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PABLO MORENNO
 

Tempo novo, crônica antiga

A crônica que segue foi escrita no fim de minhas férias o ano passado. Como acabei de chegar não tive tempo para transformar minhas anotações em textos legíveis. Desculpem, desculpem. Como a crônica só foi publicada no jornal aqui da cidade, é parcialmente inédita.

NAS FRANJAS DO MAR

 

            Escrevo esta crônica completamente nu. Quer dizer, quase completamente. Calço chinelos e uso relógio. Não posso andar sem chinelos para não pisar em falso. Relógio é indispensável na readaptação ao mundo. Voltei das férias.

         À beira-mar a gente se acostuma ao despojamento. A vida em sociedade impõe roupas e acessórios. Ordem e progresso. Nenhum papel social se sustenta desnudo. Um executivo sem gravata, um médico de preto, um político sem fatiota, um mecânico de terno, um mendigo sem trapos. Como é que se pede socorro num hospital sem diferenciar faxineiras de médicos? O jornal Zero Hora, em reportagem antiga, vestiu de gari personalidades conhecidas no estado. Ninguém foi reconhecido. Os transeuntes olhavam a roupa, não o rosto. O poder dos tiranos, não se esconde em seus cabelos - como Sansão -, mas em suas vestes. Qualquer pessoa nua torna-se frágil. - Que digam os torturadores. - Bush seria mais bem sucedido se, ao invés de gastar  milhões com a guerra, tivesse, por meio de um espião especialmente treinado, feito Sadam desfilar com um vestididinho de chita em aparição pública. E vice-versa.

         Aquela mulher ali, com as partes escancaradas aos raios UV-B, é uma juíza. Ao lado, um cirurgião famoso, lambe um sabugo em decúbito lateral. Se não fosse a gerente do hotel, eu não saberia ser deputado federal um senhor de sunga passeando com a mulher. Calção de banho igual ao meu, todas as manhãs, o diretor de uma importante empresa catarinense caminhava. Eu com dois, azul e verde, condenei-me ao usar o azul. Idiotice minha. Na praia, nem Clodovil se fixaria nessas bobagens.

         Obesos, gordinhos, magros, feios, bonitos, dentuços, desdentados, cabeludos, carecas, normais, quase-normais, deficientes, pobres, ricos, subalternos, dominantes, loucos, sensatos, leitores, escritores, crianças, idosos. Mulheres bonitas com homens feios, mulheres feias com homens bonitos, mulheres feias com homens piores, dois feios, dois bonitos.

A praia tem o poder de nos devolver ao paraíso. Todos muito iguais. Entre um homem e uma mulher quaisquer, há ínfimas diferenças. E quando tomam sol de costas, como me diz um amigo, las hay menos todavía. Quem manda e quem obedece, quem cria leis e quem as cumpre, os criminosos e os justos, os empresários e os empregados, os ricos e os pobres, sentam-se ou se deitam nas mesmas areias. Roupas de banho não são adequadas  à organização da sociedade em classes e funções. Por  isso, Maria, da surpreendente série da Globo Hoje é dia de Maria, buscava as franjas do mar. Acho.

 As franjas do mar sustentam a democracia e reequilibram um pouco o mundo. Estar pelado, ou quase, é retornar ao estado original, natural, essencial; é um modo discreto de renúncia a cargos e títulos. Todos se tornam iguais, ou, ao menos, muito parecidos. A brisa marinha enferruja arrogâncias e prepotências.

         Amanhã estarei trabalhando. Vestido. Agora, aqui, seminu, ensaio resistência. Rebeldia solitária. Desejo simbólico de prolongar as férias e suas muitas utopias.

         Fui ao banheiro agora e, ao me olhar no espelho, vi a enorme mentira da primeira frase. Um truquezinho de cronista para desconcertar o leitor. Eis a verdade:

 Além dos chinelos e do relógio, estou de óculos. 

Pablo Morenno



Escrito por Pablo Morenno às 22h23
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Fim de férias

Terminaram-se as férias. Ou eu as terminei. Ou elas foram acabadas. Bom, quem fez o quê aqui não importa. Certo é que estou de volta ao cotidiano. Estive em Capão da Canoa e curti pra caramba a chuva. Vejam que uma praia com chuva é excelente. A gente fica em casa, dorme, come, parece aqueles frangos de confinamento. O lado bom é que coloquei minhas leituras em dia, mas até para mim, ler quinze dias é tedioso. Desculpem se eu não devia dizer que leitura demais também entedia. Mas eu estou sendo sincero como o personagem novo do Luiz Fernando. Como os livros eram excelentes, o tédio foi menor. Outra hora comento os livros.

Outra coisa boa foi poder conviver um pouco mais com minha afilhada Marina. Com Marina por perto nem a chuva agüentava muito tempo. Jogamos dominó, baralho, andamos de bicicleta, caminhamos, fizemos ginástica e até inventamos uma música. Voltei muito mais morenno e com três quilos a menos. Como a chuva não permitiu fotos bonitas do mar, posto essa da viagem de ida. È a vista que se tem do Belvedere de Guaporé-RS. Vales, pequenas propriedades e parte da serra. Obrigado a todos os visitantes em minha ausência. Ao trabalho.

 

 



Escrito por Pablo Morenno às 22h16
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Fotos 2

FLOR NO MATO. Caminhando com a Dani nos caminhos ao redor do Lago Negro, encontrei esta flor. Frágil e profundamente bela.

CANELA - Rua central com decoração natalina.

GRAMADO - iluminação natalina.

ANO NOVO EM CANELA - Fogos de artifício.

 



Escrito por Pablo Morenno às 17h23
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Fotos

Amanhã estarei saindo de férias por duas semanas. Deixo algumas fotos  de minha ida a Gramado. Em breve voltarei com atualizações diárias e responderei aos comentários.

FAMOSO PANELÃO EM GRAMADO - a água abriu um buraco na rocha e aflora a dois ou três metros depois.

PANELÃO visto do outro lado. O copo, que encontrei no local, o coloquei na beira para lembrar alguém que não estava lá e que adora correr riscos. LAGO NEGRO DE GRAMADO E HORTÊNSIAS



Escrito por Pablo Morenno às 17h20
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verão

BENEFÍCIOS DA CAMINHADA

 

Sobre a caminhada diz-se que: é uma atividade física simples de ser executada, requer poucos equipamentos; pode ser individual ou coletiva; se bem executada, produz os mesmos benefícios da corrida, do ciclismo e da natação; por conferir proteção ao sistema cardiovascular, músculo-ligamentar e ósteo-articular é considerada a prática mais segura de exercícios aeróbicos. Além destas vantagens, quem caminha com intenção de melhorar o condicionamento físico e a capacidade cardiorrespiratória não deve fazer interrupções, dizem os professores de educação física.

 Ao caminhar na praia, como sempre, segui todos os conselhos. Escolhi o final de tarde, coloquei uma roupa leve, tomei um suco antes e fiz alongamento. Mas tive que interromper o ritmo. Fiz uma parada de uns quinze minutos em uma de minhas caminhadas e preciso explicar o motivo para evitar repreensão de meus amigos professores de educação física.

         Em grego, para se falar do amor, há pelo menos três palavras: eros, philos e ágape. Eros é o amor dos amantes, aquela atração sensual, sexual e vital. Philos é o amor do gostar, da afinidade - filosofia, por exemplo, etimologicamente, amor-pelo-saber. O ágape, traduzido como caridade para o latim, é o amor humano mais essencial. É aquele impulso que nos faz ajudar a um desconhecido, a dar pão a quem tem fome, a demonstrar carinho por um necessitado. Pode ser traduzido como solidariedade, compaixão. Para expressar o ágape não é preciso querer fazer sexo, nem gostar do sujeito.

         Qualquer leitor atento, nesse instante, perturba-se com a aparente desconexão entre o primeiro e o segundo parágrafo. Falava de caminhada e, sem mais nem menos, venho com uma erudição desnecessária. Meter os gregos em qualquer assunto é um recurso para falta de imaginação.

         Acontece, como já dito, preciso esclarecer aos professores de educação física porque não consegui manter intermitente minha caminhada. Enquanto seguia a passos firmes ao som do mar, ouvi uma voz de um senhor idoso pedindo ajuda. Este senhor, de quem nem soube o nome, interrompeu minha caminhada vespertina para que eu o ajudasse a retirar um anzol do dedo anular do pé direito. Não sei se o pé tem os tais de minguinho, anular, médio, etc, mas assim fica mais fácil de explicar em qual dedo o anzol se alojara. O senhor idoso é um desses homens amadurecidos que, por culpa do preço do Viagra, ocupam o tempo de praia para pescarias a caniço.   

         Por razão inexplicável, sei lá se compaixão ou caridade – aqui o leitor entende por que chamei os gregos – detive o passo para ajudá-lo. Como ele queria continuar pescando, também desobedeci ao conselho de meter o anzol para dentro até fazer a volta completa. Ora, essa técnica necessita de um alicate e inutiliza o anzol. Por essas razões, arranquei o instrumento como se o dedo fosse a boca de um peixe dilacerada.

         Ao prosseguir, olhando para trás, vi o velhinho feliz continuando a pescaria. Naquela tarde, além de desobedecer aos professores de educação física, entendi o que é ágape.

         Acho que essa crônica não nada tem a ver com caminhada, nem com palavras gregas.  É apenas uma crítica ao preço do Viagra que, se fosse mais barato, o senhor idoso não estaria pescando e eu escreveria sobre o importante fato de Passo Fundo ser declarada oficialmente Capital Nacional da Literatura. Mas, no fim das contas, espero que um dia, se eu estiver na mesma situação daquele pescador, alguém desobedeça a alguma regra para me prestar um auxílio.

         Ainda não foram descobertos todos os benefícios da caminhada.

Pablo Morenno



Escrito por Pablo Morenno às 23h35
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De volta

Por uma semana, estou de volta a Passo Fundo. Depois viajarei mais uns quinze dias. Logo postarei as fotos e os comentários da viagem. Não foi nada deslumbrante, mas o suficiente para se descansar.

COMO SE FAZ UMA MULHER

 

A mulher só se torna mulher sob o olhar do homem;

 o homem só se torna homem sob o olhar da mulher.”

 Simone de Beauvoir

 

         Foi muito sem querer, na festinha de aniversário de sua filha. Observando os presentes, minha amiga se deu conta de como uma mulher é feita. No aniversário de seu menino, outros presentes: jogos lógicos, carrinhos, livros.  Sua filha recebeu bichinhos, bonecas, vestidos, estojos de maquiagem. Mulher é uma instituição histórica. Tal como a conhecemos, é muito mais costela da cultura que da natureza.

         Ao menino jogos,  carrinhos, livros. Quem fez de tais coisas objetos de varão? A cultura. Um quarto azul para ele, um rosa para ela. Jogos para o cérebro. Carrinhos de tecnologia. Livros para os saberes. Aliás, salvo os culinários, é mister manter as mulheres longe dos segredos. Na maçonaria, por exemplo. Ou na Igreja Católica, onde podem servir, rezar, limpar, bordar a estola e  quarar o manutérgio. Tudo, menos participar da hierarquia. Para justificar essa declarada preferência de Deus pelo sexo masculino, a teologia produziu os mais estrambóticos silogismos.

         Minha amiga observa os presentes de sua filha. Ela precisa ser meiga, doce, bonita. Essa é a idéia de menina que os convidados à festa reafirmam. A filha de minha amiga, mesmo sem saber de feminino e masculino, vai aprendendo a conformar-se – isto é adquirir a forma da fôrma – ao mundo pronto. Bonecas. Claro, maternidade. E, se por um descuido da natureza, ela não puder fazer-se mãe, terá de administrar a frustração imposta por si mesma, e pelo meio. Milhares de anos depois de Sara, não ter filhos ainda é um castigo divino. Um castigo não expresso, mas dolorosamente tácito e ácido, implícito e lícito. Ai das estéreis!

         Mulheres bem sucedidas tornam-se devoradoras de homens ou fagocitam o masculino. Para vencer os machos, as armas de varões. Se muito femininas, perdem credibilidade e o cargo. Os homens usam ternos para serem respeitados, as mulheres terninhos. Prostituta ou santa. Sob o homem ou acima dele. Lado a lado não?

         O mundo público é assaz masculino. É o mundo da razão, da lei, da guerra, da objetividade. Às mulheres o confinamento dos espaços privados. É preciso controle, e não apenas  da fêmea como indivíduo da raça. Características femininas como a solidariedade e a amorosidade foram banidas  da hierarquia e da lógica públicas. Destruição do meio ambiente, guerras, racionalidade muita, ternura pouca. É o império patriarcal.

         Uma mulher não se faz sob jugo e desterro. Uma mulher se faz deixando-a bordar todos os tecidos sociais.  Uma mulher se faz permitindo-a cozinhar tenra e ternamente  política e ciência. Jamais haverá rosto humano sem a face feminina.

Mulheres,  que dão à luz, amamentam e, ainda, educam meninos e meninas, mais do que ninguém, sabem: pequenos gestos podem estar grávidos de grandes mudanças.  E, se o sonho de um mundo diferente para seus filhos tornar-se causa de insônia, podem começar a pensá-lo na próxima festinha de aniversário. 

 

Pablo Morenno

 

 

 



Escrito por Pablo Morenno às 16h05
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