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Posse na APL
Fiquei devendo uma foto da minha posse na APL - Academia Passofundense de Letras. Aí estou eu, representando os colegas no discurso. Eu estava dizendo o seguinte:
"O texto literário não tem a estrutura vazia como a das mentiras e nem univocidade instrumental como a das ciências. Mas, a Literatura, também, diferentemente do que crê a maioria, não se faz apenas de brocados e rendas, penas de pavão e brilhantina. Ninguém beijaria uma porca maquilada, apesar de seus colares de pérolas. É óbvio que a literatura é manifestação estética ligada à palavra. Diferenciada entre as artes por ter a linguagem como material. Mas, a literatura, como fazer do espírito humano é, sobretudo, a re-construção, remodelagem do ser usando a linguagem com técnica, procurando a estética, mas sobretudo, exercitando a ética. Pois, se a criatura não pode renegar o criador, a produção literária jamais poderá esquecer que a consciência humana é responsável por si mesma, que o homem é responsável por si mesmo, pelos outros homens e pelo mundo onde se deparou com a existência. Os recursos de tranafiguração de sentido não geram apenas uma promiscuidade no mundo dos signos, onde, por exemplo, a moça passa a ter a beleza da flor, o assassino absorve o reboliço da tormenta. A metáfora, deve, na verdade, denunciar os equívocos e acertos da realidade e como algo que sua própria etimologia diz, ir além e criar possibilidades plausíveis e mais adequadas para a vida no mundo.
Mas qual palavra busca a literatura? Ora, a literatura e os bons escritores buscam a palavra fundadora do mundo. Aquela que, nos mitos babilônicos recontados pelos judeus, tinha o poder de trazer à realidade o seu conteúdo. “...então Deus disse: - Faça-se a luz, e, imediatamente, a luz foi feita”?
A literatura busca o “logos” da concepção grega, o princípio ordenador do caos cósmico.
O Evangelho de João começa anunciando que a Palavra(logos, no original)- aquela proclamada como verdade pelos profetas - se fez homem e armou sua tenda entre nós. A palavra “tenda”, usada pelo evangelista, evoca o caráter dinâmico, itinerante e nômade da verdade, sempre esguia ao cárcere avassalador de uma construção em pedra. E observo, que não falo do texto do evangelho como revelação divina, mas como produção da cultura humana como diz Harold Bloom, um dos maiores críticos literários da atualidade.
O escritor que se respeita, procura a palavra, aquela para quem os Maias tinham um Deus especial, o Deus das Palavras e ao qual os mentirosos eram sacrificados...."
Escrito por Pablo Morenno às 22h02
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Na mesma casa
NA MESMA CASA
“É como se Perry e eu tivéssemos crescido na mesma casa, só que eu saí pela porta da frente, e ele pela dos fundos”. Depois de ver o filme Capote, esta frase do autor de A Sangue Frio restou na memória como a mais intrigante. Enquanto volto do cinema, a frase de Truman se mistura àquela de uma criança do documentário Falcão – Meninos do Tráfico, projétil perdido na nossa cabeça: “Se eu morrer, nasce um outro que nem eu, pior, ou melhor”.
Truman tenta explicar porque o assassino de uma família inteira numa pequena comunidade do Kansas, sul dos EUA, em 1959, lhe havia sugado seis anos de vida e por qual razão acabaria por aniquilá-lo literariamente – foi sua última obra acabada. Algo em comum havia entre o escritor bem sucedido, centro das rodas sociais, e aquele homem amaldiçoado à pena irreversível.
A frase é contundente e ultrapassa a semelhança entre a vida de Truman e Perry, ambos rejeitados pelos pais e criados por estranhos. De algum modo, esta mesma frase poderia ser colocada na boca de cada um de nós com relação aos meninos do tráfico, aos estigmatizados sociais de todos os tipos. Acaso não nascemos na mesma casa que eles?
Por que nós, os bons, tomamos uma saída diferente? O que houve ao longo de nossas vidas que mudou o rumo? Será que, se tivéssemos nascido de mães alcoólatras e pais assassinados, seríamos os mesmos? Eles, com nossas mesmas oportunidades, seriam traficantes e assassinos? Sair para o mundo pela porta da frente ou pela porta dos fundos é apenas uma decisão individual? Como se entrelaçam vontade e oportunidade? Será que a miséria humana, com sua boca de morte, não rumina a vontade de vida?
Atentos ao filme, vamos percebendo. O assassino não é tão mau quanto parece e o escritor não é tão bom quanto se mostra. Narcisista, Capote, revela-se cada vez mais obcecado pela sua obra. Para alcançar seu intento, engana, mente, chantageia. E se, no início, vasculha bons advogados para os criminosos, mais tarde, mostra-se indiferente. Pode-se perceber seu desejo nítido de que os assassinos sejam mortos o quanto antes, sacrificados ao fim apoteótico do livro. O desejo de morte de Perry e Truman é da mesma natureza. Embora Capote não execute ninguém, ao ansiar o pronto desfecho do cadafalso a seus personagens, expressa o mesmo motivo fútil dos assassinos: dinheiro. O escritor comenta com sua amiga Harper Lee sobre Perry: “Ele é uma mina de ouro”. E enquanto aguarda a decisão da Suprema Corte, pede a Harper: “reze para que seja favorável a mim”.
A obra-prima de Capote é também uma autobiografia sobre o que havia de Perry Smith nele. Do mesmo modo, no fundo de cada um de nós, meninos mascarados brincam com armas em uma favela. Nós e eles vivemos sob a mesma casa (barraco?) da vida humana. Precisamos descobrir apenas por qual razão alguns saímos pela porta da frente e outros pela dos fundos. Será que é teimosia deles ou nós não queremos companhia, ou não avisamos da porta, ou os abandonamos à própria sorte, ou...
Seremos tão bons quando nos cremos?
Pablo Morenno
Escrito por Pablo Morenno às 20h15
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Música
Não sei se acontece com todo mundo, mas comigo é assim. Às vezes acordo com uma música na cabeça. Pode ficar o dia inteiro, ou a semana inteira. Hoje acordei com esse refrão, nem sei de onde é a música.
Daqui a dois mil anos, quero estar com você.
Caminhando à beira de um rio, à beira de um mar.
Daqui a dois mil anos, quero estar com você
E se eu não estiver, deixe-me sonhar.
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Minha sobremesa hoje foi sorvete crocante com bis picadinho por cima e coco ralado. Pequenas coisas tornam a vida interessante. Vou tentar escrever minha crônica da semana para os jornais.
Uma boa semana para todos.
Escrito por Pablo Morenno às 15h41
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Capote
O domingo de início de outono vai bem. Aliás, muito bem. Hoje à noite, pretendo ver Capote. Demorou para chegar aqui em Passo Fundo, mas chegou. Escritores são meio fora da casinha, acho que faz parte do gênero. E Capote, genial, não foi diferente. Vida conturbada parece ser terra fértil para obras de qualidade.
"Baseado no livro de Gerald Clarke, “Capote” traz às telas os bastidores da produção da obra mais famosa do escritor, “A Sangue Frio”. Foi com esse livro, aliás, considerado o grande marco do jornalismo literário, que Truman Capote se tornou um dos escritores mais celebrados dos Estados Unidos. “A Sangue Frio”, lançado em 1965, conta os detalhes do assassinato de uma família no Kansas e a posterior condenação dos criminosos à pena de morte.
Durante os 4 anos em que escreveu o livro, Capote criou uma história real, mas cheia de invenções inteligentes. O período marcou para sempre a trajetória do escritor, tanto é assim que depois dessa experiência ele nunca mais conseguiu voltar à carreira literária. A relação conflituosa do escritor com sua obra, que às vezes parecia fugir de suas próprias mãos, exacerbou seus problemas com o alcoolismo, que o levou à morte em 1984. Relação essa presente naqueles artistas que buscam sempre confrontar o real e o ficcional.
Truman Capote nasceu em Nova Orleans em 1924 e era representante do chamado neo-romantismo americano. “A Sangue Frio” influenciou toda uma geração de escritores e jornalistas e a literatura de ficção passou a ser vista com outros olhos. "
Escrito por Pablo Morenno às 15h35
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Vergonha
VERGONHA
Depois da vergonha de perdermos no futebol para os argentinos algumas vezes, agora temos essa vergonha no ranking da leitura. Ante argentinos ou o mundo, já temos vergonhas demais. Começamos com as vergonhas dos índios vistas por Caminha e agora não há folhas de buriti suficientes para tantas outras. Somos um dos países mais corruptos do mundo, paraíso da prostituição infantil, um dos primeiros em mortes no trânsito, bem colocado na criminalidade e, se não bastasse, um dos piores em leitura. Basta!
Leio na Folha. A importante revista inglesa The Economist anuncia em suas manchetes que a leitura no Brasil é uma vergonha. Para a revista, a situação das bibliotecas públicas e o baixo índice de leitura dos brasileiros constituem "motivo para vergonha nacional", juntamente com o crime e com as taxas de juros.
"Muitos brasileiros não sabem ler. Em 2000, um quarto da população com 15 anos ou mais eram analfabetos funcionais. (...) Apenas um adulto alfabetizado em cada três lê livros. O brasileiro médio lê 1,8 livros não-acadêmicos por ano - menos da metade do que se lê nos EUA ou na Europa. Em uma pesquisa recente sobre hábitos de leitura, os brasileiros ficaram em 27º em um ranking de 30 países, gastando 5,2 horas por semana com um livro. Os argentinos, vizinhos, ficaram em 18º.”
Passo Fundo, Capital Nacional da Literatura. Há que se merecer o predicado. A idéia da comissão multidisciplinar de escolher um livro por mês para leitura da comunidade, entre outras coisas, precisa ser abraçada por todos. Penso, também, que se poderia incluir no mês um título infantil e um juvenil, atendendo a um amplo público leitor. Alcançar o extramuros da universidade e das escolas também é mister. Bem vindo seja o envolvimento das empresas, do comércio, das entidades religiosas, das rádios, dos jornais, e até do poder público.
Que tal uma sessão da Câmara de Vereadores sobre o livro do mês? (Por que não usar um pouco de dinheiro do legislativo para aquisição livros e usar um pouco do tempo das briguinhas para fomentar a cultura entre os edis?)
Padres e pastores, quem sabe uma homilia mensal sobre o título do mês? Livro do mês nas entrevistas de emprego. Livro do mês nos extratos dos bancos. Livros do mês nos transportes urbanos. Vitrines temáticas nas lojas. Painéis com textos rotativos nas entradas da cidade. Adesivos nos automóveis. Conversa sobre o livro do mês nos almoços da ACISA e CDL. Livro do mês nos jantares de Rotary e Lions. Livros nas cestas básicas. Lei concedendo descontos nos impostos municipais às empresas com biblioteca para seus funcionários e com atualização mensal de livros...
Passo Fundo, Capital Nacional da Literatura, por lei, pode tornar-se um excelente começo de desvergonhamento para o Brasil. No início, Zíbia Gasparetto e Paulo Coelho serão aceitos. Mas não podemos esquecer que a honra autêntica ao título é da Literatura, assim, com maiúscula. Começa-se com quantidade, almeja-se a qualidade.
Talvez minhas idéias sejam estapafúrdias, insignificantes, ou molhem molhados. Usem-nas quem quiser. Não sou mesquinho. Meu sonho é que los hermanos, no próximo verão quando passarem por aqui indo às praias ou delas voltando, levem de Passo Fundo uma inveja boa e uma vergonha merecida. Perder para a Europa, tudo bem. Para os argentinos, ninguém merece.
Pablo Morenno
Escrito por Pablo Morenno às 14h56
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Fotos
PONTE DO TREM, sobre o Rio Uruguai, liga Marcelino Ramos RS ao Estado de Santa Catarina.
CRISTO CRUCIFICADO, em madeira, escultura na frente de da casa de um escultor em Treze Tílias.
Hotel Dreizenlindem, em estilo tirolês, onde ficamos hospedados de sábado para domingo. Os gerânios nas janelas são naturais.
Eu, falando para mulheres agricultoras em Passos Maia-SC.
Escrito por Pablo Morenno às 20h14
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Últimas notícias
Posse na Academia Passofundense de Letras – Umas trezentas pessoas prestigiaram a posse de colegas e eu na Academia Passofundense de Letras. Depois da posse, um coquetel na sede da APL. Com a saída de parte do público, um momento de literatura, poemas e música. Saímos era quase meia noite.
Final de semana – No final de semana, como eu tinha uma palestra em Passos Maia, resolvemos, eu e a Dani, sairmos no sábado. Passamos por Marcelino Ramos-RS e Piratuba-SC, duas estâncias de águas termais. No final da tarde, chegamos a Treze Tílias, essa cidade catarinense colonizada por austríacos. A cidade é pequena, muito bonita, e além da arquitetura típica, tem um escultor em cada quadra. As esculturas em madeira, predominantemente sacras, são uma característica da cidade, além da gastronomia e do relevo. Ficamos hospedados no hotel Dreizenlinden, Treze Tílias em alemão, de propriedade de um casal de austríacos, Senhor Moser e Catarina. Ele, formado em escultura na Aelmanha, foi um dos primeiros escultores da cidade. Infelizmente não podemos conhecer muito a cidade, no dia seguinte, às 8h da manhã, já estávamos partindo para PASSOS MAIA onde eu teria uma palestra no encontro de mulheres agricultoras. Depois de uns trinta quilômetros de estrada de chão, no meio de uma reserva florestal, depois de admirarmos aquelas borboletas que, secas, costumam enfeitar bandejas chegamos ao município. Mulheres simples e simpáticas. Eram por volta de seiscentas.
Na viagem, ao sair de um posto de combustível, estourei um pneu traseiro ao encostar na elevação que sustenta as bombas de combustível. Um corte profundo o inutilizou. Ainda bem que um borracheiro do posto tinha um pneu usado para venda. Meu estepe é de tamanho menor e com outra roda. È só um quebra-galho, não dá para rodar muito. Nos posts acima algumas fotos da viagem. Da posse na Academia ainda não tenho as fotos.
Escrito por Pablo Morenno às 20h07
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Dia da Mulher
DE ADÉLIA PRADO PARA TODAS AS MULHERES
Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos — dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou.
Affonso Romano, em seu novo livro, tem um poema que diz que as mulheres tem um incrível poder de transformar em filhos tudo o que tocam. É isso mesmo.
Feliz dia da mulher.
Escrito por Pablo Morenno às 21h45
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Academia
APL – Na próxima quinta-feira, 09.03.2006, às 20h30min tomo posse na Academia Passofundense de Letras. Meus colegas: Alberto Rebonatto, Alori Castilhos, Dilse Corteze, Marco Damian, Xiko Garcia e Selma Costamilan. É um dos objetivos da APL “difundir a cultura em todas as áreas do conhecimento”. Tentaremos.
Escrito por Pablo Morenno às 21h20
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Dia da Mulher
DE MULHER PARA HOMEM E VICE-VERSA
E Deus criou o homem a sua imagem: o fez homem e mulher(Gen 1,27). A mulher ofereceu o fruto ao homem. Deus falou com o homem, este culpou a mulher, esta culpou a cobra. Homem e mulher ficaram nus, perceberam suas diferenças e nunca mais houve sossego. O homem teve que trabalhar, a mulher que dar à luz. O homem tinha que sustentar a mulher, a mulher culpou o homem pela dor do parto.
As lições do relato da criação, nesta era, valem apenas relativamente: dar à luz já pode ser indolor e há muitíssimas mulheres sustentando a casa. No entanto, há dois ensinamentos básicos que se mantém: 1)na criação, Deus bipartiu-se em masculino e feminino; 2)homem e mulher precisam dialogar para a compreensão da exterioridade diferente.
No chá da tarde, as mulheres falam de seus homens para suas iguais. No futebol, os homens criticam suas mulheres para seus amigos. Sem o diferente não há antítese, tampouco síntese e evolução. Nós, homens, achamos que as mulheres são emocionais demais, falam muito, e têm uma lógica logarítmica incompreensível. As mulheres nos vêem como insensíveis, desinteressados nos detalhes e excessivamente calculistas. O cérebro de uma criança deve ficar totalmente embaralhado quando o pai não deixa a mãe dirigir a seu lado, ou quando a mãe não quer a companhia do pai na decoração da casa.
Segundo o mito do paraíso, o ser humano foi feito à imagem e semelhança de Deus, foi feito homem e mulher. Ou seja, Deus, o todo, ao criar, dividiu-se em dimensão masculina e feminina. A busca da diferença abre o homem para a mulher e a mulher para o homem. Para entender melhor o mundo é preciso lê-lo desde a exterioridade. É impossível abarcar o todo sem a parte diferente.
Na prática, chegamos à conclusão que nada melhor que uma mulher para mostrar ao varão a semântica dos símbolos do universo feminino. Por outro lado, o diálogo com um varão poderá desvendar à mulher o código da construção de sentido do mundo masculino. A mãe, a irmã, a amiga, poderão ajudar-me a entender minha namorada. O pai, o irmão, o amigo, poderão ajudar à garota a traduzir melhor os hieróglifos comportamentais de seu príncipe encantado.
Na convivência diária, homens e mulheres abrem uma janela para acolher a dimensão do divino que está para além da fronteira. O sexo oposto, mas já ligado a nós por laços afetivos e/ou sangüíneos, pode servir como transição ao mundo do diferente. Por ser despojado de certos interesses e por garantir seu laço, estes podem revelar-nos os segredos. Isto é possível porque a conquista da mãe, ou do pai, já foi superada nos complexos infantis( Édipo/Eléctra) e, com a irmã ou a amiga, o processo de sedução e encantamento é frugal nos riscos, em caso de ruptura, o desconforto é menor que o dos relacionamentos amorosos.
Deuses somos, mas na imagem dividida. O mundo, construído em sua teia de sentido por homens e mulheres, só será esquartejado na sua complexidade pelo acesso aos códigos guardados no universo do outro. Os homens teremos que ir até lá. As mulheres terão que vir até aqui. O diálogo com as figuras do outro sexo, que nos rodeiam e às quais nos ligamos por relacionamentos menos instáveis, pode ser âncora deste processo de intercâmbio, quando capaz de abrir uma fresta ao divino que habita na casa vizinha. Com isso, estaremos mais próximos da imagem e semelhança de Deus e nossa convivência no mundo será mais parecida com o paraíso perdido. Este é um desafio proposto a homens e mulheres sem preconceito, dispostos a tirar das costas da serpente a culpa pelos desentendimentos entre os sexos! Feliz dia da mulher.
Pablo Morenno
Escrito por Pablo Morenno às 09h56
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