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errar
COMO ERRAR MENOS
À vitrine de uma loja de pequenos animais, observo o casal e seu filho escolhendo um bichinho para comprar. Estes pais que presenteiam suas crianças com um animalzinho de estimação são gente impregnada de boas intenções. Um ser vivo e não humano, dentro de casa, pode ser um companheiro para o filho ou a filha, ajuda a desenvolver o cuidado, a afetividade melhora e, ainda, amarra desde a infância um laço de respeito à natureza. Quem gostou de uma tartaruguinha jamais vai comê-la na sopa! Mas pais, mesmo cheio de boas intenções, são seres errantes. Falo “errante” não só porque vagueiam preocupados em bem educar os filhos. Falo “errante”, também, porque erram acertando. Para completar, com o tempo, os filhos acabam achando os erros dos pais grandes acertos. Prova cabal de que a humanidade escreve sua história tentando discernir o certo do errado e fazendo perguntas sobre um e outro. Apenas um pai muito doidão, ao comprar um mascote para o filho, poderia pensar que seu gesto pudesse levá-lo ao alcoolismo, ou transformá-lo em um assaltante dos cofres públicos, ou em uma assassino em série. O problema é que os pais pouco sabem onde e como seus gestos terão eco na personalidade futura dos filhos. Mesmo o amor é remédio de dose difícil. E quando o amor se transforma em coisas, fica mais difícil ainda contar as gotas. Filhos que passaram por grandes dificuldades podem se tornar cidadãos compromissados com suas comunidades. Por outro lado, filhos muito mimados podem ser tiranos. É o complexo do filho único cujos expoentes como Hitler e Napoleão marcaram negativamente a história. A história se alterna entre períodos de excessiva severidade com os filhos e outros de liberação irresponsável. Sabe-se que somos uma mistura entre os impulsos inatos e a educação, entre os instintos e os freios sociais. Os pedagogos aconselham e desaconselham e, ao passar das gerações, quando o estrago já está feito, descobre-se que o brilhante pensador, guru de uma geração inteira, estava equivocado.
Há outro dilema, quase que insolúvel. Como cada ser humano é único, as lições dos outros de pouco servem. Já que falamos dos remédios, é como tomar o mesmo remédio para organismos diferentes. Ou alimentar com açúcar diabéticos e hipertensos, ou achar que pão e leite, como fizeram bem para os avós, farão bem para os netos, mesmo que sejam celíacos ou com intolerância à lactose.
Sim. Mas como faremos, então, você deve me pergunta a esta altura? Será que o cronista encontrou a resposta correta? Desculpe. Eu nada sei e não tenho a mínima idéia de como educar bem um filho, ou como preparar o ser humano para ser alguém comprometido e ético, justo e solidário. Só acho que não podemos é abandonar o amor, mesmo em suas expressões equivocadas. E seguir pensando, pensando. Como fizeram alguns homens que transformaram o mundo para melhor, apesar de errar como todos os outros.
Pablo Morenno
Escrito por Pablo Morenno às 23h12
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Passárgada
A CULPA É DO MONGE
Sexta-passada, um budista bateu em um monge durante uma sessão de meditação no Templo Busshinji, da Comunidade Budista Sotozenshu da América do Sul, na rua São Joaquim, Liberdade (região central de São Paulo). É apenas um sinal dos tempos da perda de paradigmas. Por causa do monge, os desembargadores, procuradores federais, advogados, caíram na gandaia. Henri Sobel furtou gravatas nos esteites. O diabo está solto.
Tá havendo uma debandada geral. Os monges andam violentos, a justiça vende liminares, os policiais viram bandidos. Quem poderá nos salvar? Chapolim Colorado?
Daqui a pouco Jesus reaparece pregando o ódio aos outros e é bem capaz de Bush se candidatar novamente ao Prêmio Nobel da Paz, de Paulo Coelho ganhar o Nobel de Literatura, de Hitler ser canonizado, de algum inventor de arma química ganhar o Nobel de Medicina. Afinal, do jeito que as coisas andam, tudo é possível.
Mas o pior de tudo não são essas barbaridades. O pior de tudo é que ninguém fica surpreso, ou chocado. As notícias aparecem no Jornal Nacional e os apresentadores mantêm a mesma cara estática de sempre. Tá todo mundo drogado ou eu ando sensível demais? Será quem ninguém percebe o absurdo das coisas? O inusitado? O surreal? A realidade está deixando Salvador Dali e Kafka estupefatos.
Vivemos uma Síndrome de Estocolmo generalizada. Para os que desconhecem, esta síndrome identifica o amor que se estabelece entre os seqüestrados e os seqüestradores no cativeiro. No dia 23 de Agosto de 1973, três mulheres e um homem ficaram seis dias reféns de bandidos, em um assalto a um banco de Estocolmo. Para a surpresa de todos, os reféns desenvolveram uma relação afetiva com os bandidos. Desde então, chama-se Síndrome de Estocolmo a essa identidade afetiva que se cria nos raptados pelos seus raptores.
Sílvio de Abreu já comentou em uma entrevista que os heróis andavam em baixa. O povo queria era anti-heróis e bandidos como protagonistas das novelas. Estes é que são admirados e imitados. Se o vice-presidente de um Tribunal Regional Federal se junta aos bandidos, e até um Ministro do STJ está envolvido, de que modo poderá o Estado passar aos cidadãos a confiança nas instituições? Salve-se quem puder, e coitadinhos de nós os que tentamos ser éticos e razoáveis. Idiotas de nós, virando motivo de chacota nos alto escalões. Pobres de nós que acreditamos na justiça, na polícia, no governo, na escola, nas igrejas, nos rabinos, nos padres. Bobinhos! Idiotas! Palhaços! Burros! Ignorantes!
De que adiantam as passeatas pela paz, os conselhos pela honestidade, os temas transversais nos programas dos colégios, o discurso dos valores, os proclamas morais, a perda de tempo com novas leis?
De que adiantam os argumentos em favor da justiça se os desembargadores e procuradores de justiça ficarão rindo da lei enquanto combinam a propina com os infratores de todos os tipos? Anos estudando Direito, duas semanas pesquisando, você até fez doutorado sobre o tema, escreveu uma tese toda numa petição e ... o desembargador vai deferir ou indeferir o pedido segundo o interesse de seu bando.
Um budista bate num monge durante uma meditação. Um dos princípios essenciais do budismo é a não-violência. Foi o estopim para a degringolação, para a chacota, para a suruba, para o pastiche. Tudo culpa do monge.
Alguém tem um último fósforo pra a gente achar a porta? Vou-me embora para Pasárgada.
Pablo Morenno
Escrito por Pablo Morenno às 21h21
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Tarde gris
A tarde cinza chove. Ouço Celtic Air, um disco com músicas relaxantes, enquanto estudo para a prova de Processo Civil IV - Procedimentos especiais. Preciso, até segunda (dia da prova) escrever cinco textos para o livro dos 150 anos de Passo Fundo. Já os tenho alinhavados, mas falta a finalização. Meus oito temas são: A inauguração da Catedral, a Matriz da Conceição, a Romaria a N. Sa. Aparecida, a Cultura Artística em Passo Fundo, a Lenda da Mãe Preta, o nascimento da Faculdade de Filosofia e UPF, a história de Maria Elisabete, a Fundação Leão XIII de Assistência Social. E ainda tenho um livro para acabar com urgência e um monte de processos me esperando lá na Justiça do Trabalho.
Tudo isso é para justificar minha ausência no Blog. Eu sei, fica uma casa abandonada. Neste primeiro semestre, depois da correria de Livro do Mês, em razão de meu trabalho e faculdade, resolvi aceitar poucos convites para eventos de literatura. Nas próximas semanas tenho o Colégio Protásio Alves e o Colégio Alberto Pasqualini, aqui em Passo Fundo. Depois, retorno em Maio: dia 18 na Escola Municipal Romana Gobbi. Em julho tenho: dia 06, 15º Seminário de Leitura e Literatura da UNISC Rio Pardo e dia 12 e 13, Feira do Livro de Panambi. No segundo Semestre tenho a Feira do Livro de Barra Funda, Catuípe, Nova Bassano, duas escolas em Caxias do Sul...
Peço desculpas aos professores que me contaram e não pude ir, principalmente, aqueles locais longe de Passo Fundo. No segundo semestre, pretendo ver se aceito mais convites. Assim que eu terminar a Faculdade de Direito, prometo ser mais solícito... aliás, mais que solícito... Vou é ficar ligando para os eventos e me convidando... e se não aceitarem vou de penetra.
Como a tarde está mais para poesia que para prosa, recito:
MEU LÁPIS
Meu lápis prefere escrever letras gordas.
Temendo tornar-se instrumento de morte,
recusa a agudez de sua ponta de lança.
Toda palavra que escrevo se alonga.
Longe de mim as palavras estreitas.
Meu lápis (podendo) não quis ser diamante.
Não quis higidez, contundência.
Optou desgastar-se.
A consciência do lápis tem claro
sua sina de terra e carvão:
o homem, as árvores, aves,
as folhas sem asas do tempo.
Meu lápis recusa o fio das letras,
feridas, sulcos, perfurações assassinas.
Meu lápis passou pelo fogo,
mas não quis ser diamante de amantes.
Simples carvão quer escrever o mundo
em letras grossas, difíceis de apagamento
sem preço de sangue,
apenas gastando seu corpo,
desapontado.
TEREZA E O RATO
Quando Tereza chegou à cidade abandonada, estava só. Estava só de gente, sublinhe-se. Um rato olhava o arco-íris e roía sua própria solidão.
Quando o rato chegou à cidade abandonada, estava só. Estava só de sonhos, sublinhe-se. Um arco-íris espreguiçava-se entre o rio e o céu. O arco-íris coloria a cidade só.
Quando o Arco-íris nasceu na cidade abandonada, estava só. Estava só de gente, não de futuro. O rio, lacrimejando, produzia sal para o mar. O céu estava só para o sol.
Surgindo não sei de onde, apareceu Deus e disse à Tereza “não é bom que estejas só, é preciso multiplicar-se”, e outros assuntos próprios de Deus. Porém, quando Deus fez a pergunta em alto e bom som para ela “Queres que eu tome uma costela tua e te dê um homem como companhia?”, ela respondeu, clara e decididamente, “Não!”. Para o poderoso só restava ir-se dali, abismado. E foi. Não muito sozinho, pois estava em três pessoas. Só, como Deus.
Tereza pôde olhar o sol puro, o céu perto, o rio simples. Havia o problema do rato, é óbvio. Então, Tereza deu-se conta que ela e o rato jamais repovoariam a cidade. Ela e o rato poderiam amar-se sem medo e sem culpa.
Quando Tereza chegou à cidade abandonada, tornou-se feliz.
Estava absolutamente certa. Jamais morreria assassinada.
Escrito por Pablo Morenno às 16h43
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