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PABLO MORENNO
 

automóvel

 

CORPO EXTENSO



O automóvel é a extensão de teu corpo. Foi o que disse meu instrutor de direção na primeira aula, contrariando minhas lições de Ciências: “O corpo é formado de tronco, cabeça e membros”. A qualidade da parte extensa depende da índole do sujeito possuidor do principal. Tenho verificado, nestes catorze anos de motorista, a verdade do aforismo. Para alguns o carro é extensão de seu ódio, para outros de sua gentileza. Com essa extensão do corpo (e da alma) andamos por aí matando ou salvando. Mais matando que salvando.

O automóvel tornou-se mais importante que a casa. Há muitos com carro de luxo e morando de aluguel. Não é fácil levar a casa para as festas, para o trabalho, para um encontro de amigos. Difícil ostentar suas torneiras de ouro, os azulejos importados, ou o mármore italiano da pia da cozinha. Demonstrar para amigos e garotas que somos poderosos, ricos, bem sucedidos e um sucesso, é uma necessidade de vida ou morte. Colegas se impressionam mais com um carro de alto padrão do que com nossa felicidade no amor. Garotas, em geral, são atraídas preponderantemente por uma BMW que por nossa futura capacidade de ser um bom pai de seus filhos. Para quem duvida, proponho um teste: saia para as baladas com um Fiat 147, vestido modicamente, e leve consigo um projeto escrito de como você pretende na vida ser um sujeito ético e decente. Depois repita a balada, em modelitos fashion, sem projeto nenhum, mas alugue uma BMW e diga que é sua. Feita a experiência, avalie o resultado e me contrarie com provas.

Por essas e outras, a iniciativa do Vaticano em publicar os dez mandamentos do motorista é oportuna. Antes tarde do que nunca. Neste mundo de automóveis fáceis, exercer o amor ao próximo no volante é maior imperativo. Mais atual que não pecar contra a castidade, honrar pai e mãe, ou não furtar. Está praticamente impossível ser casto numa sociedade sexualizada e é tempo de pais e mães de escassa honra. Deixar de afanar nestes tempos - quando, em qualquer um dos poderes do Estado, encontram-se representantes dispostos a transformar Ali Babá e seus comparsas em Franciscos de Assis – tornou-se conduta altamente suspeita.

O documento católico tem razão. Muitas pessoas aguçam o instinto de domínio, prepotência e poder quando dirigem, e o automóvel é usado como objeto de ostentação para ofuscar os demais e suscitar invejas. O texto também denuncia comportamentos pecaminosos em muitos motoristas, como a falta de cortesia, gestos ofensivos, discussões, blasfêmias, perdas do senso de responsabilidade e violação deliberada do código de circulação. Relembra que no século XX cerca de 35 milhões de pessoas morreram em acidentes de trânsito. Os feridos totalizaram 1,5 bilhão. Em 2000, os mortos foram 1,26 milhão.

A Tábua de Moisés para os motoristas:

1 - 'Não matarás"; 2- 'A estrada seja para ti um instrumento de comunhão entre as pessoas e não de dano mortal"; 3- 'Cortesia, correção e prudência te ajudam a superar os imprevistos'. 4- 'Seja caridoso e ajude o próximo na necessidade, especialmente se for vítima de um acidente"; 5- 'Que o automóvel não seja para ti expressão de poder e domínio e ocasião de pecado'. 6-'Convença com caridade os jovens e os que já não o são para que não dirijam sem condições de fazê-lo"; 7- 'Preste apoio às famílias das vítimas dos acidentes'; 8- 'Reúna a vítima com um motorista agressor em um momento oportuno para que possam viver a experiência libertadora do perdão'. 9- 'Na estrada, guie o mais fraco'; 10 - 'Sinta-se responsável pelos demais'.

Meu instrutor de direção esqueceu de me dizer ou, talvez, eu não estivesse muito atento. Além de extensão de nosso corpo, o automóvel é, sobretudo, extensão da nossa consciência.

Pablo Morenno



Escrito por Pablo Morenno às 21h34
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Van Gogh

 A ORELHA DE VAN GOGH



Holanda em postais: um tapete de tulipas vermelhas, moinhos-de-vento como gigantes quixotescos sob o sol. Se imagino um holandês, é Van Gogh quem aparece. Com a ansiedade dos famintos, desesperadamente, despeja tintas em telas, densas e turvas camadas. E a espátula pare corvos negros, campos de trigos, girassóis, ciprestes fantasmas. Tristes quadros. Tudo extremamente vivo. Van Gogh é o holandês mais famoso do mundo. E sua orelha ausente - mais do que todas as de Pitangui - é a mais enigmática do mundo.

Sobre a orelha que não aparece no “Auto-retrato com orelha enfaixada e cachimbo”, 1889, há várias histórias. A versão que ganhou maior notoriedade relata a punição do pintor perturbado. Após uma das muitas brigas com Gauguin, com quem dividia o ateliê, como punição e pedido de desculpas, teria cortado a própria orelha e entregue ao colega. Outros contam que a orelha teria sido ofertada a Rachel, uma prostituta. O certo é que Van Gogh, além de sua arte, deixou-nos esse despojamento e coragem.

Lembrei-me da orelha de Van Gogh esta semana, enquanto vasculhava a internet lendo notícias amenas. O reality show "De Grote Donorshow" – show do grande doador - na Holanda colocou na TV uma mulher, Lisa, paciente terminal. Diagnosticada com câncer, devia escolher entre pessoas de uma fila de espera aquela que seria agraciada com um de seus rins. Por telefone e e-mail, os telespectadores deviam orientá-la na decisão.

Antes mesmo de ir ao ar, numa sexta-feira à noite, o programa dividiu a classe política, a opinião pública e os moralistas de plantão. O primeiro-ministro holandês, Jan Peter Balkenende, disse a Deus e todo mundo que não assistiria ao programa por ser de conteúdo absolutamente anti-ético. O deputado democrata-cristão Joop Atsma chegou a pedir ao parlamento holandês a suspensão do atrativo.

Show no ar. Um milhão e duzentos mil espectadores ligaram seus televisores para assistir ao drama. Para um país do tamanho da Holanda foi um número impressionante.

Ninguém esperava, e aconteceu. Durante a exibição, um segredo bombástico é revelado. Lisa era apenas uma atriz. Os receptadores, embora necessitassem realmente de um rim, estavam conscientes da farsa televisiva. A produtora Endemol, a mesma do Big Brother, bolou a atração para conscientizar os holandeses sobre a importância da doação de órgãos e tocar a opinião pública quanto à escassez de doadores no país.

Indignados por terem sido vítimas de um trote emocional, 100 assinantes da emissora cancelaram seus contratos antes do fim da exibição. Entretanto, mais de 12.000 holandeses se inscreveram como doadores durante o espetáculo e esse número vem crescendo dia a dia.

Embora a humanidade tenha evoluído científica e culturalmente, na maioria dos países com alto padrão econômico, alguns sentimentos - como a solidariedade e o espírito de doação – minguam em proporção inversa. O que acontece na Holanda de modo específico revela-se genérico no mundo. No Brasil também são freqüentes as campanhas, promovidas pelo poder público e instituições de saúde, que alertam sobre a escassez de doadores de sangue, órgãos e tecidos. E, quase sempre, um nome sucumbe na fila de espera. Tristes telas.

A história de Van Gogh, como o “reality show” holandês, não precisa ser real. Na vida, como na arte, o simbólico vence. O que sempre me impressionou nesse artista impressionista foi a doação da orelha. Se quem recebeu foi um amigo ou uma prostituta também é desimportante. Para mim, foi a orelha de Van Gogh que tornou inesquecíveis seus girassóis, seus campos de trigo, seus corvos, e também as tulipas e os moinhos-de-vento da Holanda. Tudo extremamente vivo.

Pablo Morenno



Escrito por Pablo Morenno às 22h16
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