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PABLO MORENNO
 

Final de Ano

Final de ano. Descansei e descansarei um pouco do blog. Estou saindo de viagem. Santa Catarina, depois Gramado, depois litoral do RS. Feliz Natal a todos e um Ano Novo de sonhos imaginados e escritos.

 

DESEJO DE NATAL

 

 

Em tempos de Natal descubro a principal diferença entre uma criança pobre e uma criança rica. Não é a falta de dinheiro da primeira. O que a criança pobre tem a mais é que os desejos são maiores que o dinheiro dos pais. Culpa de Deus. É Ele quem nos faz nascer pobres sem alterar a capacidade de ter desejos. Então, quem nasce pobre tem duas opções. Ou dá um jeito de ficar mais rico, ou ao menos nem tão pobre – como eu –, ou pára de ter desejos.

         Uma colega de trabalho teve a idéia este ano de trazer uma caixinha com cartas de crianças ao Papai Noel dos Correios, para que fizéssemos nossa boa ação de Natal, e pudéssemos começar o ano novo com a consciência tranqüila. Lendo uma e outra cartinha, me lembrei do tempo em que, menino pobre do interior, todos os natais do Papai Noel uma patrola, ou uma motoniveladora, num vocabulário mais técnico.

 Estou envelhecendo e nunca a patrola chegou. Revirando as cartinhas dos correios, entre os olhares surpresos de meus colegas, aquele desejo de pobre - desejo de coisas simples e insignificantes - reaflorou.  Meu desejo floresceu incentivado por esses pedidos de material escolar, chinelo, bola, remédios, roupas, boneca, ursinhos. Desejo de criança pobre não ultrapassa os vinte reais.  

         Trinta e poucos anos. Nunca ganhei a patrola da infância. Cresci, estudei, me casei, estou menos pobre, mas aquele desejo antiquíssimo ainda implora deixar de ser desejo e morar em um canto da casa.

Como posso realizar um desejo dos outros se dentro de mim há uma criança com um antigo desejo pendente?

         Eu em minha mesa. Perdido entre carimbo e processos. Um menino com vermes na barriga e desejos no cérebro.  A patrola! A patrola! Enorme, amarela. Duas lâminas fortes. Lâmina para estradas estreitas e amplas. A patrola abria a terra vermelha, deslizava suas rodas pesadas e pretas, garras e vincos cravando o cascalho. E ia derrubando tocos, árvores, arrancando pedras. Eu desejava aquele bicho raro e amarelo abrindo caminhos no horizonte, entre as plantações e os matos, entre um mundo pequeno e um outro.

         18 horas. Fim do expediente. Lojas ainda abertas, muitas, nenhuma patrola. Longe do centro, quase na periferia, lá estava ela me esperando. Saldo de dois ou muitos anos, me contou a vendedora.  Na cidade, poucos meninos têm desejo de patrola no Natal. Ela foi ficando ali, abandonada como antiga lembrança. Deve ter esperado trinta e poucos anos, eu sair do interior, melhorar de vida e quase esquecê-la. Abracei-a na prateleira, paguei com cartão de crédito, e a trouxe pra casa.

Desejo desfeito, desejo virado coisa, devo seguir a vida de gente grande, nesta estrada aberta sem horizonte, nesse muito que o mundo nos pede. Muito, ou muito pouco. Embora nem tão pobre, continuo com essa poderosa capacidade de continuar desejando. Realizado o desejo de infância, estou pronto. Tomarei o brinquedo nas mãos pela última vez. Amanhã ele estará num pacote bonito, lá na Vila Beira-Trilhos, na casa do Mateus que, exatamente como eu há trinta e poucos anos atrás, escreveu ao Papai Noel dos Correios pedindo uma patrola neste Natal.  A única diferença: ele não precisará esperar tanto tempo.

Feliz Natal!

Pablo Morenno

 



Escrito por Pablo Morenno às 18h30
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passarinho

A VOLTA DE UM PASSARINHO

 

 

A filhinha de amigos ganhou um canário. Um dia adoeceu e morreu, o pássaro. Consumiram com o corpo da ave para não visse, a menina.  Contaram-lhe em meias verdades. Disseram-lhe que ele tinha saído voando da gaiola. Não chorou. Foi passear lá na casa da vovó dele – disse ela para os pais –, um dia ele volta. E fez os pais manterem comida e água na gaiola durante semanas. Com o passar do tempo, foram desdizendo a mentira. E a menina foi crescendo, crescendo... Hoje nem lembra que o passarinho ainda pode voltar.

         A maior virtude das crianças é a fantasia. E essa virtude, é a primeira coisa que fazemos as crianças perder. Por causa da fantasia as crianças não pensam na morte, não se estressam, e não deixam de dormir a não ser por medo de seus próprios fantasmas.

         Extinguir o medo dos fantasmas é a segunda malvadeza que fizemos com os pequenos. Pensando bem, a primeira, porque tornar-se adulto é um castigo da natureza e ficar sério sua conseqüência inerente. Fizemos de tudo para que as crianças deixem de acreditar em fantasmas. Depois a indústria cinematográfica fatura milhões com seus fantasmas assassinos. E os adultos fazem um gritedo nos  cinemas. Depois, lá fora, são os primeiros a convencer a próxima criança que tudo é apenas imaginação e mentirinhas ficcionais.

         Passa o tempo. De filhos viramos progenitores. Esse nome requintado de quem se muda do castelo da imaginação para a casa da realidade. Trocamos os dragões do castelo, suas bruxas e fadas, por cachorros e empresas de segurança, por piscinas e carros na garagem.  Nada se torna mais preocupante do que as metas do trabalho, do que o ganho mensal, do uma viagem para a Europa sorteada pela multinacional ou pelo cartão de crédito. Estratégias, programas, treinamentos.  Tudo somado nas teclas da calculadora.

         Há as recaídas. As falsas desculpas de comprar fantasias do Batmam para o filho e ou uma mochila da Hello Kitty para a filha. E os homens carecas e as mulheres de terninhos passam horas fuçando as prateleiras das lojas e observando a vida que se foi, o menino e a menina que ficou idiota com o tempo.

         Fico olhando a cidade com suas vitrines de ruas decoradas,  as casas que ainda põe arranjos  nas portas. Fico olhando as propagandas na televisão e nos jornais, os folhetos dos supermercados, os pacotes de ano novo, as promoções das revendedoras de automóveis. Fico olhando as pessoas correndo pelas ruas, observo as festas de final de ano das empresas, os amigos secretos entre os colegas.

Neste tempo de Natal, observo essas mudanças na aparência da cidade. Ouço as canções natalinas enjoadinhas e até me emociono.  Nesta época, a infância é um passarinho que volta para o mundo adulto por algumas semanas. E toda essa fantasia pode ser vivida sem medo de que alguém recrimine nossa imaginação infantil ou que nos convença de que a existência mesma, que a vida mesma, é apenas fruto de nossa imaginação descarrilada.

 

Pablo Morenno



Escrito por Pablo Morenno às 19h04
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