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PABLO MORENNO
 

De férias

Aproveito o recesso na Justiça do Trabalho, até dia 09/01/06, para tirar uns dias de férias. 30/12, 31/12/05 e 01/01/06, estaremos, Dani e eu, em Gramado. De 02/01 a 05/01, estaremos em Capão da Canoa tomando sol. Portanto, não estranhem minha ausência aqui. Se puder, postarei alguns comentários em Cyber Cafés. Mas não garanto. Feliz Ano Novo a todos meus amigos e leitores.

DESEJO MEUS DESEJOS

 

 

 

Tenho pensado em meus desejos para um Ano Próspero. Queria algo novo, original. É preciso desejar ter desejos. E mais, que nossos desejos e escolhas realmente sejam nossos, algo difícil num mundo globalizado.

            Quero uma paz diferente, irrestrita, incondicional, isenta de negociatas e chantagens. Minha paz tem uma alvura além das pombas pintadas de aurora. A paz dos recém-nascidos me serve, por exemplo. A paz do orvalho, também aceito. Quem sabe a paz dos presépios e das pétalas. Não me interessa a paz da ONU, ou a acordada entre árabes e judeus. Definitivamente, não me serve a paz sustentada pelo medo.

            Quanto ao amor, quero-o singelo. Nada do amor das novelas ou o desesperado dos filmes. Que continue o amor despojado da mulher amada, seu café batido quando acordo, seu olhar cuidadoso para a combinação das meias, sua ternura e silêncio quando estou preocupado, sua respeitosa distância quando me calo. Desejo prosseguir sorvendo seu amor/confiança, e seu amor/paciência. Desejo um ano inteiro do amor feito na cama e nas ruas. Importantíssimo é o amor administrado na economia dos desejos, quando o orçamento não alcança os sonhos nascidos.

            Se eu desejar alegria, nunca jamais será a dos ébrios. Será a da corruíra fazendo seu ninho no limiar da primavera. É alegria de coisas pequenas, a pena para o ninho, por exemplo. Não há ninho que mereça esse nome se não tiver uma pena. Ajeitar penas no ninho é um modo lírico de sublimá-las. Se eu desejar a alegria, não será a dos bobos da corte, a dos programas de humor, nem a do ridículo dos outros. A alegria que desejo não é a da gargalhada, mas a do sorriso; não é a da festa, mas a da ceia. Minha alegria é a do ancião, alegria destelhada. Nada pode ser perdido quando os bens acumulados estão onde a chuva não chega. Deixo a chuva cair sem medo sobre a minha alegria.

            E a felicidade? Difícil descrevê-la quando o paradigma é o exposto nos intervalos de programas de TV. Todo mundo abarrotado de coisas sempre inventadas novas e diferentes. Um automóvel com um design futurista, um celular com função inédita, um móvel alienígena, uma roupa com tecido mais suave. Minha felicidade tem a ver com a das mães que reencontram um filho há anos roubado, com a do filho beijando a mãe desconhecida, com a dos parentes recebendo na varanda um familiar seqüestrado, com a de alguém vivo depois de um acidente, como a de quem desperta de um longo coma. Essa felicidade pode ser fabricada e está acessível a todos. Mãe, podes imaginar o reencontro com o filho! Filho, beija tua mãe como se o beijo fosse o primeiro, abraça teu irmão ou teu pai como se resgatados de um seqüestro! Abre os olhos e redescobre a vida como se ela tivesse seus créditos renovados agora. Se fizermos isto, vamos lavar a felicidade e a teremos limpa, como quando Deus nos a deu.

            Tenho muitos outros desejos próprios, imensos demais para o papel. Prefiro poupar árvores. Aliás, pensando em árvores, desejo uma natureza cuidada com o zelo dos amantes.

Por fim, desejo uma espiritualidade vertendo da vida e correndo para além das terras da religião.

Cada um com seu desejo novo, desejemos juntos. Vontades comungadas tornam prósperos os anos e melhor o mundo.

Pablo Morenno



Escrito por Pablo Morenno às 20h14
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Velho Ano Novo

VELHO ANO NOVO

 

         Em todos os finais de ano, o velho ritual. O champanhe – continuo chamando assim porque ninguém me manda dar nome às coisas – está posto ao gelo, escolhemos as roupas brancas nos editoriais das revistas de moda, compramos fogos clandestinos e listamos como compras os pensamentos positivos. Nada poderá ser esquecido.

         Esta semana, átrio do ano nascituro,  é a verdadeira Semana Santa e não aquela antecedente à Páscoa. Requeiro, para evitar confusão, seja chamada “Semana dos Santos”. Outra não há com melhor estado de graça. É que todo mundo, antes do Natal, surpreendentemente, faz-se bom cristão. Num zás, o coração amolece. Deixamos de usar as roupas velhas como pano de chão e as doamos para os pobres. E os brinquedos, que enchiam as lixeiras dos prédios, seguiram às instituições de caridade. Empresas, que demitem funcionários por faltarem ao serviço por doença de filho,  homenagearam seus “colaboradores” com cestas e festas. Médicos, que cobram “por fora”, deram uma lata de figos para a empregada doméstica. Advogados, que cobram 50 a 60% de honorários, doaram o terno ultrapassado ao porteiro do prédio... Enfim, cada um a seu modo, tornou-se justo e santo no Natal. Tudo por culpa do Ano Novo. Na dúvida da existência de Deus, um agrado ao pretenso Todo-poderoso garantirá bênçãos futuras.

         Ledo engano. O Ano Novo não virá. Tudo é velho. E, com coisas velhas e rançosas, mal teremos um ano reciclado. A uva do champanhe foi colhida de enrugadas cepas. O linho das roupas foi plantado e tecido ao sol ancião. Até a pólvora foi misturada nos tempos idos. Novos, realmente, deveriam ser nossos sonhos. Mas,  eles, por falta de raízes no foi-se, sucumbirão esturricados ao primeiro sol de janeiro. Sonhos são frutos no hoje de uma árvore ontem plantada. Plantou-se?

         Se você não economizou em 2005, suas férias serão horríveis. Se você não estudou em 2005, não conseguirá passar no vestibular em 2006. Se você não demonstrou amor em 2005, não casará em  2006. Se você não se convenceu do mal do cigarro em 2005, não irá deixar de fumar em 2006. Se você não se deu conta da obesidade em 2005, não fará exercícios em 2006. A beligerância armada, mente o aforismo, nunca adubará a paz.  

Lamento. O Ano Novo, infelizmente, é a única fábula infantil mantida pelos adultos. Papai Noel e Coelhinho da Páscoa seriam menos danosos ao mundo.  Esqueçamos os sonhos novos. Se não foram preparados no ano velho, terão poucas chances de realidade. Tenhamos, no Ano Novo,  um único desejo com possibilidade de sucesso: preparar em 2006 um ano realmente novo para 2007.

A safra de dias do Ano Novo é de antigo cultivo. Deus, se existir, não se ludibria com ocos santos de árvores de Natal.  Sazonal e bom coração natalino nada garante. Esqueçamos! Para um Ano Novo Feliz será preciso um ou muitos anos velhos de preparação. A vida - e suas outras tantas coisas acessórias - não se constitui no improviso de uma virada de ano.  Mas já que preparamos tudo ao velho modo do ano passado, à festa.  E, Feliz Ano Novo!

 

Pablo Morenno 

          



Escrito por Pablo Morenno às 21h07
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MInha mãe faleceu no domingo, às 21h45min. Esteve lúcida até quase meia tarde, recebeu as visitas de suas irmãs Rosa e Vergília - eu nem as conhecia, e como sempre disse para que fossem descansar em casa da viagem, pois ela estava bem. Recebeu a comunhão, fechou os olhos e não mais abriu. No ataúde impunha seu semblante calmo e um meio sorriso. Morreu alegre, como viveu. Deixou para todos alegria, disposição, otimimismo e uma franqueza de doer. Minha mãe não fazia rodeios para dizer as coisas, fosse para quem fosse. Para ela todos eram de casa, fosse um antigo vizinho, fosse alguém que acabara de conhecer. Nunca se preocupou com o que pensavam dela, vestia-se como se sentisse bem e não nos deixou de herança a capacidade de ganhar dinheiro. Sua arma era a palavra falada, já que analfabeta. Fazia remédios, tinha uma espiritualidade sem preconceito - ia do centro espírita a curandores e benzedores -  e arranjava casamentos para viúvos e solteironas.

Acolhia em sua casa a todos. Como morava na sede do município, tinha sua casa aberta para todo mundo do interior. Se alguém perdesse o ônibus, ou chegasse muito tarde, na casa de Dona Eva encontraria pouso até o dia seguinte. Minha mãe deixa o mundo para morar nas minhas recordações de infância com seu vestido de flores. Tomou o barco para o outro lado.  Não deixou inimigos nem bens a inventariar.

 



Escrito por Pablo Morenno às 22h19
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Ano Novo

NÓS E A TERRA, AINDA...

 

 

         Se você nunca fez promessas para o Ano Novo, ou fez e as cumpriu, deve ser um dos alienígenas que, segundo supostos "profetas", estariam entre os humanos nesta era. O vestíbulo de cada ano vindouro é repleto de promessas: fazer exercícios, começar uma dieta, escrever um livro, plantar uma árvore, ter um filho, não fazer novas contas e quitar as antigas, reconciliar-se com um vizinho, ter mais tempo para a amizade e o amor. Sem pensar nas esperanças que fogem de nossas mãos: a paz do mundo, a baixa dos combustíveis, o fim da miséria, a proteção de animais em extinção, a cura da AIDS e do câncer.

         Se você nunca consultou um baralho cigano, oráculos e horóscopo, está entre aqueles sujeitos com um bom senso extraordinário e pode considerar-se um raro exemplar de homo sapiens imune ao vírus da leve insensatez. Parece que, em algum cromossoma recôndito, temos um anseio indominável pelo senhorio do futuro, por determos as rédeas dos tempos vindouros, por querermos levar o porvir no fundo dos bolsos.

         No entanto, se você fez qualquer das coisas acima, não se desespere. Você é normal. E, ser normal, por enquanto, não está listado entre os sete pecados capitais.

         O paradoxo destes tempos de começo de século é que, sentados à nascente do milênio, deparamo-nos com a assustadora verdade que o mundo não acabou como esperado. Em não acabando o mundo, nossas responsabilidades se multiplicam. Estamos na situação ambígua daquele jovem que alcançou a autonomia da ansiada maioridade mas, também, deve responder por assuntos dos quais estava liberado anteriormente.

Temos de assumir tarefas exclusivamente nossas na construção da humanidade. Temos que renovar as promessas. Há que se cuidar da paz, principalmente. Assim, enquanto estouram os foguetes da passagem de ano, se processa dentro da gente uma revolução, pessoal e social, de consciência. O mundo que ganhamos como lar ainda está longe daquilo que Deus -  seja lá quem for -  pensou para os homens. Os homens estão muito distantes daquilo que eles mesmos merecem. Estamos gordos demais para passarmos pelo buraco da agulha. Será que encontraremos as saídas, divisaremos o caminho, nos espalharemos pelas cidades com a dignidade do sal, teremos luz para pôr sobre o candeeiro? Será que temos azeite suficiente em nossas lâmpadas? Estaremos maduros para caminhar sobre as águas sem afundarmos?

         Outro dilema é não estarmos no espaço intergaláctico ou habitando em mundos exóticos como se esperava. Se assim fosse, nosso grande objetivo seria destruir a gosma assassina. Teríamos, quem sabe, inventado uma arma para matar o monstro dos anéis de Saturno. Estaríamos nos defendendo das libélulas gigantes da beira dos buracos negros?

Contudo, as coisas estão longe da ficção e perto dos olhos. Há óleo nos mares, seres extintos e em extinção, cidades poluídas, buraco na camada de ozônio, crianças morrendo de inanição, guerras. Essa é a nossa nave!

         Que sentido terão nossas promessas para o Ano Novo? Seremos salvos pela energia dos cristais? Que cartas teríamos que jogar para que as boas notícias se concretizem? Como faremos para criar um mundo novo? Quem proclamará um oráculo confiável de paz?

         Festejar o Ano Novo é celebrar nossa grandeza e fragilidade. Por um lado, representa a "zeração" dos planos errados, por outro, o recomeço de projetos felizes. Nossas promessas não são mais que reinstalações do paraíso antes do pecado e pré-estréia do mítico Reino dos Céus. No Ano Novo há a catarse do início e do fim de todas as coisas. Nossos sonhos são a colonização que a felicidade, virtualmente, realiza nos vales onde correm o leite e o mel.

Entre sonhos e promessas, não se pode esquecer, o buraco negro não está nos confins do universo, mas aqui, sugando nosso destino nas decisões que individualmente ou como povos, tomamos todos os dias. A terra não corre risco de destruição por alienígenas, mas por autóctones. Será que os ETs não aparecerão para nos ensinar algumas coisinhas? Feliz Ano Novo, terráqueos!

 

Pablo Morenno



Escrito por Pablo Morenno às 15h14
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NATAL

POR CULPA DOS SAPATOS

 

           - O senhor me dá uma ovelhinha do presépio? – pediu o menino, ao padre,  entre lágrimas.

           Qualquer um que visse aquele garoto jamais imaginaria seu inusitado desejo. Ninguém está acostumado com sonhos de crianças. Não só porque as crianças de hoje não têm seus próprios sonhos. Também porque as achamos imaturas para sonharem direito.

           Todos ao redor do presépio pediam ao Menino Jesus que Papai Noel atendesse aos pedidos colocados nos sapatos. A mulher do prefeito queria um celular que enviasse imagens. Um empresário pedira uma Ferrari. O colunista social esperava um ano novo cheio de festas da sociedade para faturar bem e comprar uma bota de pele de cobra para sua mãe. A menina loira  queria o mais novo livro do Harry Potter.

           Enfim, Deus e Papai Noel andavam muito ocupados. Um com a reza dos homens, outro com os pedidos dos sapatos. Foi por isso, e não apenas por não saber escrever, que o menino não achou conveniente fazer um bilhete ao bom velhinho. Uma ovelha era tão pouco. Pedindo diretamente ao padre, pensava ele, o que manda na igreja, será fácil. No presépio, já tinha observado, havia umas seis. Uma a menos não faria falta.

           O padre ajeitou a estola. “Estes meninos têm cada idéia!” E se ele desse a ovelhinha? Como justificaria ao bispo? O presépio fora doado por uma beata, de família importante. Eram peças vindas da Itália, esculpidas em madeira por uma freira de Assis. Talvez o Bispo não gostasse. Voltar para aquela paróquia do fim do mundo? Melhor  não arriscar.

           Menino esperando. Silêncio esperando. Jesus esperando. O padre olhou para a mulher do prefeito que se aproximava. “Este menino ainda nem vota. Se votasse meu marido poderia comprar uma ovelhinha prá ele.” O empresário respeitável, ao ouvir o pedido, pensou em sugerir um requerimento ao governo que é quem deve cuidar destas coisas. O colunista alisava o cabelo e pensava “pedir uma ovelhinha é coisa muito brega”. Apenas a menina loira achou legal. Talvez seu pai pudesse comprar uma ovelhinha para o menino. E a saia da Xuxa? Melhor pedir para o papai o livro do Harry Potter e a saia da Xuxa.

           Jesus, entre os bichos, juntava as mãozinhas e dizia a seu pai: “Perdoa, não sabem o que fazem!”. Porque o padre não dava logo a ovelhinha? E desse também os bois e os burros, os reis magos e a estrela. O que era uma ovelhinha para Ele que já tinha dado a vida? Ninguém ao redor do presépio veria diferença nenhuma, como até hoje não viu.  Criança não se manifesta, recém-nascido muito menos. Se pudesse sair dentre as palhas, pegaria o chicote do burro e repetiria aquela cena do templo lá de Jerusalém. Estes homens de hoje estão precisando de profetas mais corajosos, pensava o pequeno entre as santas fraldas.

           - Filho, a ovelhinha é do Menino Jesus, disse o padre, depois do longo silêncio. Se eu tirá-la do presépio, Jesuzinho chora muito.

           - Tá. Desculpe! Não precisa não. Chorar não é nada bom, eu sei.

           O padre fechou a igreja e todos foram fechar-se em suas casas para a ceia do Natal.

            Debaixo da ponte, em seu berço de papéis, o menino sonhador acompanha a trajetória de uma estrela meio cadente, meio decadente. Ah, se tivesse uma ovelhinha como um filho de Deus! Se ao menos lhe tivessem emprestado aquela do presépio, teria os olhares dos anjos e dos homens sobre si. Sabia que, se fosse pelo Menino Jesus já teria o presépio todo aqui. Mas, como convencer as pessoas importantes que Ele não choraria com uma ovelhinha a menos? Quem sabe no ano que vem  consiga ir à escola, seu pai arranje emprego e lhe compre um sapato. Papai Noel só atende a pedidos escritos dentro de sapatos.

Pablo Morenno

 

 



Escrito por Pablo Morenno às 15h13
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Ainda Dona Eva

MInha mãe piora a cada dia. Acho que viajo amanhã para Santa Catarina para acompanhar seus últimos momentos. Meus irmãos de longe já estão lá. Seus filhos, devido à situação econômica, se esparramaram procurando melhores condições. Como não sei quantos dias ficarei ausente, deixo duas crônicas.Uma de Natal e outra de Ano Novo. Para o Natal eu gostaria de pedir que a morte não viesse com sofrimento. Morrer deveria ser assim como o apagamento das luzes no dia 06 de janeiro. Para o Ano Novo eu gostaria de sonhar com um 2006 com tantas alegrias como 2005 e com menos tristezas. Obrigado a todos os alunos, professores, escolas, prefeituras os quais me receberam e me prestigiram. Obrigado a todos aqueles que acessaram meu blog deixando mensagens de amizade e motivação nos momentos difíceis. Feliz Natal e Feliz Ano Novo!

Escrito por Pablo Morenno às 15h11
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Obrigado

Obrigado ao ìtalo, ao Juarez e à Lety que deixaram suas mensagens de conforto e amizade quanto à situação da Eva. Me esqueci de dizer que, além da literatura, a vida se torna mais suportável porque temos amigos solidários.



Escrito por Pablo Morenno às 23h17
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Natal

 É NATAL, POR ENQUANTO

Hoje não haverá batalhas, nem moinhos moendo.
Toda violência respeita o umbral de tuas portas.

Hoje não haverá pesadelos, nem sonhos interrompidos.

Os vôos serão altos e densos,
no fundo do mar se disfarça uma fogueira acendida.

Pombas de auroras descerão para abrir os olhos dos mortos.
Uma mesa de esperanças se estenderá nas praças,
nas ruas e bairros crianças já brincam de pássaros.

Hoje se desinventou a tristeza e a dor pariu a alegria.

Ainda é Natal,e se banham os gatos azuis.
Ainda é Natal, e a fogueira crepita no fundo do mar.
Ainda é Natal, enquanto as pombas bicarem os olhos dos mortos.
Enquanto a mesa se mantiver nas praças.
Enquanto as crianças brincarem de pássaros.

Apressemo-nos!
Ainda é começo.
Ainda não deram o ar de sua graça
os gatos azuis.

Ai dos desatentos!
Ai dos sonolentos!

A desinvenção da tristeza
e o parto da alegria,
sempre mais efêmeros
que a vida da paz.

Pablo Morenno 

 



Escrito por Pablo Morenno às 12h10
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EVA - AVE

Minha mãe não está nada bem. Pelo que sei da medicina, disse o médico que a operou, ela agüentará no máximo uns trinta dias. Por isso ela não está mais em Chapecó. Melhor ficar perto dos amigos e da família, no hospital de Descanso.

Um ano e meio outros médicos tratavam uma úlcera, e  não perceberam o câncer alastrando seus tentáculos pelo corpo de Dona Eva.

Este final de ano tem sido um pouco exigente com nossas emoções: perdemos nossos bebês, minha mãe está gravemente doente, o pai da Dani fiz uma angioplastia hoje e terá pela frente mais duas, a prima da Dani, 25a,  está com recaída na leucemia - ela já teve aos 14 anos  -  e o tio fez uma cirurgia para extirpar um tumor, está em radioterapia.

Gastam-se tantos milhões em guerra, a ciência é tão orgulhosa, mas algumas doenças continuam surpreendendo o conhecimento humano. Ainda bem que temos a Literatura, como disse HAROLD BLOON, a literatura é a melhor auto-ajuda que existe. A literatura mostra que a vida pode ser uma tragédia ou uma comédia. Como uma ou outra, seu sentido se esvai como vida mesma.

Maria Eva é forte já no nome. A primeira mulher, e a mulher escolhida para ser mãe do Filho de Deus. Eva é eva indo. Voltando é ave. Minha mãe saberá a hora de alçar seu vôo. 73 anos não são muitos, mas deixa dez filhos e seus descendentes. Se um Francisco de Assis fez tanto bem, e um Hitler fez tanto mal, com dez filhos se tem chances suficientes para fazer muita coisa no mundo. Eu, de minha parte, teria que dizer para Dona Eva que não sou nem um Francisco, nem um Adolf. Sou apenas um pequeno escritor tentando usar as palavras para refrescar a existência. E prometo, de minha parte, fazer de tudo para honrá-la em vida ou depois que alçar seu vôo.



Escrito por Pablo Morenno às 22h40
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BOA NOTÍCIA

Colhi no site VERDES TRIGOS, de meu amigo Henrique Chagas, e com o qual eu tenho a honra de colaborar a alegria da seguinte notícia:

"Ministro da Cultura anuncia prêmio de estímulo à leitura


Gilberto Gil anunciou nesta segunda-feira (12) em São Paulo a criação do Prêmio Vivaleitura como parte das comemorações de encerramento do Ano Ibero-americano da Leitura

Com o objetivo de dar continuidade à mobilização para aumentar os índices de leitura no Brasil, iniciada por ocasião das comemorações do Ano Ibero-americano da Leitura, o Vivaleitura, os ministérios da Cultura e da Educação, em parceria com a Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI), lançaram nesta segunda-feira o Prêmio Vivaleitura.

A premiação foi anunciada pelo ministro Gilberto Gil durante uma oficina realizada pelo Comitê Executivo do Vivaleitura – que reuniu no Senac Santo Amaro, em São Paulo, entidades privadas, do terceiro setor e órgãos de governo para discutir cerca de 100 projetos e programas do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), cuja primeira edição vai vigorar no triênio 2006/2008.

O Prêmio Vivaleitura reconhecerá as experiências de fomento à leitura e à formação educacional implementadas por bibliotecas, escolas, órgãos públicos, ONGs e comunidade em geral. A premiação, que será concedida anualmente a partir de 2006, está assegurada por pelo menos 10 anos, prorrogáveis por mais 10.

Segundo Galeno Amorim, presidente do Conselho Diretivo do Vivaleitura e responsável pela elaboração do PNLL, o prêmio vai ajudar a identificar, reconhecer e valorizar as ações de fomento à leitura no País. “Este é um importante passo para converter as ações de fomento à leitura existentes no País em uma política de Estado”, afirma Amorim. "
 
Coisas assim é que poderão salvar o governo Lula da bacarrota!


Escrito por Pablo Morenno às 22h49
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Belmonte

Liguei para o hospital. Minha mãe resistiu à cirurgia e está bem. Ainda há um risco grande, ela está debilitada e a cirurgia foi complexa. Dona Eva é resistente, renascerá, eu acho, eu acredito, embora os médicos nos advertiram de todos os riscos.

No sábado, estive em Belmonte no encontro de idosos do final do ano. Promovido pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais em parceria com a Prefeitura Municipal. Mauri Scaranti, é o jovem prefeito, foi meu colega de aula por alguns anos. João Lima é o presidente do Sindicato. Agradeço aos dois que me deram a alegria de, por primeira vez, palestrar na cidade onde nasci. E a primeira vez a gente nunca esquece.

Reencontrei velhos amigos e amigos velhos. Eles lembravam de mim menino, correndo pelas ruas de barro de Belmonte, caçando preás nos banhados. Eu esqueci muitos de seus nomes. Não os esqueci, porém. Daquela gente simples levo este meu jeito de ser descomplicado e direto. Só senti falta de minha mãe, ela disse que estaria lá. No domingo quando a visitei no hospital, ela queria saber todos os detalhes e, sobretudo, se haviam separado o seu brinde de final de ano.

Depois de 18 anos, nesta viagem, revi meu irmão mais velho, José Darci, o primeiro dos Josés. Anda de cabelo branquinho. Bom, tá tão envelhecido que a enfermeira lá do hospital, quando liguei hoje à noite me disse: A tua mãe está bem, já está no quarto com teu pai que está cuidando dela! Darci já tinha cabelos brancos aos trinta. A enfermeira devia ser meio ceguinha ou muito velhinha também!

O Mauro Barella, comunicador e assessor na área de comunicação do município,  tirou as fotos e, coisa que quase ninguém faz, realmente mandou-as para meu e-mail.

Todas as fotos abaixo são de Mauro Barella.

 Público presente. Alguns mais maduros, outros amadurecendo.

Às vezes eu acho que sou Roberto Carlos. Talvez, se eu tirasse a barba...

Acho que eu estou dizendo: A saída da Igreja é ali, não vou ficar triste se vocês acharem a palestra meio chata! Já era quase meio dia, os velhinhos tiveram a missa às 9h, e estavam ali. Os bancos não eram nada anatômicos e, depois de uma certa idade, eu mesmo sei, começam as dores na espinhela.

 



Escrito por Pablo Morenno às 22h29
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Final de Ano

O final do ano está engasgado. Minha mãe está doente, meu sogro, uma prima e um tio da Daniela. Coisas da finitude da vida.

Ontem me convidaram para cantar a ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO no encerramento das atividades do Colégio Menino Jesus em Passo Fundo. O tema era a PAZ. As crianças arrasaram. Pena que não levei minha máquina fotográfica.

Amanhã viajo para Belmonte, minha cidade natal em SC. Vou fazer uma palestra num encontro de idosos que será no sábado. O tema é bem proposital: PERDAS.

Estou feliz também porque reencontrarei meu irmão mais velho. São 18 anos que não nos vemos. Ele foi morar no Mato Grosso e nunca conseguimos nos encontrar. No sábado à noite, ou domingo, ainda não sei como me organizarei, visitarei minha mãe no hospital de Chapecó-SC.

"VIVER, E NÃO TER A VERGONHA DE SER FELIZ. E CANTAR, NA CERTEZA DE SER UM ETERNO APRENDIZ. EU SEI QUE A VIDA PODIA SER BEM MELHOR E SERÁ. MAS ISSO NÃO IMPEDE QUE EU REPITA: É BONITA, É BONITA E É BONITA!!"

Eu sempre canto esta música na abertura de minhas palestras. Preciso levar Gonzaguinha a sério. A música serve para mim nesse final de feriado em Passo Fundo.



Escrito por Pablo Morenno às 22h52
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Praça

UMA PRAÇA EM PRETO E BRANCO

 

         Na parede dos fundos da casa da infância escrevi a carvão minhas primeiras garatujas. Lá estavam as sementes de muitas crônicas.

         Num pé de umbu grafei com um canivete um nome e o meu. Na pele da árvore brotavam as seivas de meus poemas e amores.

         Classes e paredes nos colégios se vestem de riscos e marcas de crianças e jovens. Nas praças, construções e monumentos das cidades, estigmas de todo tipo disputam espaços.  Desenhos, declarações de amor, nomes próprios e “nomes feios”, protestos, palavras de ordem, chicletes usados, ideologias. Os pássaros não estão sozinhos em sua rebeldia contra os monumentos urbanos.

         Eu sei de bichos marcando território com produções pessoais. Para os cães na cidade, postes. Da psicologia juvenil entendo pouco. Mas olho estas marcas e me vejo com um carvão na mão riscando a casa. E quando meu pai se distrai depois de preparar seu palheiro, lá estou roubando o canivete e correndo àquele tronco de umbu. O tempo é chuva veraneando, é preciso deixar a vida agarrada à madeira e à pedra para a próxima estação.

         As casas da cidade são finas demais, é proibido escrever na parede do pátio. Há poucas árvores entre o concreto, sua preservação é quase neurótica. Que ninguém ouse tocar o carvão ou canivete. Carvão só para churrasco, canivete só em assaltos.

         Quero uma praça em preto em branco. Estou dizendo ao prefeito, aos vereadores, aos urbanistas e aos arquitetos. Quero uma praça em preto e branco para a expressão libertada de nossas raivas e anseios, de nossos desejos e frustrações, de nossos amores e nossos nomes.

         A praça que proponho não precisa ter árvores e nem monumentos. Apenas figuras abstratas – para que cada um possa criar seus personagens – e em preto e branco – para que possamos escrever em branco no preto e em preto no branco, a cores no preto e a cores no branco.

Quero uma praça em preto e branco para as crianças riscarem seus sonhos e suas primeiras letras, para os adolescentes e jovens desenharem os órgãos sexuais e declarações de amor, para os adultos expressarem seus medos da velhice, para os amadurecidos xingarem o governo e os filhos ingratos.

A praça em preto e branco terá também microfones e alto-falantes para quem quiser fazer passeata, cantar canções de protesto, reclamar do mundo, fazer orações, declamar poesias e declarar amores, rezar pela chuva e procurar a mulher ou o homem de sua vida. Qualquer forma de expressão não violenta será bem-vinda.

Tenho esperança. Na praça em preto e branco surgirão poetas, pintores, escritores, músicos, arquitetos, escultores... Não sei se ela ajudará no cuidado com as paredes dos colégios ou findará as pichações em monumentos. Eu vejo as cidades sem espaços de liberdade. Eu vejo uma praça em preto e branco como uma idéia que pode dar certo, um espaço popular da vida fervilhando em múltiplas linguagens.

Se alguém quiser pôr em prática minha sugestão, me procure. No fim de ano trouxe da casa de minha mãe um pedaço de carvão, tenho coisas da infância nunca expressadas. Quero uma parede de troncos de umbu para grafar símbolos tímidos acocorados em prateleiras de mim. Meu pai faleceu – por causa do cigarro – mas seu canivete está aqui num porta-canetas.

Uma praça em preto e branco, eis meu pedido. Quero estar entre os primeiros a inaugurá-la!

 

Pablo Morenno



Escrito por Pablo Morenno às 21h03
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André

 

 

ANDRÉ, PRETO E BRANCO E A CORES

 

 

Eu nunca tinha visto o André antes de sua aparição no jornal O Nacional. André numa foto colorida, manchete de capa, dia 20/11/2005. O menino estava sentado numa caixa de papelão de margarina Cremosa. A caixa circundava-se de sacos de lixo das ruas e o olhar do menino parece recolher alguma esperança num lugar do horizonte. Imagino a esperança lhe ofuscando.Eu sei da esperança porque esse jeito de apertar os olhos só aparece quando a gente olha para uma luz muito forte. 

A segunda vez que eu vi André foi no mesmo dia e mesmo jornal, página 10. Mesma foto, agora sem recortes, mas em preto e branco. Eu sei que a foto é a mesma porque o olhar de André é o mesmo, os sacos de lixo são os mesmos e as mãos de André, embora eu não tenho falado delas, parecem juntadas como quem reza. Vejo uma casa de madeira e uma mulher de quem André deve ter herdado o olhar. Vejo que a caixa de margarina é grande e que André é muito pequeno. Descubro que André não tem exigências para o Natal. Não quer celular, nem um I-Pod, nem uma camiseta da Cavalera, nem mesmo uma bola de futebol como gostam de pedir as crianças das vilas. André aceita “qualquer coisa” como presente, ele é quem diz. Qualquer coisa.

A terceira vez que eu vi André foi na página 04 de O Nacional em foto a cores. É dia primeiro de dezembro e a cidade já respira um ar natalino. “Comovidos com a história do menino, diversos leitores entraram em contato com o jornal para proporcionar a André e a sua família um Natal diferente. Além de brinquedos, roupas e alimentos que serão doados à família, André foi apadrinhado por uma família de Viamão...” O olhar do menino não está mais perdido, a esperança está perto.

Não sabíamos do André.  A foto colorida do jornal é um anúncio de que agora as pessoas se deram conta. André existe. E André também se deu conta que aquela luminosidade que lhe ofuscava no horizonte também existe.

Olhos olharam o André e, embora por momentos, coloriram sua vida. Compreendo, portanto, que a vida em preto e branco do André só tinha uma causa: a ignorância de sua existência.

Na primeira vez que eu vi André, ele foi manchete de capa e apareceu em foto colorida. Na segunda vez que eu vi André ele estava em preto e branco e tinha um olhar ofuscado e perdido. Na terceira vez que André me apareceu estava iluminado e colorido. Mas eu já estou satisfeito. Chega de André no jornal.

Há constelações de Andrés esperando ser vistos. E amanhã, depois de amanhã, na semana que vem, o jornal vai apontar em preto e branco e a cores uma criança necessitada ou em situação de indignidade. Pode ser um João, um Pedro, um Francisco... Sempre haverá pobres entre vocês, disse um tal de Jesus. Disso pode deduzir-se que não adianta fazer nada. Ou, que somos egoístas demais para resolvermos o problema da pobreza no mundo. Eu prefiro a segunda interpretação.

Eu quero crianças em colorido não apenas nos jornais. Cada cidadão, cada empresa, pode fazer sua parte. Não há nenhuma exigência, pode ser “qualquer coisa”, o André mesmo que disse.  Mas tem que ser algo bem colorido, e perdurável para além do Natal.

Pablo Morenno



Escrito por Pablo Morenno às 22h26
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Todas as Cores

Com o tema “Todas as Cores” a professora Roselma da Escola Alberto Pasqualini encerrou o ano premiando as histórias dos alunos. Somos todos diferentes, mas não inferiores. Os alunos discutiram a importância de se respeitar a diversidade em todos seus sentidos.  Roselma coordena com um grupo de alunas A HORA DO CONTO. No final do ano, quem conta uma história são os alunos. E olha que as histórias são pra lá de criativas: Uma vassoura rejeitada, galinhas que enfrentam os bichos, bruxas, fadas,  e até um personagem chamado Pablo. A festa de encerramento foi feita com toda a simplicidade para uma escola estadual. Fitas coloridas, a história de um rei que reuniu as cores do reino. Com imaginação tudo fica excelente. Fiquei honrado em participar e poder entregar as medalhas aos alunos vencedores.

 Aí estavam os grupos de todas as cores esperando o Rei chamá-las para alegrar o reino. Cada cor trouxe ao reino algo: o branco a paz, o vermelho o amor, o verde a esperança, o amarelo a alegria...

O grupo de alunos escritores das melhores histórias, a professora Roselma à frende e de azul, e eu.



Escrito por Pablo Morenno às 21h11
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