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tal pai, tal filho
TAL PAI, TAL FILHO
Emerson visitava seu pai no Presídio Central e hoje recebe a visita de sua filha. Ficha: homicida.
João Carlos não conheceu o pai e hoje tem uma filha que pretende registrar. Ficha: punguista.
Valdemar, que não teve pai em casa na infância, tem um filho de quem sabe apenas o primeiro nome. Ficha: assaltante.
As histórias destes três jovens internados na Fase – Fundação atendimento socioeducativo do Estado, que abriga menores infratores, em quatro páginas de jornal do último final de semana, alertam para um problema para além da superfície da violência. Quatro páginas repetindo histórias copiadas em filhos, que plagiaram a vida dos pais e dos avós, quiçá de seus netos e bisnetos.
Não foi apenas Freud quem descobriu a estruturação da personalidade através das relações de afeto com a mãe e o pai. As igrejas e os governos também. O que nem Freud explica é a razão por que ambas as instituições não se entendem na hora de propostas efetivas para família e natalidade. Enquanto discutem métodos e princípios, a multiplicação dos filhos e dos cidadãos expostos à miséria e à violência é rápida como a luz.
Há tempos tenho pensado em uma proposta extrema. Nunca a anunciei com medo de represálias. As igrejas me excomungariam porque, à primeira vista, ela se oporia ao sagrado direito a vida. Os estados porque, à primeira vista, seria uma ingerência nos direitos individuais. Mas apenas à primeira vista. Com o tempo, os sensatos me dariam razão.
Somos solidários e responsáveis uns pelos outros no mundo. Há um fundamento jurídico e um teológico. O fundamento jurídico é o princípio da solidariedade social, aquele mesmo que faz com que todos devam recolher previdência, embora nunca venham a utilizar um médico do SUS. O princípio teológico é o da “comunhão dos santos”. Por este princípio, todos participamos do pecado original, embora nunca tenhamos passado próximo ao paraíso. E todos nos aproveitamos da santidade dos outros, uma vez que participamos da mesma natureza humana.
Assim, embora não tenhamos nada a ver com os filhos dos outros, como sociedade e seres humanos, sofremos o ônus de alimentá-los, pagar suas doenças e fraudes, e, o que é pior, os filhos dos outros nos assaltam, nos matam, roubam o dinheiro para construção de escolas e hospitais. Não falo apenas dos filhos dos pobres. Falo dos filhos dos outros em sentido amplo. E os outros, mesmo que não queiram, sofrerão em suas vidas as condutas de meus filhos. Poderão ser salvos ou violentados por eles.
Por este motivo, ter filho não poderia ser apenas uma decisão dos pais. Ninguém poderia, só porque tem um aparelho reprodutor, nascer com o direito de usá-lo como lhe der na telha. Considerando que todos sofreremos o mau uso dessa arma, a comunidade, ou o Estado, deveria avaliar o homem e a mulher para lhe conceder o direito da procriação, uma vez seus filhos gerados serão ônus ou bônus de todos. Conforme as condições econômicas, emocionais, éticas ou morais, o órgão do Estado, ou da comunidade, autorizaria o casal a ter um ou mais filhos. E claro, o amor e a ética, deveriam ser pontuados acima da capacidade econômica. O casal que se mostrasse mais amoroso e ético, embora pobre, teria o auxílio financeiro da comunidade ou do Estado para gerar mais filhos.
Como o homem não é um produto matemático, não posso garantir que esses filhos não se tornariam desumanos. Contudo, esses filhos de pais amorosos, equilibrados e éticos, uma vez que presenteados com o melhor da humanidade, tornando-se corruptos ou criminosos, seriam punidos - além da pena de prisão - com o castigo de não deixar descendentes. Os filhos da minha teoria nasceriam sem nenhum direito a desculpas.
Pablo Morenno
Escrito por Pablo Morenno às 21h48
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Gambá - Osso

O MILAGRE DO GAMBÁ
Já pensou como seria ter um gambazinho em casa? Fácil é ter um gato, um cachorro, um canário, e até um iguana. Conviver com um gambá exige um pouco mais de desprendimento. Por isso, fiquei feliz ao ler no jornal a notícia de uma menina que adotou um gambazinho. A mãe-gambá foi atropelada, mas o gambazinho sobreviveu. Uma garota ficou sensibilizada e levou o bichinho para sua casa. Está cuidando dele com mamadeira e carinho. Não lembro qual cidade da Grande Porto Alegre nem sequer o nome da adolescente. Só lembro que um gambazinho órfão encontrou amor e acolhida.
Enquanto ninguém tolera as diferenças, as pessoas se agrupam por afinidades, os evangélicos querem converter os católicos, os católicos querem convencer os evangélicos, as mães querem curar seus filhos gays, Michael Jackson pretende ficar mais branco, uma menina aceita o gambazinho em seu quarto.
Nos orfanatos sobram crianças negras e aidéticas. Numa sociedade que valoriza a aparência e a beleza, uma garota adotando um gambazinho é uma luz acesa na escuridão. A gente fica sonhando que judeus e palestinos poderão viver num mesmo território, que católicos e protestantes poderão morar na mesma rua na Irlanda, que haverá paz nos campos de futebol.
Há cheiro de bons sentimentos no ar. Se um gambá faz um grande milagre, imaginem um porco-espinho, um rinoceronte, um elefante ...
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BODAS DE OSSO
O livro do mês de maio da Capital Nacional da Literatura é “Bodas de Osso” do escritor gaúcho Paulo Betancur. Firmando um texto em que a poesia está mais na transcendência das palavras do que na forma, Betancur desnuda o cotidiano expondo a ambigüidade vida/morte da existência. Embora a morte transite disfarçada, graças à metáfora, no cálcio incorruptível das palavras resiste o poeta. Nos ossos que jazem ao relento ou no fundo da terra, desafia a putrefação e proclama a vida em suas infinitas bodas. Do cavalo morto vivem os vermes e brotam as flores:
TROTE
Morto, o cavalo não descansa.
Moscas, mudanças
transformam-lhe cheiro e destino.
Surpreendem o cavalo com
a nova figura sem espelho.
O podre também é doce,
não desampara o animal.
Brotam vermes e flores
numa primavera que o enterra
sem esquecê-lo, sem assustar-se.
(p. 126).
Escrito por Pablo Morenno às 22h37
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