| |
YOU ARE NOT ALONE...
A MORTE DE PETER PAN Conforme diziam os jornais, o corpo de Michael Jackson deveria ter sido levado na última quinta-feira para Neverland. Deveria ter sido, eu falei, porque este post é feito na noite de terça. Portanto, não tenho certeza se realmente o previsto acontecerá. O que eu sei, de certeza, é que a televisão e os jornais contaram uma mentira. Não me refiro ao velório de Michael na Terra-do-Nunca. Também não é a mentira a que me refiro, o fato de Peter-Pan ter morrido, e não era assim a história. A mentira é outra, muito pior. De acordo com informações da rede de TV norte-americana CNN, o funeral de Michael Jackson, reservado apenas aos famíliares e amigos do cantor, acontecerá no próximo domingo. Esta notícia está estampada na Folha de São Paulo e a mentira está aí, sub-repticiamente. Michael morreu com milhares de fãs. A sua estrela da fama em Hollywood e outros tantos lugares viraram uma repentina Meca. Fãs se escabelaram, choraram, levaram flores, lamentaram a morte de um indiscutível talento. Michael se empanturrou de remédios, como já se sabe, e não havia amigos para lhe dizer “páre aí mano, deixa disso”, nem familiares para lhe dizer “filho, quem sabe o caminho melhor não seja por aí”. Michael Jackson agonizava enquanto em algum lugar do mundo alguém ouvia “you are not alone”. Fãs, com se sabe, não é difícil arrumar. Basta ter um pouco de fama e já aparecem interessados. Michel tinha fãs no mundo todo, mas no momento de sua morte estava só. James Matthew Barrie inventou Peter Pan quando contava histórias aos filhos da sua amiga Sylvia Llewelyn Davies. Contar histórias para crianças ajuda na adaptação às crueldades do mundo adulto. O pai de Michael Jackson, pelo que se sabe, nunca foi de contar histórias para os filhos. Melhor tirar proveito deles. Por isso, nem bem esfriava o corpo do mais famoso, anunciou sua gravadora. Sétimo filho de uma família com nove irmãos, mais pai e mãe, Michael marchou a passos apressados para a própria ruína. E não havia ninguém a seu lado para dizer que aquela estrada levava à morte. Michael Jackson morreu na solidão pensando ser Peter Pan. Fora essa mentira que ele contava a si próprio, a imprensa inventou uma outra quanto a seu funeral deste domingo: Michael não tem amigos nem familiares. Ao menos dos verdadeiros. Michael tem apenas fãs. E estes, na segunda-feira depois do enterro, partirão para a busca de outro ídolo imortal. Pablo Morenno
Escrito por Pablo Morenno às 22h22
[]
[envie esta mensagem]
Blog
Hoje de tarde saímos, Dani e eu, para comprarmos floreiras para a janela da cozinha. Nem sempre as floriculturas estão abertas em domingos, mas tem uma na saída de Passo Fundo para Soledade que estava hoje. Estávamos lá quando apareceu a professora Maria Isabel que está fazendo um trabalho sobre meu livro no Colégio Tiradentes. Essa professora é extremamente criativa e já tinha trabalhado meu livro no colégio Fagundes dos Reis. Ficamos papeando na floricultura, falando inclusive de uma crônica que escrevi faz pouco, de uma flor que nasce inesperadamente. Fico feliz quando acontece de poder falar de literatura, meus textos, a vida, etc. Afinal, tudo é tão efêmero. E falar de literatura numa floricultura não tem melhor lugar. Outro acontecimento inesperado foi encontrar um blog sobre meu livro. E eu nem sabia que existia. O endereço é http://www.janelasdevidro.blogger.com.br/. Eu estava procurando uma crônica minha que perdi e, sem querer, achei esse blog de uma aluna lá de Santa Cruz do Sul. Fiquei muito feliz, ganhei o domingo. Nâo sabia que tinha leitores tão dedicados. Ela assina Cary Immig. Gostei ainda mais do videozinho que ela fez da crônica SOBRE CACOS DE VIDRO. São esses dois acontecimentos que queria compartir com meus leitores. Enquanto meu livro FLOR DE GUERNICA encontra-se no prelo, foram dois motivos para que eu continue escrevendo literatura. Um bom domingo. Ah, a crônica que eu perdi, não lembro o título, mas nela eu diferencio Paciência de Tolerância. Publiquei no Jornal O Nacional faz algum tempo e não encontrei mais no meu computador. Se alguém tiver, por favor me mande.
Escrito por Pablo Morenno às 19h55
[]
[envie esta mensagem]
COMO ERRAR MENOS À vitrine de uma loja de pequenos animais, observo o casal e seu filho escolhendo um bichinho para comprar. Estes pais que presenteiam suas crianças com um animalzinho de estimação são gente impregnada de boas intenções. Um ser vivo e não humano, dentro de casa, pode ser um companheiro para o filho ou a filha, ajuda a desenvolver o cuidado, a afetividade melhora e, ainda, amarra desde a infância um laço de respeito à natureza. Quem gostou de uma tartaruguinha jamais vai comê-la na sopa! Mas pais, mesmo cheio de boas intenções, são seres errantes. Falo “errante” não só porque vagueiam preocupados em bem educar os filhos. Falo “errante”, também, porque erram acertando. Para completar, com o tempo, os filhos acabam achando os erros dos pais grandes acertos. Prova cabal de que a humanidade escreve sua história tentando discernir o certo do errado e fazendo perguntas sobre um e outro. Apenas um pai muito doidão, ao comprar um mascote para o filho, poderia pensar que seu gesto pudesse levá-lo ao alcoolismo, ou transformá-lo em um assaltante dos cofres públicos, ou em uma assassino em série. O problema é que os pais pouco sabem onde e como seus gestos terão eco na personalidade futura dos filhos. Mesmo o amor é remédio de dose difícil. E quando o amor se transforma em coisas, fica mais difícil ainda contar as gotas. Filhos que passaram por grandes dificuldades podem se tornar cidadãos compromissados com suas comunidades. Por outro lado, filhos muito mimados podem ser tiranos. É o complexo do filho único cujos expoentes como Hitler e Napoleão marcaram negativamente a história. A história se alterna entre períodos de excessiva severidade com os filhos e outros de liberação irresponsável. Sabe-se que somos uma mistura entre os impulsos inatos e a educação, entre os instintos e os freios sociais. Os pedagogos aconselham e desaconselham e, ao passar das gerações, quando o estrago já está feito, descobre-se que o brilhante pensador, guru de uma geração inteira, estava equivocado. Há outro dilema, quase que insolúvel. Como cada ser humano é único, as lições dos outros de pouco servem. Já que falamos dos remédios, é como tomar o mesmo remédio para organismos diferentes. Ou alimentar com açúcar diabéticos e hipertensos, ou achar que pão e leite, como fizeram bem para os avós, farão bem para os netos, mesmo que sejam celíacos ou com intolerância à lactose. Sim. Mas como faremos, então, você deve me pergunta a esta altura? Será que o cronista encontrou a resposta correta? Desculpe. Eu nada sei e não tenho a mínima idéia de como educar bem um filho, ou como preparar o ser humano para ser alguém comprometido e ético, justo e solidário. Só acho que não podemos é abandonar o amor, mesmo em suas expressões equivocadas. E seguir pensando, pensando. Como fizeram alguns homens que transformaram o mundo para melhor, apesar de errar como todos os outros. Pablo Morenno
Escrito por Pablo Morenno às 21h58
[]
[envie esta mensagem]
Tapera
Na última sexta-feira estive na XIX Feira do Livro do Município de Tapera-RS. Com o tema "leitura:um novo olhar para a vida", a cidade movimentou crianças, jovens e adultos com encontros com escritores como Caio Ritter, Duca Leindecker e eu. Além dos escritores, houve atividades teatrais, contação de histórias, exposição de livros, mateada, sempre com a leitura sob os olhos. Tive a alegria de estar em três escolas e, à noite, conversei com a comunidade sobre a vida, a literatura e a leitura. O primeiro encontro da manhã foi com os estudantes do ensino médio da Escola Estadual Oito de Maio. 
Uma turma alegre que, ao final do bate-papo, me entregaram um avião de papel com trechos de meus textos e um retrato autografado por todos. O segundo encontro foi com os alunos do Ensino Mèdio da Escola Estadual Dionísio L. Chassot. 
A turma do Dionísio me marcou pelas perguntas inteligentes dos alunos. Depois da palestra, alguns alunos queriam continuar o papo nos corredores. Infelizmente, como tinha mais uma escola para visitar, interrompemos a conversa, sempre interessante. O terceiro encontro seria com os alunos do ensino médio da Escola Estadual N. S. Imaculada. Mas, antes, os alunos da pré-escola, que leram UM MENINO ESQUISITO, apareceram lá para me fazer uma surpresa e uma homenagem. A professora Marli, criativa e inteligente, motivou os aluninhos com suas curiosidades, tendo por base o poema CURIÓ CURIOSO. 
Depois dos poucos minutos com as crianças, o papo seguiu com os alunos. Conversamos sobre a arte, a literatura, e a crônica. 
Meu dia intenso em Tapera encerrou com uma palestra para a comunidade em geral , após uma homenagem aos escritores locais. Meu obrigado à companhia sempre disposta da Secretária de Educação Soeli, da Kely e ao Carlos da Livraria Educar.
Escrito por Pablo Morenno às 23h33
[]
[envie esta mensagem]
URBANOS  Rio de Janeiro e São Paulo, as duas mais badaladas cidades do País, foram há pouco dias marcadas por um novo movimento urbano. Não. Não. Não foi o renascimento dos caras-pintadas nem os sem-teto, ou os fora-alguma-coisa. Falo do movimento dos sem namorados. A passeata dos sem namorados é um dos muitos contra-sensos das metrópoles modernas. Depois da liberalização sexual dos anos sessenta e da revolução cibernética, não parece razoável a solidão. Jamais pensei que as gerações do MSN e dos sites de relacionamentos necessitariam sair às ruas para pedir companhia. O que se espera das metrópoles físicas e virtuais é um maior entrosamento humano. Mas não é o que acontece. O movimento dos sem namorados se complementa, ou melhor, se esclarece, com um outro fenômeno tirado dos jornais. È um serviço surgido em São Paulo e que ainda vai dar o que falar. Um grupo de amigos resolveu criar uma empresa de acompanhantes, sem conotação sexual. É o serviço de amigo pago. O serviço do amigo-acompanhante é para aqueles homens e mulheres solitários, metropolitanos, que não possuem ninguém disponível para acompanhá-los em programas cotidianos como um passeio ao museu, uma boate, a um jantar, ou a um jogo de futebol. Se você mora em uma grande cidade e não tem amigos, basta ligar e contratar o serviço, desde que pague por hora e que arque quaisquer despesas. A passeata dos sem namorados e o serviço de amigos expõem uma das maiores feridas urbanas: a solidão. A competição no trabalho, a diminuição das famílias, – quase não existem irmãos ou primos nas novas gerações-, a desconfiança, o medo, a violência, motivam as pessoas a se fecharem em casas ou apartamentos, sem contatos afetivos. Homens e mulheres trabalham o dia inteiro, a semana inteira, o mês inteiro, o ano inteiro, sem ultrapassar o pátio do profissional. Vizinhos não se conhecem, colegas de trabalho temem a concorrência. Na rua, o medo é de assaltantes e assassinos. As cidades ergueram os arranha-céus e acabaram com as árvores, com os pássaros, com os rios, e com o amor. Quem sabe, quando os rios ficarem limpos novamente, quando as árvores tiverem ninhos e fizerem sombra, haverá mais encontros, e não precisaremos mais pagar pelo amor ou por amigos. É bem possível que isso demore algumas dezenas de anos. Mas não custa esperar.
Escrito por Pablo Morenno às 22h42
[]
[envie esta mensagem]
Mamíferos
MAMÍFEROS
Algumas coisas aprendidas na escola levam um tempo para mostrar sua importância. Por exemplo, as lições de biologia. Especificamente, a aula de mamíferos. Somos mamíferos, insistia a professora. Igual à baleia, o maior do planeta, e ao morcego, o único com asas. Mamíferos vivíparos, reforçava a mestra. Contrário daqueles que se desenvolvem num ovo, fora da mãe, formamo-nos dentro de seu corpo. Primeiro um vínculo sanguíneo. Depois, no toque de pele com pele, continuamos a receber seu sangue, transformado agora em leite. O vínculo físico da natureza sucede-se por um vínculo de afeto da vida. Não sei se os outros mamíferos aprendem afeto com suas mães. Não posso perguntar a eles. Quanto aos homens, não há dúvida. Ao menos deveria. Apesar de mamíferos, temos ainda outras diferenças com a maioria deles. Observei isso muito bem quando, ainda criança, morava com meus pais numa propriedade rural. A maioria dos mamíferos nasce e já se põe em pé. Em alguns minutos estão andando, logo correm e saltitam. Os bovinos, os eqüinos, os caprinos... Nós não. Nascemos tão frágeis. Assim permanecemos por vários anos. Se não houver alguém disposto a nos empanturrar de cuidados, não temos como sobreviver. Qualquer predador nos apanharia muito fácil na natureza, se não fôssemos dotados de inteligência e cultura, diversamente dos outros animais. Para completar, somos pequenos, comparados às baleias. E somos despidos de asas, para orgulho dos morcegos. Há algumas semanas, li nos jornais: mãe mata filho drogado. Aqui e acolá, aparece nos noticiários: filho mata seus pais. Lembro das lições de biologia. Desses vínculos físicos e de afeto. Nós humanos, frágeis e carentes. No dia das mães não esqueçamos. Somos mamíferos. Vivíparos. Feitos de afeto. Somos mamíferos, como baleias e morcegos. Neste dia, mais do que melosos discursos, pensemos na essência de afeto. Ou invejemos as baleias, porque termos instintos tão pequenos, e os morcegos, por nossa enorme falta de asas. Pablo Morenno
Escrito por Pablo Morenno às 16h53
[]
[envie esta mensagem]

FLORES Mudamos de um apartamento para uma casa. Trouxemos algumas plantas. Como a casa tem jardim, na frente e fundos, aquelas plantinhas de apartamento ficaram mixurucas, sem condições de concorrerem com grandes plantas para estes espaços de uma casa, sempre maiores. Entre as plantas, duas ou três violetas, abandonadas agora à sua sina, sem nenhum cuidado. Na verdade, esperava que elas morressem, por sua própria conta. Nada de muita atenção, água só da chuva. Apesar do desleixo, descubro, esta semana, que uma das violetas abandonadas floresceu. Penso que foi para chamar a atenção, um modo de pedir carinho, como se fosse um gato ou cachorro. Os seres vivos são tão surpreendentes! Essa história da violeta foi um alívio, entre o assassinato do casal de idosos em plena manhã, e da garota vitimada enquanto aguardava o ônibus. Tragédias nos fazem perguntar “por quê?”, e há poucas respostas. Pior, quase não há respostas. Como também não sei o que escrever sobre esses assassinatos que chocaram Passo Fundo nestes últimos dias, resolvi transcrever uma crônica do Drummond de Andrade. Espero que a literatura nos ajude a pensar, e nos humanizemos um pouco. Aí vai: “Furto de flor Furtei uma flor daquele jardim. O porteiro do edifício cochilava, e eu furtei a flor. Trouxe-a para casa e coloquei-a no copo com água. Logo senti que ela não estava feliz. O copo destina-se a beber, e a flor não é para ser bebida. Passei-a para o vaso, e notei que ela me agradecia, revelando melhor sua delicada composição. Quantas novidades há numa flor, se a contemplarmos bem. Sendo autor do furto, eu assumira a obrigação de conservá-la. Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia. Temi por sua vida. Não adiantava restituí-la ao jardim. Nem apelar para o médico de flores. Eu a furtara, eu a via morrer. Já murcha, e com a cor particular da morte, peguei-a docemente e fui depositá-la no jardim onde desabrochara. O porteiro estava atento e repreendeu-me: – Que idéia a sua, vir jogar lixo de sua casa neste jardim!”
Escrito por Pablo Morenno às 22h48
[]
[envie esta mensagem]
Bassano Leitor
Voltei de Nova Bassano acreditando no projeto Bassano Leitor. Se acontecer como acontece no Colégio Cobalchini o sucesso é certo. À frente a Odete, da Secretaria de educação, e Analice, que já foi diretora do Cobalchini, agora vereadorda, e com toda a experiência em leitura. Ao menos o que vi na quinta-feira, demonstra o entusiasmo do professores, dos CPMs e dos dirigentes municipais. Vamos aguardar a vitória da leitura.
Escrito por Pablo Morenno às 22h30
[]
[envie esta mensagem]
nOVA bASSANO
O Município de NOva Bassano-RS está implantando um projeto de leitura em todas as escolas municipais. No dia 23/04, às 19h30min, estaremos o editor e escritor Walmor Santos e eu falando na Câmara de Vereadores sobre a importância da leitura. Depois retornarei para trabalhar nas escolas.
Escrito por Pablo Morenno às 22h09
[]
[envie esta mensagem]
VELHO Tenho um amigo que diz “meu velho” para qualquer um, sem olhar a idade. Chama até de “meu velho” seu filho, com menos de dez anos. Meu velho, deixa de ver televisão e vai fazer os temas. Meu velho, o Grêmio está uma vergonha. Meu velho, vou fazer um churrasquinho lá em casa domingo. Com a permanência de Naná no Big Brother, tentou-se um imbróglio com a idade da participante. No dia em que foi eliminada no paredão, o apresentador fez um longo e meloso discurso sobre os velhos ativos, e que a participante deveria retornar ao mundo para fazer coisas. Talvez pensando que se ela ganhasse um milhão nem pudesse aproveitá-lo. Na novela das oito, o velho Cadore, para minimizar na empresa o confronto entre os filhos, retoma a presidência, depois de já estar aposentado. E o psiquiatra Dr. Castanho, seu amigo, se diverte entre os jovens da gafieira. No final do ano passado, um estudo de um banco privado sobre a aposentadoria surpreendeu. O Brasil revelou um perfil positivo em relação às expectativas para o futuro, já que 93% das pessoas entrevistadas (com idades entre 60 e 79 anos) se descreveram como em razoável, boa ou muito boa saúde. Dos entrevistados, 94% contaram que vão ajudar os pais quando estes ficarem velhos, contra 80% na média mundial. E os brasileiros com mais idade também estão se preparando para ajudar seus filhos: 93% contra 70% no resto do mundo. Velho, como palavra pra gente, perdeu a importância. Aquela nuança de desuso, coisa necessitada de reforma, já não se aplica aos avançados em anos. Hoje, a maioria das pessoas, morre de repente, sem ficar velho. Claro, morre idoso, mas sem aquele estigma de inutilidade. São homens e mulheres que, de repente, deixam a vida sem aquela longa véspera, espera, da morte. Interessa-lhes a vida, simplesmente. Vão vivendo ao máximo, sem reticências, como no tempo de infância. Esses homens e mulheres de idade avançada namoram, trabalham, viajam, praticam esportes e, de repente, deixam a vida assim, de um dia para o outro. Não fizeram crochê, não ficaram ranzinzas, nem viveram à custa dos filhos. Por estas e outras, quero outra palavra pra mim, daqui a alguns anos. Inventem com urgência. “Meu velho, só aceitarei de meu amigo. Pablo Morenno
Escrito por Pablo Morenno às 22h07
[]
[envie esta mensagem]
Croniquetas
TRÊS CRÔNICAS CURTAS 1- Onde guardar. Viver é a arte de armazenar tragédias. Quem não sabe armazenar tragédias não consegue sobreviver. As tragédias pululam nos jornais, na televisão, na cidade inteira. A gente senta na varanda, faz um mate, e fica desejando a paz, a segurança, um paraíso que quase não existe em nenhum lugar. Aumenta o número de homicídios na cidade. A economia mundial está à bancarrota. Um louco qualquer saiu atirando sem olhar a quem. Exceto, é claro, alguma flor que abriu no quintal e a gente fica regando pra que dure um monte de dias. O mais preocupante das tragédias é que esperamos os outros construírem a paz. E os outros ficam esperando a gente. O tempo passa e nós ficamos esperando. As tragédias vão aumentando. E já estamos sem frascos para guardar. Lá se foram os copos de massa de tomate. Os vidros de nescafé. Os potes de margarina não existem mais. 2. Onde encontrar? Li apenas um livro de Paulo Coelho. E aproveitei bem. Porque não lerei outro tão cedo. Santiago é um rapaz que tem um sonho. No sonho ele se encontra com um tesouro lá nas pirâmides do Egito. O rapaz é apenas pastor. Vende as ovelhas, pega um navio, torna-se vidreiro, enfrenta as tempestades de areia e a guerra. Um dia, depois de atravessar o deserto, encontra-se perto das pirâmides. E lá, depois de rodar o mundo, depois de quase ser morto, alguém lhe conta outro sonho. Neste outro sonho, o tesouro está lá na aldeia do rapaz pastor. Muito mais perto do que ele imagina. Ele volta, descobre o tesouro, mas mesmo assim está insatisfeito. E parece que tudo vai recomeçar novamente. O Alquimista. 3. Sonho de pobre Sempre via nas novelas as beldades em enormes banheiras, quase se afogando em espumas. E tive um sonho. Era preciso tomar um banho daqueles, para que eu me sentisse um pouco especial, dentro do mundo das celebridades. Comprei uma casa com banheira e precisávamos inaugurar. Saímos pela cidade e as lojas estavam fechadas. Esperei mais um final de semana. Compramos espumas, e sais. Tudo a preço de caviar. Colocamos os vidros quase cheios na banheira, e nada das espumas das novelas. Por fim, usamos detergente de cozinha. E fez um espumão dos grandes. Tudo igual à TV. A gente anda por aí com cheiro de panela. Mas estamos felizes. E isso sempre conforta qualquer coração no meio desse mundo cheio de tragédias.
Pablo Morenno
Escrito por Pablo Morenno às 22h54
[]
[envie esta mensagem]
Violência e família
O COMEÇO DE TUDO Na semana passada, em razão do dia da mulher, a violência familiar foi o tema de reportagens e programas televisivos. Parece estranho. Ninguém espera que a família seja local da violência, mas espaço para que nos protejamos das ameaças do mundo. Nascente do amor e do afeto. Porém, isso é cada vez mais raro. A família, a chamada célula da sociedade, longe de ser um lar doce de batata doce, muitas vezes é lugar de exercício e aprendizado de violência. Pimenta com jiló. Veja-se, por exemplo, a família do personagem Zeca da novela Caminho das Índias, o garoto mimado que espanca colegas de escola, e é defendido pelo pai e pela mãe. Isso não é apenas história de ficção. Já fui professor em colégios de classe média, e mais de uma vez presenciei situações similares. Em uma delas, um aluno jogou um estilete num professor. Por sorte atingiu o quadro. Poderia ter ferido o professor ou um colega. Chamados à escola, os pais, acusaram o colégio de perseguir o garoto. Exatamente como nas novelas. A família não é mais a mesma. E temos apenas duas opções. Ou se volta ao passado com as famílias tradicionais, ou o Estado, as Igrejas, a escola, tentam criar um novo modo de vivenciar as relações familiares adaptadas ao grande número de separações, múltiplos filhos de vários relacionamentos, e a permissividade excessiva de uma sociedade que não sabe o que fazer com seus jovens e crianças. Uma volta ao passado não é viável. Não inventamos ainda a máquina do tempo. Ao nosso dispor temos apenas o presente e o futuro. Ambos nada comprometedores. As famílias mudaram, e o papel dos novos pais e das novas mães acaba sendo papel nenhum. Acho que a violência familiar, apesar de tudo o que disse acima, é antitética. Esta palavra bonita confronta uma realidade. A família, sempre foi, e será, lugar da aprendizagem do afeto equilibrado e do amor maduro. A questão, no fundo, é que onde a violência foi morar, a família deixou de existir. Os pais e os filhos acham que são o que já deixaram de ser. Pablo Morenno
Escrito por Pablo Morenno às 22h34
[]
[envie esta mensagem]
A FESTA DO CORPO 
“A Igreja diz: o corpo é uma culpa. A ciência diz: o corpo é uma máquina. A publicidade diz: o corpo é um negócio. O corpo diz: eu sou uma festa.’ Eduardo Galeano Carnaval, provavelmente vem da palavra latina "carnelevarium" (Eliminação da carne). Carnevale - vocábulo italiano, que significa "adeus à carne", é festa de muita alegria, folia e orgia que precede à quarta-feira de cinzas. A comemoração do carnaval é de origem pagã. No Egito antigo, no outono, realizava-se a festa do boi Apís - animal sagrado. Escolhia-se o boi mais belo e todo branco o qual era pintado com várias cores, hieróglifos e sinais cabalísticos. O boi era conduzido pelas ruas, e levado até o Rio Nilo, onde era afogado. Em procissão, sacerdotes, magistrados, homens, mulheres e crianças, fantasiados grotescamente, iam atrás dele dançando e cantando até seu afogamento. Com as conquistas da Grécia e de Roma, a festa foi transportada para outros países, sob outras formas e denominações. Na Grécia, tomou o nome de Dionisíaca em honra ao Deus do vinho - Dionísio e em Roma, Bacanal em homenagem ao deus do vinho, Baco. Nessas comemorações, a aristocracia misturava-se com o populacho, os tribunais e estabelecimentos oficiais se fechavam, e se abriam todos os lugares de divertimentos, onde a devassidão, a orgia e os prazeres sensuais eram inomináveis. "O Bacanal ou Bacchanalia era o Festival romano que celebrava os três dias de cada ano em honra a Baco, deus do vinho. Bebedices e orgias sexuais e outros excessos caracterizavam essa comemoração, o que ocasionou sua proibição em 186dC." (The Grolier Multimedia Encyclopedia, 1997. Traduzido por Irlan de Alvarenga Cidade) Minha pergunta é uma só: porque ainda existe o carnaval se o mundo todo faz bacanal o ano inteiro? Pablo Morenno
Escrito por Pablo Morenno às 22h38
[]
[envie esta mensagem]
Ferias
A partir de amanhã, estarei curtindo a praia de Garopaba. Uma semana apenas de férias. Mas já é suficiente para recarregar a esperança.
Escrito por Pablo Morenno às 17h44
[]
[envie esta mensagem]
Língua encantada

LÍNGUA ENCANTADA O pai lê a história de Chapeuzinho Vermelho para a filha no berço. É noite. De repente, uma capa púrpura desce do céu sobre o varal. Este é o início de Coração de Tinta, um filme que esteve em cartaz recentemente. Meggie trocaria facilmente sua vidinha chata pelas aventuras que costuma ler nos livros. Pois parece que seus pedidos foram atendidos. Seu pai Mo, com quem mora sozinha depois do desaparecimento de sua mãe, esconde um estranho segredo - ele é capaz de dar vida aos personagens dos livros quando lê em voz alta. Esses seres, capazes de dar vida ao que leem em voz alta, chamam-se “Línguas Encantadas”. No filme, as conseqüências são dramáticas. Na vida, isso acontece imperceptivelmente. A todo momento, personagens dos livros saem da realidade. E aqueles da realidade mudam-se de mala e cuia para os livros. Além de línguas, é preciso ter olhos encantados para perceber. O filme parece absurdo. Não é. O mundo todo é fruto de nossa imaginação, transformada em palavra, depois moldada em matéria e construída. Este jornal que você lê, foi imaginado pelos redatores, pelos colunistas, pelos repórteres. A cadeira ou o sofá em que você se senta foi imaginado pelos designers. Do mesmo modo os automóveis, as ruas, os edifícios, as cidades. Tudo passou pela imaginação, foi transferido a imagens e palavras, e depois se moldou em ferro, madeira, cimento, asfalto, papel. Temos pouca consciência de que as guerras foram declaradas, de que os casamentos foram prometidos, de que as teses foram defendidas, de que os planos políticos foram discursos. Guimarães Rosa prendeu os personagens caboclos do sertão e os encarcerou em seus textos. Érico Veríssimo caçou Capitão Rodrigo e Ana Terra no pampa e transformou-os em palavras em O Tempo e o Vento. Cada vez que lemos, seja em voz alta ou não, os caboclos do Sertão cortam seu fumo sentados em nossa sala. Capitão Rodrigo, quando a gente lê, passa galopando pelo nosso prédio. E dizemos, “vou ser execrado na reunião do condomínio”. A gente vê, e guarda segredo, com medo da opinião dos outros. Não falamos nada, mas sabemos. Essa relação entre palavra e realidade é culpa de Deus. Foi Ele o primeiro a brincar de Língua Encantada. “Faça-se a luz, e a luz foi feita”. Como fomos feitos à imagem e semelhança, vez e outra começamos a ter umas tentações de transformar as coisas pela palavra. Tenha muito cuidado com as coisas que você lê. Pense que elas tornam-se reais, querendo ou não. É próprio dos humanos ter palavra e, por conseqüência, línguas encantadas. Essa bênção, ou maldição, nos acompanha sempre. Mesmo quando lemos em silêncio. Pablo Morenno
Escrito por Pablo Morenno às 17h39
[]
[envie esta mensagem]
[ ver mensagens anteriores ]
|