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O CAIXÃO
Era um caixão vistoso. Garotos e garotas carregavam para dentro do colégio. Foi assim minha primeira visão dos alunos de um colégio, em Marau, no dia em que estive para falar de meus livros em sua I Feira do Livro. Como estavam em algazarra, logo vi que ninguém estava morrendo ou pedindo enterro. E o esquive não era cenográfico. Era um daqueles bem verdadeiros de vitrine funerária. Impressionante em suas alças de bronze.
O Caso do Martelo, do Pozzenato, foi uma das obras lidas e revivificadas pelos alunos em Marau. O caixão chegava para fazer parte da encenação. O Quinze, de Raquel de Queirós, Quem Roubou Meu Queijo também foram encenados. Uma leitura eclética e aberta, sem ranços ou literatices. Cada turma fez de uma sala de aula um espaço simbólico da obra. Os colegas de outras turmas passavam e podiam ter acesso ao contexto do livro em suas referências chaves, seu clima e tom, com suas tragédias e comédias. As personagens saltavam das folhas para aqueles meninos e meninas encenando. O colégio transbordava palavras.
A criatividade com a literatura não foi apenas dos jovens. As crianças também fizeram suas releituras e montagens. De meu livro Um Menino Esquisito foram saindo outros meninos esquisitos, e meninas esquisitas, e professores esquisitos e outras esquisitices que um escritor nem imagina morarem em suas obras. Em tudo muita algazarra, muita alegria, muita surpresa e desconcerto, coisas que só a leitura e a literatura proporcionam quando remexem nosso imaginário, e nos alertam para a beleza da vida.
Estamos em mês de Jornada de Literatura de Passo Fundo e, pelo que se soube até agora, não receberemos o custeio da LIC do Rio Grande do Sul. Os consultores não acharam um evento suficientemente importante para a cultura, ou, não prioritário entre os eventos de cultura do estado. Não gostaria de hierarquizar o cultural - até porque a Jornada sempre procurou, partindo da literatura, chegar a toda forma de representação do mundo – mas a arte da escrita e da leitura está entre os modos fundamentais de consciência crítica da realidade. Foi graças à linguagem que o conhecimento de um sujeito pode ser transmitido para outro, e graças à palavra oral ou escrita, uma geração recebe a cultura de outra, a enriquece com novos cultivos, e a deixa de herança.
O caixão que os garotos e garotas transportavam quando eu cheguei à Feira do Livro daquele colégio, não tinha nada a ver com o tétrico ou com o tanático. Ou em palavras mais simples, pouco tinha de fúnebre ou mortuário. Daí a algazarra. Naquele ataúde, como nos contos de fadas, acho que vi a vida acordando de um letárgico sono, graças à força misteriosa de um beijo da leitura e da literatura. E dos leitores e livros. Contra eles nada podem os burocratas.
Pablo Morenno
Escrito por Pablo Morenno às 22h00
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