entre os bichos, juntava as mãozinhas e dizia a seu pai: "Perdoa, não sabem o que fazem!". Porque o padre não dava logo a ovelhinha? E desse também os bois e os burros, os reis magos e a estrela. O que era uma ovelhinha para Ele que já tinha dado a vida? Ninguém ao redor do presépio veria diferença nenhuma, como até hoje não viu. Criança não se manifesta, recém-nascido muito menos. Se pudesse sair dentre as palhas, pegaria o chicote do burro e repetiria aquela cena do templo lá de Jerusalém.
- Filho, a ovelhinha é do Menino Jesus, disse o padre, depois do longo silêncio. Se eu tirá-la do presépio, Jesuzinho chora muito.
O padre fechou a igreja e todos foram fechar-se em suas casas para a ceia do Natal.
Debaixo da ponte, em seu berço de papéis, o menino sonhador acompanha a trajetória de uma estrela meio cadente, meio decadente. Ah, se tivesse uma ovelhinha como um filho de Deus! Se ao menos lhe emprestassem aquela do presépio, teria os olhares dos anjos e dos homens sobre si. Sabia que, se fosse pelo Menino Jesus já teria o presépio todo aqui. Quem sabe no ano que vem consiga ir à escola, seu pai arranje emprego e lhe compre um sapato. Papai Noel só atende a pedidos escritos dentro de sapatos.
PABLO MORENNO
FELIZ NATAL, PARA QUEM TEM SAPATOS!
Escrito por Pablo Morenno às 22h18
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A ROSA INESPERADA
A ROSA INESPERADA
Se eu realmente quisesse escrever sobre rosa começaria assim “A rosa é uma planta da família das dicotiledôneas, da ordem das rosales, de pétalas separadas”. Vou falar da rosa, como se rosa não fosse. Começarei por ele, antes dela, meu vizinho, um homem comum. Trabalhava, lia jornais, era espiritual e espirituoso, bebia cerveja, comia feijão e arroz, a menina do caixa do mercado o via aos sábados. Devia ter uns trinta anos, ou mais. Não sei ao certo. Pelas manhãs passeava num pequeno jardim nos fundos da casa.
Uma manhã azul, azul simples, contemplava suas flores comuns. Homem comum, flores comuns, como é de esperar-se. Não tinha orquídeas, nem tulipas. Quase todas eram amarelas, em vários tons de um mesmo amarelo. Algumas margaridas. Brancas. E só.
Ele não era botânico, nem florista. Falava com suas flores. Não sabia de pétalas, nem de sépalas, nem de tépalas. Tampouco entendia de perianto ou liliáceas. Olhava as flores como se olha gente, seu zelo por elas era como às lembranças. Naquela manhã azul, falava com suas flores triviais. Então, o inesperado irrompeu púrpura sobre amarelo. Era uma rosa. Ela estava ali como se houvesse chovido, porque nada fizera ele para seu nascimento. Nem quanto à semente, nem quanto à preparação da terra. Eu os espiava. Vi que a rosa silenciou quando perguntada de onde havia vindo. Também calou-se ante todas as questões apresentadas no decorrer da manhã. Até o meio dia, ficaram conversando como se fossem conhecidos destas cidadezinhas do interior. A fala da Rosa era seu silêncio, seu perfume, e um mover-se quase invisível das pétalas.
Como já disse, meu vizinho não cultivava flores especiais. Por conseguinte, a rosa inesperada, no jardim, também começou existindo comum. Um dia, falou-me “o que torna especial uma flor não é a sua espécie ou o seu gênero, mas o modo como nos relacionamos com ela”. Com o tempo pude comprovar a razoabilidade deste aforisma.
Sempre espiando da janela da sala, vi crescer a relação do vizinho e sua rosa. Conversas engordando, sorriso amanhecendo perfumado, e a rosa desabrochava ímpar como a adolescência. Ele tinha na rosa sua felicidade, a rosa tinha nele a razão da vida. Pétalas com sereno da noite, suavidade de manhãs, satisfação de água fresca ao meio dia, faziam a rosa. Na sucessão dos dias, minha íris testemunhou a rosa vermelha comum, transmutando-se em uma rosa especial. Não é científico dizer, mas a rosa, como a própria Trindade, a cada madrugada abria-se mais misteriosa. Seu perfume passou do jardim do vizinho para minha casa, da minha casa para as casas do bairro. Ao entardecer o terceiro dia, toda a cidade havia sido invadida por um perfume rosáceo.
Durante semanas e meses, e anos, como era de se esperar de uma pesquisadora acadêmica, escarafunchei a literatura científica em busca de explicações àquela rosa. Nunca nada. Exausta, deixei de estudá-la. Passei a imitar a atitude primitiva de meu vizinho. A atitude primitiva a que me refiro é “apenas contemplá-la como se encerrasse entre suas pétalas todo o mistério da vida”. Dele ouvi.
A última vez que vi os dois, ou um, foi na primavera passada. A manhã estava azul como no começo. Meu vizinho saiu ao jardim, como fazia sempre nas manhãs azuis, e nas manhãs cinzas, e nas manhãs negras, e nas manhãs de alegria, e nas manhãs de dor. Na manhã azul da primavera passada, meu vizinho saiu para o jardim e deparou-se com a ausência inesperada de sua rosa especial. Eu o vi, como nas manhãs anteriores. Acostumada à contemplação da rosa, da visão de suas pétalas perfeitas, da aspiração de seu hipnótico perfume, fui abatida por uma lânguida tristeza. Estranhamente, meu vizinho não. Ele olhou o jardim, sentiu a ausência da rosa, seu olhar fez um círculo de regador automático, fechou os olhos, voltou para dentro de casa com o semblante feliz dos anjos. Desde minha janela, ouvi suas canções de felicidade, sua alegria de rosa, todo um comportamento suspeito. Se ele não fosse meu vizinho, ligaria para um psiquiatra.
De imediato, não entendi o motivo de tanta alegria onde e quando eu esperava desespero. Depois, aprendi. A rosa de meu vizinho, por causa daquele relacionamento tão especial entre os dois, quem sabe chamado amor... a rosa de meu vizinho, naquela manhã, deixara de morar no jardim de sua casa para florescer para sempre, inesperada, em algum lugar dentro dele. Entendi, então, o que anos de estudos jamais me ensinaram. Uma rosa passa a ser especial, quando deixa de ser objeto científico para tornar-se amada, e quando se muda do jardim da casa para uma cova dentro da gente. Que o mundo nos entenda não vem ao caso.
Esta manhã, depois de deixarmos seu corpo (com aquela roseira nascida ali onde ficam as cicatrizes das cirurgias cardíacas) sob as árvores do cemitério, vim à janela de sempre e olhei o jardim da casa florido de ausências. Quando fechei os olhos para chorar, numa terra inesperadamente nascida em mim, enxerguei o jardim, a rosa e meu amigo. Posso vê-los, ainda, todas as manhãs quando desejo. Para sempre, em minha terra, haverá uma tenda para eles. Ele cultivando a rosa, a rosa perfumando o mundo. E eu aqui com remorso por nunca ter contado a ele sobre meu amor.
PABLO MORENNO
Escrito por Pablo Morenno às 23h47
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Flor de Guernica
Domingos Pellegrini, escritor que admiro, me mandou a apresentação para meu próximo livro de crônicas, "Flor de Guernica". Em forma de soneto...
Na Guernica de Picasso
há uma flor pequenina
e é nela que outro Pablo,
o Morenno, lança mira
No meio daquele horror
Pablo enxerga a florzinha
a beleza que conspira
e, entre tanto ódio, amor
Este livro é garimpo
de flores entre detritos
entre dores alegrias
Leia com a garantia
de entrar em quadros aflitos
e sair porém mais limpo
Domingos Pellegrini
Escrito por Pablo Morenno às 23h02
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Presépio
Aproveitei o domingo para fazer um presépio. Eu sempre fiz, é algo simbólico pra mim. Mas, depois que perdemos os bebês, perdi também esse entusiasmo para o Natal. Porque eu sempre pensava enfeitar a casa para eles. Mas como a vida segue, eu e Daniela fomos juntando coisas aqui em casa para montar o presépio hoje. Foi meio improvidado, mas o resultado ficou satisfatório.
ESTA FOTO EU TIREI COM A LUZ NO FUNDO DA GRUTA ACESA.
ESTA FOTO E A PRÓXIMA FOI SÓ COM A LUZ DA SALA.

Escrito por Pablo Morenno às 00h25
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Capão Bonito
Na sexta-feira passei o dia na Mini Jornada Literária de Capão Bonito do Sul. È um município agrícola há 20 km mais ou menos de Lagoa Vermelha. A idéia da mini jornada foi do assessor jurídico, Dr. Paulo Sgarbossa e da diretora de educação ( lá não tem uma secretaria especial de educação), a professora Iolanda.
Além de minha presença, ou antes dela, foi promovido um concurso literário para todas as turmas. È uma iniciativa que, com certeza, dará muitos resultados com o tempo. Foi uma alegria estar lá. E espero que esta MIni Jornada se transforme em um grande evento literário.

Na parte da manhã fiz duas palestras: uma para alunos de 5a. a 8a. séries e de tarde para os alunos do ensino médio. Na foto, alunos do ensino médio.

Esta turminha agitada foi da tarde. Muitos meninos e meninas esquistos. EU me diverti tanto que até caí um tombo no palco. Fiquei rengo até hoje de manhã. Agora de tarde melhorei.
Escrito por Pablo Morenno às 00h20
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